Deparo-me com um aceno inesperado ou um toque no ombro. Às vezes demoro a reconhecer, pois a transição da vida muda o corpo, e de quem passou pelas cadeias mais ainda. Atendendo aos meus pedidos de que falassem comigo na rua, até quem não foi meu aluno ou companheiro de cadeia, mas me conhece, sente-se feliz ao me ver, se declara quem é, e então nos abraçamos no mundo.

Depois dos abraços, passado o entusiasmo inicial e na reflexão, vejo mais nitidamente os caracteres, e a conjugação deles, de quem acabei de encontrar. Nalguns a posição forçada, estou no legal, estou trabalhando, mas não estou feliz. As mudanças nas transições podem demorar e até não se realizarem, mesmo havendo tanto andamento. Não basta dizer tem que ir ou fazer, as escolhas do eu são bem mais profundas. Noutros rostos percebo a tenaz firmeza de que continua no crime e está feliz. Existe um mundo de incertezas e embolação. Ainda dentro da cadeia, eu encontrava num mesmo corpo em dado momento, manifestações díspares e contraditórias, como numa indecisão ou cegueira. Crime e religião se misturam muito nas grades, buscas de uma saída.  E os distúrbios psicológicos aumentam ainda mais os desnorteamentos.

Então, cá fora, no encontro nunca pergunto, como um polícia inquiridor, se continua no crime ou saiu. Simplesmente deixo o amigo falar. Naquilo que o instante e as suas escolhas lhe quiserem dizer. Antes porque a amizade e a vida não estão subordinadas a legalidades e a permanências ou não. Mais do que chances, as imposições para continuar no crime são infinitamente maiores do que para sair. Exemplo. Um aluno dizia-me claramente: “professor, ao sair daqui vou pra comunidade. Estando lá, e claro ainda desempregado, na hora do almoço sentirei fome, então vou no movimento, pego cinquenta reais e já estou empregado novamente.” Ou seja, no crime.

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