Fiquei eufórico quando na certeza de que enfim veria as detentas. Ainda mais, eu as conheceria pelo menos um pouco lecionando para elas. Não fazia a menor ideia de como eram e se comportavam. Só havia comigo as imagens tornadas públicas, de que no presídio de mulheres Talavera Bruce muitas tinham corpos de Hércules, de tão masculinizadas; num tom de que mulher do crime só pode ser macho. Na prisão Nelson Hungria só de fêmeas, aonde trabalhei, encontrei mulheres comuns como em qualquer lugar do mundo. Sendo a quase totalidade jovem, revelando um quadro social feminino do dito mundo da liberdade negativo, criminoso. Alguns gritos eram histéricos ou muito nervosos. Na escola mesmo, ou seja no ambiente escolar, a feminilidade daqui de fora estava toda lá, presente. Senti aos poucos uma alta estranheza, pela enorme separação entre as livres, as professoras, e as de dentro, as internas do crime. Foi a descoberta de que as mulheres não são unidas quanto ao gênero; a igualdade das vaginas não lhes diz nem representa nada.

Nos afazeres das rotinas escolares, como limpar o chão e carteiras, cuidar da pequena louça, xícaras, talheres, pratos e copos, as habilidades de donas-de-casa apareciam e ocupavam funcionando bem. As prendas das internas por vezes nos cativavam, professores e professoras. O refeitório dos funcionários, ainda na Nelson Hungria, é o mais bem cuidado conhecido por mim no complexo penitenciário. As presas, senhoras que trabalhavam nele arrumando tudo, punham ares e realidades de uma sala de refeições doméstica, com toques de algum carinho. Mulheres mais retraídas e mais submissas.

O sexo existe por lá como em qualquer lugar do mundo; a grade talvez reforce um mais erótico. Quando se entra numa prisão ou igreja as genitálias vão junto, não ficam separadas em outro lugar. O ajuntamento de corpos produz mais fome, mais desejos. Raro aos meus olhos, mas vi cenas de intensos amores entre mulheres. Em dias de solário, aos banhos de sol, meus olhos de macho faminto tentavam vê-las e viam, exibindo-se deliciosas, ao passarem num segundo pelas grades da entrada. Carnes suculentas, suculentas carnes. Mulher na prisão não é feito homem, em que alguns ao chegar nas grades querem se matar e não se cuidam bem no geral. Já elas, as fêmeas, se cuidam, se embelezam, fazem unhas e cabelos; algumas até desfilam. A desgraça do inferno prisional as atinge, mas não destrói a vontade estética; o mundo é mundo em qualquer lugar. Quando podem tentam dominar, inclusive o machismo sedento e cru dos guardas próximos. Eu mesmo, professor lecionante, descobri que em casa já não dormia mais direito, invadido pelas mãos e rostos que me serviam café ou que pegavam o giz e apagadores. Amante de corpos e corpos resolvi sair das carceragens delas. O regulamento prisional proíbe relacionamentos amorosos entre os funcionários e as internas.

Isto relatado ocorreu num período curto, dentro do tempo de uma década nossa de trabalho pelas prisões; na qual de uma única cadeia inicial e antiga quando chegamos, a Talavera, deixamos quando saímos mais duas abarrotadas de mulheres. Num aumento tão vertiginoso da população das presas, que jamais será revelado em números mas que existe, aos olhos dos que sabem ver.

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