Do social ao pensamento.

Viemos fugidos não de qualquer coisa. Antes tem um tempo de empurra; ficamos tentando não vir, não sair de lá. Até a decisão final sem volta lutamos muito, com medo talvez de não dar nada certo. Mas a coisa vem, empurrada e socada, precisa de acontecer. O mundo, os modos do mundo e da vida impõem, obrigam. Assim, o mais jeitoso mesmo que cavernoso de tudo, é arrumarmos as malas. Que isto diz as trouxas, gigantes caixas de papelão entupidas, estufadas, lacradas com cordas e fitas adesivas, mais baús de madeira, num apego descomunal pelas coisas, de querer não se deixar nada. Se pudéssemos traríamos o tempo. Então, nas rodoviárias as idas ou vindas tanto faz, são definitivas mudanças pelos volumes. Os bagageiros dos ônibus lotam entupidos do que se pôde trazer. Viemos retirantes na fé, embarcados inteiros com todas as nossas mazelas, manias, apegos e vícios da alma. Dias de ônibus pelas distâncias; se não, pelo menos cansativas horas. E assim chegamos aqui, a um desconhecido de nós.

Nossos destinos só podem ser num alto de morro, ou cantos de chão bem longe, isolados e carentes de tudo. Temos que nos virar. Uma parentela às vezes nos puxa de lá fazendo ponte. Como ainda não temos casa nem ganho, viemos e ficamos dias no arranjo parental ou amigo, até nossa vida se ajeitar, se pôr. A miséria e o furor trabalhoso da vida nos dispõe a tudo que aparecer, quase sempre recebidos em alívio de um céu. E damos graças a Deus por isso. A fala nativa de onde viemos, diz pra todo mundo que ainda somos estranhos chegantes, até nossa boca se assujeitar aos modos do nosso novo lugar. Não estamos mais em nossa origem, esta quase sempre perdida ou rejeitada depois, com dores fundas de perda, de separação. Há choros secretos. Mas tudo aqui é melhor; ou, pelo pior daqui, o de lá distante é o pior de todos os piores. Migrar num país continente com um povo sem terra não é só uma vinda, costuma ser muito sofrimento em saudade e luto. Estes por vezes numa tumba que se deixou, de quem criança morreu, que não veremos jamais, nunca mais.

Estou dizendo apertado e cru, sem amostrar-nos a grande panela por dentro, o de não termos nunca um lugar no mundo. Respiramos aonde nos põem. E as invasões toleradas aumentando, subindo tetos e tabiques pelos morros acima cada vez mais. Moramos aonde ninguém quer ou chegamos primeiro. Bichos de criação doméstica da origem podem reaparecer, como galinhas e porcos, quem sabe até uma égua. Somos serviçais obrigatórios e penalizados da grandiosa cidade grande. Que nos ajusta na engrenagem de um emprego fixo legal, ou nas lutas diárias de um camelô assustado com a polícia. As mulheres viram domésticas, comerciárias, prostitutas e afins. Todos no ganha-pão que se consegue. Quando nada nos abraça, nossas mãos não alcançam, não conseguem ou nem querem segurar, entramos na necessidade e oferta no crime.

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