Grossas muralhas nos separaram a anos: as sociais e as das prisões. Nas terras inimigas comecei a ter um vazio de ser, parecia que eu não era mais vermelho. O desarranjo e o não importar com o social como nós, mais a sujeira fedorenta das coisas, me deixou num ponto cego, tudo zerava de vez. A salvação veio de um livro nosso recém-publicado e já meio esquecido: “Outras Cadeias a Cadeia”. Um professor e amigo lembrou-se dele, do livro amarelo, durante quase brilhante uma hora de aula de literatura. Afora, que chefão do inimigo, da facção terceira, achegou-se um pouco de mim no deserto pátio e gritou palavras de revolução, que aos seus olhos o volume continha. Isso não me animou, mas empurrou-me que desse mais umas braçadas, a ver se saía ou sobrevivia ao lodaçal do chão e do coletivo da cadeia Plácido de Sá Carvalho. Nem lembro direito, mas amarguei sufocado uns três anos por lá. O ofício de professor me obrigava a tais torturas de trabalho. Talvez que quisessem me apagar total do meu sangue corrente. Mas eu não saí das minhas próprias veias, artérias e capilares vermelhas. Pulei três casas.

Como um interno isolado que não deseja, eu esperava num canto tedioso de mim. Sem aviso com razões de segurança, veio minha remoção para Bangu Cinco, penitenciária que meu coração de professor namorava a anos; queria aprender nela e por ela da grandeza humana do seu coletivo. E lá em Bangu Cinco Comando Vermelho, meu olho de escritor novamente aflorou. Pois anos antes, na minha grande escola de vida primeira, Bangu Três, parceiro imorredouro do meu braço direito, implorou-me em alma que eu escrevesse sobre as nossas visitas. Sem que eu escritor quase percebesse um germe veio nascendo; o olhar das visitas passando começou a dizer-me a escrever; elas estavam ali. Mergulhei no turbilhão dos grandes encontros e das intensas esperas. Como um solitário à janela num horizonte rico de anseios e amores, pus-me a dizer-nos das nossas visitas. E um capítulo em livro já publicado* pensamos que saiu direito.

Nota: “A Prisão Quer Que Eu Morra”, disponível na Amazon em ebook. Livro este saído das bocas dos coletivos do Comando Vermelho, em Gericinó, Rio de Janeiro.

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