Na prisão Plácido Sá Carvalho havia um presidiário único; talvez não só daquela a mais insalubre cadeia mas do complexo penitenciário todo. Ninguém de todo o coletivo de internos no qual estávamos, nem ao menos olhava para ele, quanto mais falar. Mas estas coisas eu só descobri com o tempo. No processo de constatação do interno repugnante a coisa acontecia assim: durante o desenrolar da aula na escola, um rosto de aluno começava a irritar nós professores com trejeitos de mexer a boca e fazer repetidas caretices, em conjunto com brilhos e pisca-pisca de olhares aos poucos provocadores. Era um ataque todo peculiar contínuo e persistente. Sentado sempre ao fundo da sala e separado dos demais, punha-se o tal aluno a repugnar todo e qualquer professor ou professora que fosse, porque não era só comigo. O que acontecia, e que só agora me dou conta, era que as outras vozes do magistério não reclamavam dele, certamente por causa daquele medo básico de bandido que todo mundo tem. Confesso que tive grandes medos dele até ao ponto de fugir, mesmo estando na proteção do espaço escolar. Como também no contrário, por uma ou duas vezes esculachei o dito aluno demônio diante das minhas amigas professoras. Era um ser repelente em alto grau. A multidão interna inteira de presidiários o ignorava total. Branco alourado e cheio de sardas, também baixinho, marcou-me qual um fantasma diabólico ainda até hoje; além de um nojo vomitante dele, como também não dizer de um certo receio em momentos de liberdade na rua de encontrá-lo. Um satã encarnado. Mas ele teve uma serventia, o que adiante descrevo.

Somos ensinados cá fora e quase sempre assimilamos bem esta lição: de que dentro das prisões só existe o mal e pronto; como numa lata de goiabada hermeticamente fechada. Mas antes lá encontramos pessoas, para nunca silenciarmos e assim omitirmos esta incontestável realidade. Quem estas pessoas são e como estão na prisão que é preciso sabermos, e então rompermos a blindagem social da lata ou das muralhas visíveis. Compartimentar hoje as pessoas em grandes, médios e pequenos grupos modais nomeados, é a grande ação desvida de controle repressor social. Porém voltemos ao caso do aluno repeloso. Não só o pupilo já tão citado, mas nossos olhos de professor olhavam também ao redor do interno-pulha sempre ignorado. Sem nem uma chance todos os outros internos o tinham um monstro e só indigno. Esclareço mais como já dito, que a multidão aprisionada nem o olhava, num constato objetivo e pessoal meu. Nunca entrei no mérito com os penitenciários da causa daquele total desprezo à figura sardenta. Só os meus conflitos e dissabores com ela já me bastavam para situar-me por dentro de mim. O mais valioso que percebi, pelos anos os quais passei por aquela cadeia de celas tão podres e fétidas, foi um princípio moral: o de repelirmos algo tão humanamente maldoso, sujo. A imoralidade daquele corpo sardento significava; pondo-nos todos, inclusive eu professor, numa escolha ainda sadia de mundo.

Nota do autor: pesquisado em outra prisão sobre o interno asqueroso e ignorado, informaram-me ser ele um ex-policial em cumprimento de condenação, com alto risco de morte.

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