Em Auschwitz estava escrito na entrada: O TRABALHO LIBERTA!

Quase sempre na hora do nosso almoço, pegando a quentinha sentado no chão da galeria ou na pedra da comarca, passam por mim fortes sensações de fábrica. Já trabalhei numa, de papel. Nela, no almoço, íamos para o rude, apertado e quente refeitório dos peões, sempre em fila, pois de entrada apertada. Às vezes penso que aqui, a cadeia, é como lá, a fábrica. Fazendo papel, ao meio-dia havia o sufoco de esquentarmos as marmitas. O forninho nem dava pra todo mundo de uma vez. Depois veio uma cozinha, que nos aliviou do trabalho das marmitas, porém com a qualidade da comida a mesma daqui. Mais a fila de sempre, na boca da cozinha, pra cada um pegar o seu.  No início, com os novos pratos de arroz com feijão mais pesados, tive muito desarranjo por dentro, até me acostumar. A comida vinha com tudo. Vários trabalhadores pegaram bactéria, mas pode ter sido boato. As horas marcadas nos igualam aqui e lá, na produção. Quando fico assim, nesses entranhamentos, a noção de liberdade revira mexida, abalada, aumentando ainda mais meu desconforto. Não basta só estar lá fora para estar livre. Muito menos só trabalhando. Pois é isto, que trabalhador mesmo só trabalha, não vive.

Parece assim que só fiquei em cadeia. Os chefes e capatazes de lá, da antiga fábrica, mais os secretas e bajuladores, equivalem aos guardas e internos traidores. Meio-dia aqui, meio-dia lá, hora da fábrica e das quentinhas. O tédio repetitivo do trabalho e a ociosidade obrigatória da grade, igualam os dois. Ao ir à enfermaria daqui, me vejo como indo ao ambulatório da fábrica. Os médicos sempre nos mandam de volta, com os mesmos falseamentos e remédios baratos na mão. A insossa sensação de ida, a de haver enganosamente se cuidado inclusive, é a mesma. O corredor da ala e o do acesso à produção têm idêntica largura e fim, mandar cada um de nós de volta ao seu devido lugar.

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