Na minha solitária de apartamento, tenho sempre que estar pensando, como fugir.

Toda manhã num assalto novo. Periculosidade não reside nisso, mas felicidade. Entrando aprisionado no III talvez eu já trouxesse algo de fora, de mim mesmo, em mim, como perna a ter que andar. Tardiamente depois, já no V, comecei a quebrar muralhas, as fugas estavam prontas. Não ainda de todo conscientes, porém mostrando por sinais a perfeição da ação. Que a periculosidade, certamente a se resguardar para não se destruir, mantém-se dentro de nós meio que latente, qual um petardo perfeito a demolir, a transformar. Eu vivia na grade em clima de soltura, na busca incessante da fuga maior. Meus amigos do crime, ajudando.

Às aulas então. Nuns certos dias comecei a dizer-nos algumas frases de ação. Elas não vinham prontas, encaixadas num plano de texto ou de parágrafos. Fugiam de mim quando o momento desse, e viesse. Conforme talvez algum toque de muralha impeditivo, enxergado pelas mãos do olhar. Na verdade eu já ficava que solto, do outro lado, chamando-os. Inclusive um canto mesmo de mim, também fortemente aprisionado. Mas isto, minha mão assaltante, bandida, começara a praticar e realizar ainda no III, desde meus primórdios na relação criminosa.

Eis que as frases saíam bem soltas. Num certo devaneio escapulo de estado, explanava firme e sem forçar, que meus amigos de cadeia e, portanto de vida, nunca estavam condicionados a mais ou a menos jurídicos, a mais ou a menos penalidades. Estas, medidas por um juiz analfabeto de grades, que nunca na vida nos conheceria. Um estranho e anômalo intrujão, vendo o mundo pelo saído de sua débil caneta. Então quem assim descobria o mundo e inventava as amizades eram nossos olhares, movimentos e momentos; alguns preciosos dos mais sutis.

Condenados infinitos a falsear pelo direito legal da lei, os magistérios prisionais e aprisionados seguem professorais, impondo e lecionando verdades. Produzem uma linha tênue na relação, ora feita com muito medo, ora com eterna bondade fingida de coração. No acontecer de raros laços passionais com o prisional, o magistério pecador entra em exclusão da cadeia, voluntariamente ou não. Paixões só com a fôrma da lei, ou o enquadro de um juiz. Todo o aparato vigia. Que fruta entrante à carceragem em mão de professor ou professora, podem criminalizar, desconfiando. Por assim também, sonhos com bandidos e humanos pulsares secretos, devem se manter quase aos recalques, tidos ao jogo rápido do esquecer, em passagem indesejada de vida. Formados a produzir as fôrmas espetaculares de estado, os professores secularizam as exceções, as pequenas tiranias, as hipocrisias.

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