Na paisagem da foto no jornal a realidade está perfeita. Em ação de ataque policial dispara o fuzil contra a multidão atônita e revolta. Estamos num pós-enterro mas ainda nele. O corpo de um jovem assassinado pela polícia em ação, produziu o ritual da momentânea batalha de rua. Mais um ou menos um, tanto faz a quem nos mata. Caberia na foto uma análise foucaultiana como a de Las Meninas. No instante da paisagem petrificada pelo clique da máquina, todo um quadro infernal do nosso mundo se põe. O olhar do poder e da lei só vê gestos a serem mortos. No rosto da mulher diante do fuzil atirador, pânico e ataque de registro pelo celular; ao fundo fumaça e fogo. O enterro prepara novos enterros, no doloroso, na peça nacional brasileira a prosseguir.

Mas o ataque policial mortal e repressor não é contra as pessoas e sua desordem, embora centrado nelas. O ritual, a celebração da morte é que não pode existir, tem que ser desfeito, fuzilado e logo esquecido. Uma grande fonte de sentimentos é a separação eterna; o anímico que ela produz. No instante fúnebre e triste a eternização da vida. Celebramos na morte que continuamos e continuaremos a viver. E é isto, esta resistência, que o fuzil do poder quer matar, o ajuntamento dos corpos num solidário único. Quem morreu não pode ser dado como vida morta, ordena o mandamento de Estado. Não é vida quem já morreu assim como quem ainda respira.

A multidão volta para casa mais enterrada e mais viva. Os mortos nos corpos dos vivos não se calarão. Mas os jogos e os olhos do poder se armam mais e mais… Além do morrer, enterro no Brasil virou um instante da nossa guerra. O povo inimigo não pode jamais celebrar, ainda que no choro revoltado da morte. Ataca-se com tiros a comunhão que não pode existir; a morte que pulsa em mais vida. Há um assassinato contínuo, sem pausa; e todos nós o povo objeto dele.

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