
Se eu tivesse medo de morrer eu não seria escritor.
Houve uma geração que começou a reagir e fomos crescendo. Porque antes sentavam os pés em nossas portas, arrombavam, mexiam em tudo e não acontecia nada; nem dava nos jornais. Nesse tempo, nessa parte de antes, ficamos e estamos em história morta ou apagada pelas borrachas da lei. Mas em nossos corações fomos virando bandidos. Certamente que não suportávamos mais. A polícia sempre invadindo, fazendo e acontecendo de tudo sem nenhuma barreira ou contenção. Assim começamos a pegar em armas, cada vez mais como está acontecendo até agora; e continuaremos sempre a fazê-lo. Favelado morrer de tiro de polícia vai ficar, como está ficando, cada vez mais caro e perigoso. Descobrimos que polícia também tem medo, é um corpo que morre e que assim pode morrer pelas nossas mãos. Extenuados, cansamos de ser só vítimas, mudas e carneiradas vítimas. Até os nossos ares de becos e buracos escondidos funcionam e são a nosso favor, nos avisam e alertam dos corpos e fedores de polícia na área. Nosso mundo é só nosso mundo, dentro e fora de nós. A coisa está tão reagente, que muitas crianças de nós já crescem evoluindo a futuros matadores de polícia, mesmo ainda sem nunca terem feito algo. Enjoamos e saturamos de só nosso lado favelado morrer; aprendemos e já gostamos de matar. Quebram e matam alguns ou muitos de nós, nas incursões imprevistas de invasão favelar, mas não quebram nem matam mais nossa alma de reação. Nosso corpo não está mais só vencido, dentro dele cresce Vida e Vontade. Mães guerreiras já põem filhos guerreiros no mundo, para atirar em polícia e matar. Novos crias* sempre estarão chegando. Vingaremos eternos os muitos sangues das nossas calçadas.
Disto tudo se conclui o seguinte. Se antes as polícias entravam livres e sem medo nas favelas, agora não. Se antes nem precisavam engatilhar e apontar armas pra gente e nossas casas, agora também não. Se antes não exigia operações de guerra e muitos combates, agora pelo contrário exige muito. De bobos e inocentes agora somos lobos, por vezes e muitas já alguns leões. O demônio Leviatã chamado Estado vai ter sempre que lutar para nos deter. Junto da Morte também existe a Vida. Vida que jamais se cansará de viver. Muitos dos nossos tiros bandidos ainda estão por acontecer. Matar polícia para nós não é mais crime.
Nota do autor: novos crias, jovens nativos da favela que gloriosamente entram para o combate.



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