Abel Matos – em rosto de liberdade já na rua.

É um entra e sai quase todos os dias. Mas sofremos alguns marasmos e até mesmo paralisias. Quando chega algum novato dá um sopro de diferença no ar. Pode ser que nos mexa tudo com seus jeitos, pode ser que não aconteça nada. Pelo menos no início parece uma visita nova, desconhecida, que ficará depois como nós de todo mundo. Quando não se conhece a peça, ficamos a maioria meio que sorrateiros, cismáticos, esperando o novato falar, se pôr pelo menos de onde é. O bom é que chega uma nova voz, que aos poucos irá se diluindo desaparecendo na mesmice coletiva nossa. Mas até chegar a isto existe a novidade. Pode ser que apareça por ele novato uma dose de acalanto. O mundo tem dessas surpresas. Talvez também, que pela chegada e por seu turno de dias e anos ainda a cumprir, nos dê, os já cascudos e cansados de tantas grades, um sentimento débil mas muito alimentador com certo refrigério, de que nos faltam a cumprir bem menos dias do que ele. Acontece de ser às vezes um falador, desses que nunca se cansam de contar histórias e outras baboseiras mil. Que por de vez em quando se tornam muito chatos; mas que por outras e outros, e aí louvamos, nos impregnam de uma nova alegria de viver; parecem que só trazem festa dentro de si, talvez até alguma ou muita liberdade. Já dividi coisas pessoais com parceiros sinceros, que me punham muita vida, nossas harmonias nos embalavam. De mim, de mim mesmo, pelos meus dons psicológicos, mesmo que tão pobres mas que na prisão valiam muito, lutava duro para soerguer os caídos; aqueles que se gradeavam mais, afundados em depressões profundas, sem vontade de comer, em noites altamente insones de pura tortura. Nosso papo era sempre reto nesse sentido, nunca cavar nossa própria morte naquele hostil tenebroso de lugar. A vida é sempre maior do que tudo. A fala das brincadeiras também nos colocavam a viver. Cada corpo tinha os seus conchavos, seus modos de aparecer. Fazíamos acontecer uma certa comunidade comunhante secreta e clara. Para o social classificador de nós anônimos bandidos, como os trabalhadores e mulheres pobres, nem ligávamos mais. Quando alguém ia embora de vez, imaginávamos que a fila andava, aproximando a nossa vez; entrávamos assim a sonhar. No meu caso, quando me cantaram logo cedo em meu nome e R.G.*, me vi no dia eternal do paraíso. Sair dali me deu ares como que saindo de uma caverna quente e escura. Ausente total do real da rua, do saber-se livre e andar, introjetou-me um certo receio também; eu não sabia como enfrentaria novamente o mundo que me esperava. Havia um ponto escuro de alma. Nessas horas de quase saída, aquela esperança e a alegria intensa e secreta de antes, guardadas no coração a nos alimentarem perenes, dão lugar a um abismo, num vácuo irremovível de vida que se perdeu; um decepar de pedaço da alma. Mas enfim a vida sempre continua, como nos diz o poeta, que eu nem me lembro qual. Imagino que existe então um grande corte coletivo de vida, que atinge cada vez mais o corpo da nação brasileira; fora os que morreram de balas “perdidas”, certeiras e outros afins, antes de chegarem aqui nas grades, e que assim nunca serão estreantes novatos visitas.

*R.G., número de registro geral da identificação.

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