
Não escrevo para os vencidos. Escrevo para os que lutam.
Nossa juventude antiga a polícia já perseguia. E nos amedrontava por nada nesse mundo dito de Deus, preparando os ataques e as mortes futuras de hoje. Quem não tivesse comprovação documentada de trabalho fixo estava vagabundo, num suspeito forte de alguém do mal. Sem carteira de trabalho assinada por um patrão no bolso, o medo crescia de andar nas ruas. A polícia podia nos levar preso; como até forjar um flagrante de maconha criminosa em nosso bolso, antecipando e projetando os crimes da própria polícia maquiados de legais contemporâneos. Todos não éramos nada, a não ser potenciais suspeitos de algo criminoso. Se preparava aí, bem lá atrás, tudo, todos os tiros e mortes que viriam depois em nosso hoje. A vida favelada e periférica, por então numa crescente formação e expansão, nós jovens sem trabalho que nos virássemos na fome e na sede, se danassem por nós mesmos. O ser vadio ou preguiçoso, se tinham um certo brilho nas canções, foram caindo num negativo social e no silêncio censurante, apagados sem alarde das falas. Ademais, ser vadio sem trabalho, foi e é criminalizado pela lei e no direito da vida, éramos preso por vadiagem. Em nossa juventude ainda ingênua a polícia podia chegar, como chegava. E veio tudo aumentando. Ou você jovem é trabalhador ou é bandido, no mínimo suspeito. Juntos, estes dois únicos conceitos, bandido e trabalhador, vieram se formando e se impondo sobre nossas vidas, nunca podendo sermos outra coisa. Vivemos na montagem e realidade de dois únicos caminhos: o do trabalho assalariado ou o do crime. Outros horizontes ou destinos não podemos ter e ser, porque nem sequer existem.



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