Ao escrever, estou vingando minha mãe querida que já se foi.

A TV mostra barreiras em nossas ruas talvez usando um drone espião. Ela sempre diz acertada que somos nós bandidos que as montamos. Mas nunca pergunta verdadeira por que as montamos; qual a história longa e sempre negada ou escondida, das montagens e usos de coisas para nossa defesa. Quais as origens desses e de todos os anteparos aos ataques da polícia. Já montou-se até um discurso dentro da fala oficial, de grandes mentiras e abrandamentos. Um corpo favelado morto se transformou na pureza higiênica matemática de um número; número de um cadáver a mais ou uma vida a menos. Os tiros mortais da polícia são sempre justos ou acidentais “balas perdidas”. Prováveis, certeiros ou inventados suspeitos já tudo justificam para terem sido abatidos. Duas realidades sociais se impõem e se opõem: a do favelado e a do não; a do perigoso excluso e a do dócil aceito. Porém voltemos às nossas barreiras. Que além delas lutamos e buscamos por um olhar que não seja este mortal de sempre. Um olhar que nos alivie do grande perigo; do perigo que nos obriga às barreiras, que nos aterroriza contínuo mais do que tudo; desse não humano a que nos impuseram. Enquanto nada acontece ou não vem só nos restam as barreiras. Inclusive aquelas dos montões de mortos nas ruas e becos da nossa história.

Todo morador participa das barreiras; mais ainda, as vive dentro de si. Assim, alguém ir à padaria comprar pão já tem que ter e levar na cabeça um plano a executar em caso de invasão ou confronto. Medir antes no olho alturas de muros, grossuras de paredes, tamanhos de vãos e de buracos aonde possa passar para se proteger. Saber o que pode lhe esconder ou deixá-lo livre na mira de um polícia matador. Ter agilidade de um gato assustado posto em fuga. Na porta da padaria ou comércio aonde vai, ter o alerta de corpo voltado para o lado mais propício de chegar um tiro para lhe pegar. Num provável encurralo de estampidos e carros de assalto inesperados da polícia, pesquisar antes sobre portas, janelas e muros a ter que galgar procurando abrigo. Comprar um pão pode virar tresloucada busca de proteção ou indesejada morte. Passear então pode ser outra coisa, assim como sair para trabalhar ou ir à escola estudar. Alunos abaixados no refúgio das paredes-barreiras numa sala de aula, aprendem e muitos já sabem quem é o inimigo mortal, este mesmo que lhes diz educar. Cada vida favelada vive a guerra e assim as barreiras em latência. A qualquer momento de tudo pode acontecer. Então todas as proteções em precaução têm que estar construídas e em alerta; tanto as dos becos e ruas, as físicas, como as psicológicas dos corpos em movimento ou não.

Que tudo isto vem desde a histórica resistência à polícia militar, ainda no século XIX, do cortiço carioca chamado de Cabeça de Porco, que se localizava no Centro da Cidade do Rio de Janeiro.

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