Lembro do Voltaire.

O que eu aprendi na prisão, a repórter da T.V. me perguntou; mais do que aprendi, descobria que nós ali somos pessoas, respondi. Antes bem antes, eu já preparava meus parceiros, de que quando a reportagem cochilasse nossa boca diria o humano primordial ignorado. Vai agora esse vazio, que requereu a afirmação anunciada para a repórter da T.V.. Vazio que ocupa o universo vivente brasileiro. O lugar desse vazio sempre preenchido por três nomes: bandido, favelado e pobre. O povo comum inteiro está sob a classificação deste trio negativo de palavras condenador, que estabelece toda forma de vida. São sinônimos entre si. Nomeiam toda uma realidade de fundo e geral. Não tem escape, quem não está numa palavra está em outra das duas restantes; nada impedindo habitar duas delas ao mesmo tempo ou as três. A negação já sendo a própria afirmação. Visto que a lógica nos mostra, que só é possível negar o existente; o que não existe sendo impossível de ser negado por já não existir. Estar os três nomes em nossas preocupações diárias é fazê-los existir, acontecer, nos enquadrando neles, mesmo no aparente não; como numa imagem em que sorrimos realizando a felicidade, não existindo nunca o antes dela e o depois, mais no de dentro o escondido. Ou você é isto, aquilo ou aquilo outro. Os conceitos nomeados matam contínuos e sem cessar um outro, que seria primordial e universal mas não é, nunca pode ser. Conforme a repórter obedecendo ao vigente, não o deixou escapar de dentro das grades prisionais, porque então fugido se espalharia liberto pelas telas acesas. Nós que lá estramos, que lá habitamos, somos simplesmente pessoas. Os outros dois nomes que não o de bandido, o pobre e o favelado, enraizados em nosso ser para nunca mais sair.

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