“Não tenho medo de prisão!” Me gritou em tom de ameaça e medo o sujeito asqueroso e sujo, já num adiantado nosso de conflito e discussão. Conto como foi. Ao sair do salão do almoço ainda na porta mas já na calçada, alguém me abordou em intimidação pedindo dinheiro. Sem olhar, fechei bem o rosto em firmeza e respondi com braço e dedo na defesa um raivoso não indicador. Ao que o homem, eu já de costas, começou a vociferar pequenos mas altos murmúrios intimidadores para minha sisudez misturada com ódio. Distanciando-me um pouco, sua boca atirou-me maldições de assaltos e roubos futuros, como castigos ao meu não ajudar. Sem aviso voltei-me raivoso e perguntei-lhe o que dissera. Num recuo de medo o que estava agressivo se recolheu e se distanciou. Na segurança de uns metros voltou a ameaçar novamente dizendo sobre assaltos. Sem que eu mesmo esperasse, mostrei-lhe o relógio de bolso e questionei para que o roubasse. Em resposta me perguntou se eu o mataria. Respondi que eu não precisava fazer isto; virei as costas e desci a rua estreita e lotada de gente. A seguir vamos à história de um antes.

De uns tempos para cá, à frente da Confeitaria Colombo* posta-se diariamente um bando de rapazes em meia quadrilha. Cada um com pequena caixa de engraxate ou de drops a fingir honestidade e trabalho, abordam principalmente os turistas e quem se parece com eles, que é o meu caso. Descalços e pés sujos, imploram um par de sandálias havaianas da loja próxima. Nesse disfarce, porque o pé no chão é um disfarce da extrema pobreza, dobram e vencem a rigidez mesquinha de muita gente ou acertam na caridade alheia. Golpeiam e golpeiam. Nesse palco de mundo e rua as bocas delinquentes criam e pregam histórias; a mais acertada, a que dá melhor convencimento e retorno, permanece mais tempo na boca que a diz como uma arma eficaz. Vencer ganhando o outro é o grande lance, como um brilhante pastor no poder de um púlpito. No fundo os delinquentes pseudoengraxates e camelôs estão também no jogo da simulação pastoral. Porém continuemos na quadrilha desarranjada de rua, aonde o acerto do ganho foi e vai atraindo mais golpeadores. A clientela em enorme fila de espera na calçada da confeitaria, gente de outros lugares e assim indefesas e mais fáceis de ganhar, tornou-se um campo fértil e visado das traquinagens da miséria com delinquência.

Mas meu conflito com o homem do início tem outros sabores, melhor, outros dissabores. Posso e sou enganado como qualquer um, porém, um ódio mortal me nasce, quando me veem e assim me põem, já antecipado, um natural otário bem fácil. E este jogo os enganadores na frente da confeitaria fazem. Minha própria periculosidade bandida me mostra isso, o desenrolar desse jogo realizado por aqueles picaretas. Minha vontade é limpá-los dali, como um crime pobre de inteligência que incomoda. Mas não posso, nunca poderei. E este não poder vem em mim de bem antes, dos meus tempos já quase finais de carceragem. E vou dizer este não poder. Amigo de fé na prisão me colocava na seguinte questão e certo embaraço de não poder lhe responder: se estava certo qualquer ladrãozinho de rua, que depois de roubar a miséria de um trabalhador se dizer empoderado do Comando Vermelho. O questionamento se dava na ética de se tomar só de quem tem, e nunca de quem já não tem. Questão que não é o caso total do bando da Colombo, porém que na falta ou oportunidade tomam de qualquer um. A resposta para o meu parceiro de prisão, só agora muito tardiamente delinquentes já até meio mendigos me dão. Se o crime está no gesto, ele tem suas qualidades ou não, em conformidades com as necessidades e o estado social do indivíduo que o realiza. Numa nação rica, um faminto roubar um pedaço de pão de outro faminto é impossível; numa nação miserável isto acontece em qualquer esquina.

Nota do autor: Colombo, confeitaria famosa no Centro do Rio de Janeiro.

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