Baile é coisa do demônio, nos dizia nosso pai beato religioso. Tínhamos a vontade do prazer da festa. Nos dias atuais as comunidades vivem o regozijo da multidão e da harmonia. Estamos nos morros do Rio de Janeiro. Num desses encontros festivos que admirei de perto, havia um corpo único em massa compacta de frenesi em requebros à vida. As almas dançam e cantam, inventam seus ritmos, suas fugas com prazeres. Vamos celebrar. É um gesto desde os nossos antepassados; louvar às estrelas, aos Deuses, aos mistérios. Miriã dançou diz a Bíblia.* O morro então festeja porque vive, por viver. A celebração do grupo, do corpo, no ritual. Assim como nosso pai a polícia veio subindo proibindo, negando o casamento e o gozo dos gestos com o barulho em volume. Música e dança, artes do sagrado, mas foram virando crime. Nem no asfalto* quase não dançamos mais.

Notas:

Na Bíblia, em Êxodo capítulo 15, versículo 20. Na tradução de João Ferreira de Almeida.

Asfalto: as partes urbanizadas da cidade, com ruas calçadas e demais serviços públicos; geralmente nas áreas baixas e de fácil acesso.

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