Antes o nosso lugar aqui, o complexo, chamava-se de Bangu, porque pertencia a este bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro. E onde existiu histórica fábrica de tecido, hoje transformada em shopping. Eu disse no início que se chamava de Bangu, porque agora não se chama mais.

Daqui de dentro da cadeia eu soube de parcas coisas, e por elas percebi que houve intensa briga e discussão lá fora, envolvendo povo e políticos, sobre o Bairro Bangu abrigar afinal um grande conjunto prisional. Uma parte do povo rejeita a gente. Isto talvez ligado a situações de nojo mesmo e busca de separação. Como aqui junto de nós já existe uma lixeira, para eles, banguenses desumanos, seria afronta desrespeitosa ainda mais agora abrigar presos. O lixo ficaram quietos, quanto a nós não.

Sei que houve, como já disse, discussões lá fora. Num momento fiquei até intrigado, para saber como resolveriam o problema. Será que nos tirariam daqui por causa disso? Ou que outra coisa fariam? Mas eis que a solução veio rápida e sincera, não mudaram-nos de lugar mas trocaram o nome. Como aqui, o complexo, faz fronteira com o Campo de Provas do Exército, e este já bem conhecido como Gericinó, fizeram uma mudança geográfica e nos puseram pertencentes a Gericinó. A Bangu jamais. Assim, o Complexo Penitenciário de Bangu virou, numa canetada só, de Gericinó.

Num tempo bem anterior nos mandavam para a Ilha Grande, cheguei a estar por lá. De repente varreram tudo e nos mandaram embora daquela ilha bonita, melhor, paradisíaca.

Concentraram-nos todos, ou quase todos, na Frei Caneca, rua central do Rio de Janeiro. Mas com o passar dos anos aquilo foi ficando pequeno. Todo dia chegava mais preso. E também estávamos no Centro, o que, não nego, era facilitador em todos os sentidos, a começar para as nossas visitas. A partir de um certo momento, acho que começamos a incomodar. Cidade maravilhosa, com enorme centro prisional no seu miolo, não estava bem para eles, os poderosos, os mandões. Então destruíram tudo, e aqui Gericinó com número de cadeias correspondentes e mais algumas, fomos mudados de lugar. Hoje lá, na Frei Caneca, existe enorme conjunto de blocos de apartamentos com o nome de Zé Keti. Por trás dele claro, como sempre o morro de São Carlos. Numa época, quando eu soube da construção dos blocos de apartamentos, imaginei na minha ingênua cabeça, que fariam lá, na Frei Caneca, enormes e belos edifícios residenciais. O que, lógico, não aconteceu, seria enorme prejuízo. Pois que, diante e dentro da nossa situação de guerra, quem desejaria ficar, numa sala ou quarto, à mercê de possíveis tiros? Claro, isto para os ricos, que para os pobres qualquer lugar serve, mesmo que seja até o da morte. Está estabelecido em nossa ordem brasileira de vida.

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