
Resolveram nos matar, só que ainda estamos aqui, vivos.
Que moral tem esse poder estabelecido para impor o que eu posso ou não fazer?
Nossa democracia é cheia de ordens mais do que ilegais, que agridem, ferem e matam costumes. No meu início de complexo penitenciário eu trabalhava com tênis vermelho. Ninguém se importava com isso. Só de vez em quando algum aluno ou amigo me elogiava pela cor. Eu lecionava em Bangu III Comando Vermelho. Entre o meu tênis e a facção, de maneira evidente só havia a igualdade da cor. No profundo, nosso fechamento estava muito além, na almas. E mais extenso e firme do que todas as muralhas, visíveis e invisíveis.
Estando já no cinco, Penitenciária Elizabeth Sá Rego, começaram as proibições autoritárias de cores; em início com pequenos toques verbais. Certo dia apareci com camisa mais para rubra, e ouvi piadas de guardas de interdito. A partir daí, toda e qualquer vestimenta masculina ou feminina, de calças a vestidos e blusas, chegando até a meias e golas, sendo vermelhas estavam claramente proibidas.
Na minha cabeça eu me dizia, em objeção silenciosa, que não só eu, mas todos os professores e professoras, não éramos facção vermelha. Minha revolta não vinha por ser ou não ser cor de facção, mas pela arbitrariedade injusta e tirânica da imposição. No fim nos igualavam, nós professores, à condição de internos; sem o sermos ainda. E qualquer contra clarificado ao imposto, podia e às vezes era, como ainda é, tido e tomado como afronta à autoridade da guarda, e até ameaça ao estabelecido.
Por esta época, 2004/2005, recém saído do III, eu presenciava de fora e torcia pelo seu coletivo de presos por sua resistência; quando batalhão de soldados armados invadia aquela cadeia tentando impor aos internos o uso da camiseta verde, o uniforme de preso, e eles inteiros diziam não. Foi lá, na Penitenciária Dr. Serrano Neves, que aprendi na face, no dia a dia, que a inteligência só conhece a liberdade. Não a liberdade outorgada, dada por alguém, mas a conquistada por um espírito forte. Talvez por isto estejamos tanto em prisões no social.
Em pequenos provoques, meio que sutilmente eu testava as psicologias dos guardas. Alguns poucos quase não ligavam para minhas desobediências da cor, ou até nem. Já outros, raivosos ou neuróticos, vendo qualquer mínimo sinal de contraordem, como um lenço vermelho por exemplo, tomavam o uso quase crime. E qualquer irregularidade dá o pleno direito ao guarda, de não permitir o acesso do infrator à cadeia, mesmo para trabalhar.
Em conjunto com esse quadro de proibições penitenciárias, comecei a perceber que os nomes das facções sumiam das mídias. Havia certamente uma ordem central, um recado. O desaparecimento do que não se quer, do indesejável para o poder central, entre outras estratégias de ação se dá pela negação em um certo silêncio; mas talvez principalmente por esta. Referindo-se aqui a toda e qualquer coisa, legal ou ilegal, justa ou injusta, bastando somente por não servir não se dizê-la, relegando-a para o mutismo do inexistente. E isto se dá em realidade nacional, digo brasileira.



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