Sempre lhes pedi, que ao me verem pelas ruas nunca deixassem de falar comigo. Um aceno, um olhar de mansidão e amigo, uma palavra. Talvez esse pedido seja apenas o sentimento de que, afinal, não poderei jamais viver sem eles. Nos abraçarmos lá fora, foi uma das declarações mais fortes e ensejadas, de quando um deles ficava na iminência, esperançosa ou real, de alcançar a liberdade na imensidão do mundo.
Encontro-me então com pessoas na velocidade da vida. Só que antes, ainda dentro das grades, preparando nosso desenlace final, pela chegada dos meus tempos completos de Gericinó, dizia-lhes sempre, sem que me houvessem perguntado, que estando lá fora, na rua, falassem comigo em qualquer situação que fosse, criminal ou não criminal, legal ou ilegal. Pois o que importava e importa é o acenar humano de duas vidas se encontrando.
Cruzo com todos e qualquer um. No abraço do tráfico, mãos de assalto e a bênção de quem virou evangélico, não tanto faz, mas porém que nos realiza completamente. Os bons e os maus está inevitavelmente rompida, dilacerada pela pulsão da nossa existência. A ordem medíocre não nos mantém. Por tudo nosso desejo de só viver. O abraço apertado nos tira um segundo da máquina da violência e da morte.
Não vejo isto ou aquilo, nos vemos pessoas. Que antes e ainda sempre o somos. Na régua e compasso a cadeia me ensinou muitas coisas, dentre elas a principal de que respiramos e um coração nos habita. Negada pelo mundo, cada qual de nós possui indubitável a sua história. E vamos nos bater com ela até o suspiro final.

Eu tento ecoar o grito inaudível do Sandro, do ônibus 174.

0 respostas

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *