A sirene polícia da morte passa todo dia nas ruas, ameaçando os ouvidos do povo.

Entro na cantina pra pegar o almoço do dia, no self-service em língua do americano do norte. Televisão sempre ligada, no bombardeio perene de imagens. Parece um beco o lugar das comidas de apertado que é. E assim o que um fala todo mundo escuta. A mulher de lá me paquera de vez em quando; procura quem aparenta e se diz de muitos dinheiros. O que não é o meu caso, seus olhos talvez gulosos a enganam. E a favela está ali presente, nas almas dos outros e também em mim. A imagem da TV domina os céus e os infernos; nos impõe vê-la, ouvi-la. O que falamos sai da boca da tela colorida, quase nunca de nós.

Um velho magrela nutrido momentâneo pelo cheiro e a comida, vocifera alegre e sarcástico o que a grande tela nos dá: “presidente das Filipinas manda matar quem estiver nas ruas”, no toque de recolher pelo coronavírus pandêmico no ar. E aí continua o velho já gozador: “já pensou Pedro, você na rua e a polícia te acertando com uns tiros?” Cada nação com os seus modos de matar e de morrer. A ordem filipina me atinge por dentro, certeira qual um tiro de fuzil polícia na emboscada do morro. Meu corpo parece fugir e foge, mas já ferido. A voz do velho era para alguém dali outro velho, mas atingiu a comunidade inteira; dos morros e morros, das periferias também. Ao som daquela voz velha de tiros e de mortes, meu corpo passa a querer bater de frente e também atirar; só que contra quem sempre nos matou e mata. Meu intelecto revolteia odioso, já num quase urro bandido de gritar, esclarecer. Mas nisto já estou em casa.

O tiro que não dei no velho, que ele estava puro polícia, disparo nesse canto de papel na letra. O que o presidente filipino manda fazer, matar o povo nas ruas, a polícia brasileira faz em quarentena de vírus e fora dela também, matando velhos e até bebês. E nós machos babacas nunca fazemos nada. Morremos e morremos, louvando felizes nosso próprio constante matador.

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