Nos coletivos penitenciários há uma palavra muda. Jogada no reino do silêncio. Desde o início, já bem antigo, certamente a que me causa mais trabalho e embaraço. No intuito extremo e em alta conta de nunca ferir brios e reacender feridas pessoais e sofredoras, tento por demais ao menos bulir com ela, fazê-la tremer e até deslocar-se, como uma grande pedra terrível.

Os eufemismos oficiais estabelecidos sempre me incomodaram, sobretudo pela falsidez e traição. No fundo deles, existe o objetivo domesticador: “você é inferior e até ruim, mas eu te trato bem.” Assim, se em todos os meus textos sobre cadeia tive cuidado, este sempre se pauta em nunca deixar passar por estas mãos que nos escrevem, o discurso estabelecido do poder. Antes também porque, ele é às vezes até recriado e sustentado por quem injustamente culpabiliza, o próprio preso. Escapando desta autocondenação só as inteligências, mas isto já estamos em outras histórias. Voltemos e deixemos esta sair. Assim como no céu a palavra Diabo não entra, e no inferno santo nem pensar, nos meus todos anos penitenciários, somente uma única vez o termo bandido foi enunciado pelo próprio, aí em ato de profunda análise literária, antecipando-se inclusive a este que vos escreve. Então eu conto. Em primeira incursão de pretensa publicação escrita, quase diariamente eu levava o manuscrito e seus avanços feitos para as grades do III. Mais do que ninguém, inegavelmente os alunos de lá estavam aptos a interpretá-los. Mais ainda, porque eram eles que estavam a dizê-los, os parágrafos que então eu escrevia. Num instante de sabedoria e de sala, jamais esqueci aquele olhar e a voz, o querido aluno Frank, Francisco Emanuel Martins hoje em memória, marcou-me que estas mãos tentavam, e já por si uma ação, deslocar o significado da palavra bandido. E nisto Frank está póstumo na minha vida.

Caminhemos um pouco mais. Durante certas revisões de texto que faço, às vezes a palavra bandido me fere também por dentro. Lembro que na grade ninguém ousava dizê-la. A não ser por obrigação de citá-la numa explicação. Como de quando na rua, um policial ao verificar no sistema computadorizado de bordo da viatura, que a pessoa identificada era um ex-interno, gritava-lhe em alto e bom tom: “chega aqui bandido!” Bem mais que o único isso descrito, dentro das muralhas, a palavra adquire certa economia de uso e significado, nas falas de todas as bocas que não as internas. Ora para condenar, ora para desumanizar. O outro nem o outro é porque um bandido. Bandido então significa a desigualdade extrema.

Qualquer destes textos escritos, nem sei qual deles será, alcançará o objetivo desejado, quando a palavra-pedra bandido for sentida ou posta por um fiel leitor, deslocada. Não nos esquecendo jamais, que esta pedra além do seu enorme peso é parte de uma pedreira. Nosso trabalho, meu e do leitor, seria assim de ardilosos construtores.

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