Estou em Auschwitz! Esta frase foi a que me veio à cabeça quando, em 2003, meus olhos dominaram o horizonte de telas de arame, grandes galpões em série, mais a multidão de internos exalando os sem destino, sem pátria e, acima de tudo sem liberdade. Uma parte deles jogava bola num campo enlameado, em sol quente abrasador. A falta de objetividade emanava em todas as direções, a ociosidade obrigatória. Estamos na unidade prisional Plácido de Sá Carvalho, Gericinó, Rio de Janeiro, como em todas as outras.

Num outro momento deste mesmo ano, ao dobrar a esquina de enorme galpão, houve um estancamento de medo em mim. Diante de nós emergiu o enclausuramento de mais de mil e quinhentos homens juntos, abrigados na proteção de um pátio coberto, o coletivo penitenciário da Vicente Piragibe. Estas são minhas descobertas iniciais dos volumes das cadeias. Cinco anos depois já se falava em algo de cerca de três mil, nesta mesma unidade.

Uma terceira experiência densa e tensa, foi anos adiante realizarmos uma visita de pátio, no grande pavilhão dos internos da Moniz Sodré. À época com mil e quinhentos homens, hoje bem mais. O contato com a multidão fechada me levava a várias sensações: num momento me lembrava um hospital, noutro um espaço de alienados ou indesejados, noutro ainda uma grande intensidade de espera. Lá, falei com alguns, já meus conhecidos e amigos. A presença humana estava ali, acontecendo. Quando acabamos a visita houve um grande alívio por dentro, a cadeia me pesara muito, como uma densa geleia afogante.

Na parede de toda segurança, seção de cadeia normalmente na entrada da carceragem, há sempre um quadro escrito a giz, com a lotação diária exata da unidade prisional. Como nós professores passamos por elas, as seguranças, aos poucos, olhando o quadro do efetivo prisional, nos habituamos a ter uma noção quantitativa exata de cada cadeia, e por assim, do quadro geral de Gericinó.

Em 2004, ao entrar nos primeiros momentos em Bangu V, a Elizabeth Sá Rego, constava no efetivo 750 internos. Isto, já num espaço físico projetado para um máximo de 500 homens. Em quase diárias de aumentos, em 2012 ao desligar-me de lá, o quadro de lotação já ultrapassava os mil internos. Assim, onde estava antes projetado um máximo de quinhentos, já comportava mais que o dobro. Lembrar, que cadeia não é um só dia, uma semana, um mês. Atualmente, em 2014, esta mesma unidade, a Bangu V,  com espaço físico para os iniciais quinhentos, comporta em torno de mil e trezentas vidas. Mais que uma superlotação, o entupimento impera. Não sei por que mas isto me lembra trens e ônibus de trabalhadores abarrotados. Talvez pelo mesmo desrespeito. Assim, além de tudo o mais, presenciei o crescente aumento da população carcerária brasileira. Ostentamos hoje o quarto lugar no mundo.

Ao principal. Existe um espaço mínimo de ocupação para um corpo. Na medida que se perde esse mínimo ou ele não existe, o mundo se transforma, no caso da cadeia se inferniza ainda mais, sendo a intensidade móvel da desumanização. Sou interno, vivo numa mistura de corpos, higienes e costumes pessoais, que aos poucos vão me tornando uma identidade coletiva meio que única, meio que amorfa, por condição de sufocamento. Talvez que cadeia tenha que ser isso, este sufocamento, esta morte. A intimidade fica assim esgarçada, por hora parece que nem existe. A mistura do fora nos dilui por dentro. Claro, que num espaço desse jeito, superlotado, os índices de doenças, principalmente as respiratórias e de pele, alcançam os primeiros lugares do Brasil. Já morei numa cela com dez por cento tossindo. Querendo ou não, vamos nos tornando incubadores. Então, a superlotação carcerária significa e ao mesmo tempo produz mais desumanização. Sem território, por natureza a individualidade vai diluindo, deixando de existir, se morrendo, talvez até se matando.

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