Um nicho grandioso da nossa epopeia diária.

Falamos dos astros, da metafísica do dia, mas sobretudo falamos das nossas mentiras. Quando alguém novato pergunta, dizemos que não temos tempo marcado, é nos dias e horas afins das nossas almas. O grupo borbulha na alquimia dos encontros. Por vezes, nos vemos como meninos felizes e interessantes, brigando cada um por seu quinhão de sabedoria e felicidade. Somos velhas crianças. Esquecemos do mundo de fora, da rua, porque estamos mergulhados mais nele, talvez na sua nervura. Bandidos e polícias se misturam, se digladiam nos espaços da lei e da contralei. Eu sou do crime, por vezes vocifero irado. Um deles não se cansa de me mirar com os olhos, como se tivesse só eu no burburinho de homens. A favela tem seu lugar garantido. Surgem nomes de mestres e de grandes leituras. Foucault é quem mais eu falo, outro me grita Paul Ricoeur. Alguém revive a infância pelo “Meu Pé de Laranja Lima”. As horas não passam nem voam, elas nem são sentidas. Quase sempre temos ânsias de dormir nela, entre charutos e garrafas cheias; talvez na busca de dormirmos no embalo sonolento das brigas, como irmãos quase aos tapas, todos juntos na mesma cama. Na ardência intensa da vida

Agora minha história por lá, naquele ermo de fumos e fumaças. Tímido e medroso no início de anos atrás, eu nem falava; também quase não ouvia, por precaução e reparo da ousadia de ouvir e ser guilhotinado do grupo de então, porque as coisas e as pessoas foram e vão mudando. Eu sou o que mais insisto, qual um analfabeto com desejos de aprender. Por estes dias estamos em delícias de saberes. Temos altos e baixos. Num ápice, quase todo mundo fala junto e ouve ao mesmo tempo, na luta humana do dizer e do ouvir. Trago comigo todo o meu conjunto de formação, a alma procura ser plena. Meu sussurro me veio saindo aos poucos, em anos de lento escoamento; hoje já dou meus gritos; gostosas gargalhadas também. Me lembro das tardes passadas na juventude, na esquina marcada dos encontros, dividindo um único cigarro comprado a varejo; todos se saciavam. Cheios de histórias ontem e hoje, perpetuamos sem saber a Vida na Terra.

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