Para Jó, Fortuna e Rael; na memória.

Nossa infância já nasceu delinquente. Roubadores, pés descalços ainda guris incursionavam pelos sítios nos arrebaldes. à caça de laranjais maduros, jaqueiras ricas de cheiros gostosos e mangueiras apetitosas aos nossos olhos meninos. Íamos no faro da fome mesmo, de buchos vazios. Capangas armados corriam atrás de nós, como hoje faz a polícia. Por alguma ação feliz havia festa até em casa, com o “ganho” infantil do alheio; eram coisas de comida. A infância antiga quanto a atual germinando e crescendo na Miséria, nossa deusa-mãe. Se minhas mãos mirins não tivessem nascido no tempo das frutas, estariam inevitáveis hoje à busca de celulares* e outras colheitas. Antigamente, correndo pelos matos fugindo de facões e tiros que queriam nos matar, vínhamos sem saber na direção das prisões futuras atuais de menores, e das nossas próprias mortes antes da maioridade. Num momento de entressafra de frutas boas, buscávamos qualquer coisa que nos alimentasse: uma tarde comendo jamelão nativo no pé com alegria, ou arquitetando um roubo no laranjal. Talvez a fome que nos guiasse. Nós, os ancestrais dos meninos e menores de hoje em celas escuras. Não havia ainda o termo “menor”, com a negatividade que ele hoje possui; nem tão grande edifício jurídico só para condenar infâncias. Mas na certeza para nós meninos antigos, os poderes já o projetava, o tal edifício da lei, com as nossas mãos ainda pegando laranjas.

No meio deles, daquela roubalheira toda de meninos e entrâncias jovens nas terras dos outros, eu tinha enormes medos, que talvez me tenham feito sobreviver a tantos perigos e incertezas. Alguns fortes e mais adiantados nas ações ainda não chamadas de criminosas, gostavam de mim e até me protegiam; morro de saudades deles. Imagino que já lessem em mim, nos meus gestos e olhares, o escritor-bandido que eu um dia seria. Relembrando-os hoje já mortos, eu os tenho como ícones religiosos de origem.

Com as tecnologias e novos discursos nada mudou, aprofundou tenazmente o que já havia e se preparava mais: a grande condenação da infância e da juventude. A deusa Miséria se acercou mais de nós. As frutas roubadas antigas viraram celulares, cordões, bolsas e seus modelos. Surgiu também um grande mercado a quem vender. Hoje menino eu seria um outro delinquente, mais roubador, mais ladrão. Antes pulava cerca e corria melhor, agora daria botes por janelas de ônibus pegando celulares distraídos. E, quem sabe, na inteligência guiando meus colegas menores no crime.

Notas:

“Menor”, pessoa em idade inferior ou antes de completar dezoito anos, pela lei brasileira.

Celular, telefone celular ou móvel.

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