
Por aqui só vigora o chicote: o castigo, a culpa.
Eu tinha meus medos noturnos e diurnos, como indefesa criança pequena. Movimentações de guardas na galeria ou na cela, produziam imediato fortes apreensões e duros fantasmas, por não se saber quem eles vinham pegar, ou o que faziam por ali altas horas da noite. Quebravam o silêncio e a tranquilidade de tudo. Passei incólume por dez anos de grades sem nem um castigo. Talvez meu jeito amedrontasse. Mas o que eu preciso dizer aqui é desse medo que me perseguia, que se instalara ou aparecera não sei desde quando. Não havia nada, nem tampouco algum sinal de morte e ele estava lá comigo, como uma brasa acesa que quase nunca se apagava. As histórias ouvidas ajudavam a reacendê-lo. Já tive medo de companheiros de cela, que nunca me fizeram ou mostraram algo ameaçador. Mas a trama maior, capital, era sempre dos guardas, que como um pai ou mãe ameaçadores e cruéis, podem nos bater e torturar a qualquer hora. Para muitos, e eu era um deles, a figura do guarda substituía perfeita a do pai maltratador; daquele que impõe e exige da criança aquilo que ela nem mesmo compreende. Eu acuado ainda menino por adultos ameaçadores, ansiava por vezes sumir por dentro do chão; talvez buscando a proteção da Mãe-Terra, num substituto do útero. Cada um de nós bandidos e presos, entramos invariáveis inteiros para dentro das grades, já que estabelecido está, que ninguém pode fugir do próprio Eu. Nas horas das coragens eu me restabelecia, mas sabia sempre que ele estava lá, o torturador medo. Como disse dos meus medos dos outros, também convivi sem entender à época, com os medos de alguns presos de mim, por vezes bem mais fortes que eu. Havia então um grande enigma.
Hoje, aos mais de dez anos de pura liberdade nas ruas, alertado a partir das prisões vejo gente como as de lá, em estados de profundo medo sem causa; pelo menos sem causa atual ou aparente. Como também de muita culpa à flor da pele em pessoas que não fizeram nada, que nunca mataram ou maltrataram por exemplo. Então, isto posto assim, pelos meus próprios abismos psicológicos buscarei elucidar-me, ao menos um pouco de mim. Como ao mais no grande objeto de estudo, a Psicanálise, saber e dizer das neuroses dos outros e da minha.



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