Que no Brasil sete mulheres são assassinadas por hora; como anuncia a produção da peça antes do início do espetáculo. Estávamos em um teatro. Parecia a mim que ninguém ouvia. A ação me torturava doloroso a alma, como se me batessem violento, e batiam, eu menino sem nem um direito de defesa. A mulher, mãe do meu colega de infância, tomava murros e chutes calada. Seus filhos é que gritavam por ela implorando, “papai não bate nela não”, e junto o choro. Os sons, tudo, o barulho das pancadas nas carnes, me dilaceravam e me marcavam por dentro para nunca mais sair; na época, eu sem o saber do trauma que se formaria e que viria pela minha vida inteira. Junto de mim meu pai ouvia calado, ele também batia em mulher, minhas irmãs já moças. Surras e matar mulher fazem parte da nossa cultura brasileira. Mas eu não sabia que as matamos tanto, sete por hora repito, conforme nos disse a sonoridade do teatro.

Recente, inventaram e nos saturam da palavra “feminicídio”, com certeza entre outras coisas, para manipular o discurso hipócrita das verdades necessárias produzidas. Nossa televisão, que hoje ainda só não ocupa um único lugar, os banheiros, lá uma vez ou outra para controlar e manter, esconder e assim mentir, repete e coloca ênfase na notícia de uma mulher morta, assassinada, a nos dar a impressão tornada verdade, de que naquele dia, semana e mês ela foi a única. Quantas lutas de corpos se defendendo inúteis de pauladas na cabeça, facadas, tiros e estrangulamentos, os estertores de corpos se debatendo até os últimos sinais; vencidas, mortificadas, dilaceradas pelas mãos assassinas dos machos que as acompanham. E das outras que continuam vivas, porém sempre na quase certeza ou já certeza de que também suas mortes chegarão; que por enquanto apanham e são torturadas de vez em quando ou diariamente, junto com as ameaças e gritos de condenação de que também vão iguais as outras. Somos campeões do mundo, me disse um amigo. Diante das sete por hora impedidas para sempre de respirar, por obra e graça dos seus machos, difícil alguém nos ganhar, nos vencer.

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