Comecei no crime dentro da penitenciária Doutor Serrano Neves, antiga Bangu III, em 2002.

Nossa primeira fala teve a revisão prestimosa e atenta de uma carceragem humana e penitenciária, a de Bangu III. Assim então uma ação artística e de saber bandida. Há um relato a seguir. Dizer que foi e houve uma revisão é não dizer tudo. Antes porque sem ainda o saber entrávamos em um mundo desconhecido e tido impenetrável. E ainda mais eles, o grupo do coletivo penitenciário que me acompanhava, não sabiam como eu escreveria nossa história proposta e primeira; ou seja, o que eu estava vendo naquele momento de nós juntos ali nas grades. Talvez houvesse como penso hoje que houve, um grande gesto periculoso deles amigos bandidos, ao acreditarem, porem fé, num mero vestibulando de escritor. Haveria delações claras ou ocultas? Talvez todos se perguntassem; e com alicerçada razão. Pois, diante e sempre de uma literatura de autores, editores e livrarias, que quando não delatam condenam; existia no pensamento de quem escreveríamos, as pessoas do crime, uma refração natural que gênios passam por ela, até Kant foi censurado. Não havia então nada de novo; estávamos eu e eles no campo da ética, da ética da vida.

Uma pergunta: pode-se revisar um texto ainda não escrito? No caso eu rascunhando solitário o livro sugerido com a nossa história nas grades. Sabemos que só se pode revisar o já escrito, o produzido. Até e mesmo antes de tudo o discurso aceitável; aquele que todo falante sabe qual é, dentro dos limites do que se pode ou se deve tornar público. Houve nisso tudo uma ação periculosa em conjunto, minha que iria escrever e deles meus parceiros bandidos. Porque precisávamos começar a nos dizer; sairmos do nosso mutismo, de alguém que nunca falou. E assim tínhamos que entrar num novo crime: começarmos a falar. E falar não por vozes alienígenas mentirosas, que juram nos dizer. Sei que ainda estamos como bebês balbuciantes. Mas o nosso barulho, grão de voz saído de pensamentos ignorados, rejeitados e desconhecidos, pelo menos já começou.

Nota: o livro referido é “Outras Cadeias a Cadeia – Mergulho e Aprendizado em Bangu III”, hoje disponível no Google.

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