Fui me tornando uma referência na cadeia. Pessoas do coletivo penitenciário já me tinham como bem íntimo. Estávamos parceiros na luta da resistência pela vida. Ao chegar nas portas de Bangu III, bem fora ainda das muralhas, eu sentia a sensação de que me esperavam. Do ser recebido bem. Ao entrar na carceragem e passar em frente das bocas das galerias, cumprimentos efusivos de prazer aconteciam. Para eles era uma retomada mais significativa da vida, eu estou vivendo. Apertos de mão e abraços na ala das galerias, como numa rua, de homens comuns e sinceros. Não ligávamos tanto para as grades.

Porém na ótica moral do bem e da legalidade, quem conversa com bandidos é igual a eles. Já talvez um deles. Certos guardas então, começaram a olhar-me diferentes, com ares inquisidores ou modos de piadinhas provocantes. Queriam saber qual era a minha. Como não tinha nada a declarar eu seguia sincero. Nossos vínculos de amizade aumentavam cada vez mais, entre eu e os internos, ao ponto de já ser aceito e até compartilhar de conversas mais restritas. Também, nunca sabatinei alguém sobre sua vida no crime. Um ou outro que me contava algo, acontecia sempre na liberdade do descarrego da conversa, crime sem julgamento, só na existência da vida. Eu soltava alguns podres meus. Em bate-papos, às vezes passávamos tardes inteiras, em devaneios. Passei por momentos de gostosas felicidades na cadeia. E estes procedimentos estão fora e proibidos pela moral da segurança pública. Onde já se viu, um professor sendo abraçado e cumprimentado por bandidos? Isto não pode acontecer!

No ambiente dos professores e professoras, falavam em telefones grampeados. Uma, para amedrontar e coibir, outra para monitorar mesmo. O magistério suspeito. Como sempre tive uma ojeriza a telefonemas, penso que os homens da escuta se frustaram muito comigo. Meu aparelho raramente toca, e quase eu não o ligo. Pelos ardores manifestados, de guardas e de policiais militares, com certeza durante algum tempo fui constantemente vigiado. Alguns episódios meus favoreciam também isso. A começar pela minha vontade e assiduidade, de estar todos os dias ali, dentro daquelas carceragens. A vigilância sobre mim não me incomodava, fazia parte da guerra. Até também, por um outro lado me favorecia, confirmando-me de que eu estava no caminho certo. Minha razão já me desobrigara do mundo o qual eu fora criado. A bandidagem me fez descobrir a imensidão da vida. O mundo sincero e verdadeiro está para sempre fora do legal.

Tive ocasiões de receber olhares como gente suspeita, de vários polícias. Inseguros, um ou outro dispensava-me cuidados de pessoa perigosa. Os grandes do crime gostam dele, desse professor, portanto olha bem. Numa fase de muita tensão e de guerra dentro do III, um preso amigo ficava constantemente comigo, espécie de guarda-costas. Lembremos, que cadeia vira num minuto para o outro. Nas minhas saídas, normalmente solitário, eu ouvia uma voz de alerta do coletivo em direção aos guardas. Em casa eu me perguntava por quê. Me mostrado depois pela lógica da guerra, que o lado legal do bem poderia matar-me e provar ao mundo ter sido os bandidos. Coisa não muito difícil de acontecer. Então, passei a ficar mais alerta, como se isso me livrasse das coisas. Para consolar-me, nos meus medos e fragilidades de pobre homem, passei a alimentar-me do desejo de que num sufoco de morte, pediria aos meus amigos da cadeia que me valessem por dez.

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