
Em Diderot, por que não?*
Uma pergunta que nunca me deixa calar: você sabe ver?
No fim bem além de nós mesmos eu tentava entender por que estávamos ali enjaulados naquelas prisões; como animais bravios, selvagens, e não livres em outro lugar. Embora sendo bípedes, corpo de homem e alma humana. E eu óbvio também um deles. Não bastando para isto cair na esparrela de um julgamento, uma condenação meramente borrada em folhas de alguns papéis. Não meramente também definir tudo, na frase tão fácil e mentirosa de que alguém simplesmente errou. Se procurarmos o crime, vamos encontrá-lo em formas e espaços tão antes desconhecidos. Nas grades e jaulas com meus amigos, eu encontrava reveses e contrarreveses, esclarecimentos profundos e obscuridades sem par. Assim, nossas ideias e vontades sempre enjauladas. Nunca saberemos do nosso antes de estarmos ali. Este antes só borrado em tintas por um papel. As prisões já estavam em cada indivíduo. Há um emaranhado de quase visível que nunca se quer jamais conhecê-lo; que por trás carrega todo um breu de escuro. Qual é o tipo de jardim que nos brota. Todas as plantas enjauladas possuem um solo, embora cada uma com suas raízes, escolhas de alimentos e texturas. Talvez exista, como sabemos que existe, um solo de germinação e crescimento comum para todas elas. Muitas e muitas almas bandidas queriam dar somente bons frutos; algo em curso nas suas vidas as embarreirou.
Nesta nossa carta de confissão só nas prisões eu conheci a vida. E assim aqui, fora delas, muito pouco. O que já coloca este aqui fora num dilema. De nossos olhos nunca nos deixarem enxergar.
Rio de Janeiro 2023, no mês de fevereiro.
Notas do missivista:
*Referência à “Carta Sobre os Cegos Para Uso dos Que Veem”; título de uma das obras do Filósofo Iluminista francês Denis Diderot.
Assim, misturamos favela e prisão com o Iluminismo Francês; também com a falta dele. Talvez não tenhamos chegado ainda ao século XVIII, o das Luzes.



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