Existem duas situações prisionais que se mantêm aqui fora, as duas encobridoras de realidades. A primeira é a noção sexual de que toda cadeia, residência provisória de apenados, é comumente uma devassidão só. Não nos cabendo aqui negar ou afirmar, o que não nos levará a nada. Nas vivenciadas por mim, vi sofrimentos e agruras libidinais em decorrência da separação do mundo exterior. Em início necessitamos saber ao lembrarmo-nos, de que cada indivíduo carrega sempre inteiro o seu Eu por onde for ou estiver; seja um lugar santo como igreja, um prostíbulo ou uma pobre prisão. E que nesta última há pulsões, como em todo espaço humano, da busca das satisfações, tanto da ordem corporal quanto da anímica. Hoje para mim, ex-habitante de carceragens, os nossos descaminhos e desvios sexuais se devem muito aos tipos de histórias pessoais, advindos geralmente de uma educação familiar e social muito repressoras. Eu por exemplo, tornei-me um onanista nato pela quase nenhuma chance de namorar na juventude, por um pai intensamente severo e religioso beato. Ressalvando, que não fui capaz de sobrepujar-me às barreiras da repressão paterna. Embora aqui declaro, que o onanismo já nato que eu trazia de fora, me foi muito útil na solidão sexual das grades. Aonde há corpos existe sexo, sempre me lembra alguém. Ampliando a coisa sexo, Freud me ensinou que existem homossexuais transitórios ou ocasionais. Num único momento sem que eu lhe perguntasse, pois meu tempo com elas foi muito curto, mulher presa me relatou de forma sincera, que na carceragem transava com mulheres, mas que na liberdade preferia e escolhia homens. Nesse aspecto ou realidade, o nosso machismo de brasileiro torna impossível um acesso a tal informação por parte dos homens. Experienciei nas prisões do Comando Vermelho, mais educação e moral quanto ao sexo do que em muitos lugares aqui de fora; num controle necessário pela ordem e pelo respeito. Mas nunca nos esqueçamos de que o sexo escapa sempre, é da natureza dele, a explosão do deus Pã. Então se pensar, como geralmente se pensa, que nas prisões é puro bordel, é como se imaginar cultos e adorações nas igrejas sem paqueras, aproximações e encontros. Nos templos sagrados cheios de fiéis, se finge que o sexo, como um objeto externo do corpo, foi retirado dele e deixado higiênico em casa.

A outra ideia negativa é de que as prisões não passam de escolas de bandidos. E esta ideia sendo encobridora de que é na formação da pessoa e no espaço social dela, aonde está o gérmen, a semente, de todo este nosso inferno prisional brasileiro. Lembro aqui, que em países socialmente desenvolvidos, notadamente europeus, quando um delito ou crime é cometido, além da investigação policial, busca-se saber qual foi a situação social que levou o indivíduo ao ato. Sendo que eu, professor, bandido e ex-presidiário, nunca tive acesso a um estudo ou reflexão séria, sobre o modelo social nosso formador de tantas e tantas desgraças. Ninguém nunca perguntou em nossas escolas públicas, se desejaríamos nós crianças ou jovens sermos do crime ou não, e, lógico, parar numa cadeia ou morrer novo a tiros, muito geralmente só de polícia. E o que fazemos para que isto tudo pare de acontecer ou, pelo menos diminua. Mas não, há um silêncio para que sempre no fim seja como está. Sempre se ver e se ter, que tornar-se do crime e viver nas penumbras das grades é uma escolha bem livre. No todo há uma perversão de formação e de informação. Para finalizar, não temos a intenção de acabar total com o crime, seria ingênuo; seja de quem nos impõe este modelo econômico e social criminoso, seja de quem do povo não consegue livrar-se dele. Mas eterno numa luta perene de mantê-lo o mais inexistente possível. Que assim, inevitável, coisas, e estas positivas, entrarão em seu lugar.

Correção tardia do autor:

Na segunda linha do texto aonde se lia “assexuada”, lê-se agora acertadamente “sexual”.

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