Parte dificultosa de mim, que de quase nada vivida. Somente a duras penas, de muitos secretos queridos. Mais que ansiedados talvez.

Entrando diário pelas grades, nalguns a busca ia se buscando, se tocando, se encontrando, nos vendo. Eu, num fluir espaçante, pesquisava entre os vãos dos ferros, proibitivos, enclausurantes, a quem esperava. Internos em atos arrojadores e sinceros punham-se às portas, ao grito do aguardo na sentida saudade. Podia ser eu ou para até quem fosse, uma professora, mas estavam ali. Meu rosto também já ia se buscando, num lance primário de rua, de mundo, invasão formativa dos quereres, dos vindos. A grade apinhada de gente.

Andei por indícios de hesitação, desabilidades por dentro, a pele desacostumada àquilo. Mas aos poucos me fui me cedendo. Eu vinha também de secura por mim. Educados proibidos cá fora, os afetos se buscavam lá dentro, por dentro, desejantes na vida fugir, existir. Começamos aos ôis e aos dias. Mãos ainda não se tocavam. Porém olhares se queriam, esperantes. Em periculosidades afetivas avançando. Explosões sinceras comedidas, lampejantes, ao impacto do imprevisto. A saudade talvez se existisse. Se não, mourejava escondida ao assalto, na leveza diária da dor. A quem eu sonhava faltou-me ou ainda não veio. A grade a janela do ver; a ala passante a rua.

Bem antes, que nunca sabemos quandos, braços e abraços já se queriam. Éramos vidas ali. A alma mesmo que fosse, dorida ou não, obrigava a ir. E afetos desconheciam as ordens e limites, não careciam deles. Enforcantes. Corpo se alimenta do outro, de tudo que se possa dar. Não havia assim escapar. Salvar somente às auras higiênicas, que nunca preferem viver. Os corpos iam e vinham, movimentos e gestos da distância próxima, de que você pode chegar.

Mais então; histórias de vida, minha e dos internos, foram se colocando. Tínhamos agora a quem nos lembrar. Meus olhos de mim aprendiam com eles. Mãos dadas, vistas e passantes, furavam do nada a moral em castrante. Machismo não morava ali.

Num contrário cá de fora, a cadeia nos tornava livrantes. Sinais que estamos tão mais presos, do que soltos pensamos na liberdade do estar.

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