O preso não tem direito a nenhuma sombra. No entra e sai de internos das muralhas, em idas ao fórum ou transferências, eu cruzava com esgares de agressão desumana, sofrimentos gratuitos e secretos pesares. Mãos para trás, rosto sempre ao chão, os internos iam e vinham. O tratamento dispensado dos alemães aos judeus nos campos de concentração, se parecia demais com o nosso do sistema carcerário brasileiro. Bem sempre à distância de qualquer pessoa de fora, o preso não pode ver ou ter o mínimo de paisagem possível, naquele que talvez seu momento único de ar e de passageira liberdade. Tratado qual animal profundamente hostil, é visto por eterno perigoso, mesmo sem aparentar ou ser. Os exageros prisionais intensos ou sutis diariamente afloram.

Hoje me tenho pensando o que impede ou impediria vozes sem tiro do guarda ou algo assim. Na minha convicção certeira de que os dois, guarda e preso, não passam de humanos, juntados na mesma muralha. Será que o respeito seria mais uma porta para a corrupção, ou inesperado de uma fuga possível? Alteraria o curso das coisas? Gerando talvez absolvição? Sei que o próprio guarda se desumaniza, ao cuidar do preso como um objeto sujo. Não esquecer, que fui tido como suspeito de contaminável doença grave, por abraçar, sorrir e cumprimentar os presos por onde lecionei nas grades. Andando pela cidade e conversando com mendigos, o olhar atento fica ao redor, e vejo rostos de reprovação e dúvida, por causa do gesto meu. Por isso posso então me tornar um deles? Conversar com uma louca me levará à insanidade mental? Para este mundo brasileiro parece que sim. No entanto, durante uma década convivendo amistosamente com internos penitenciários não me levou ao crime. Aprofundou sim, uma leitura mais aguçada do real, gerando revolta e constante trabalho.

Um preso humanamente transportado, não causa prejuízo e perigo algum. Nada na vida e natureza me prova ou diz, que o guarda eliminar da voz a tonalidade hostil, ou perguntar ao preso se aceita água, sejam maldades capitais.

0 respostas

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *