Chego ao balcão da padaria e olho os frios na vitrine. Mulher gostosa espera a vez de ser atendida. Me varre com o olhar, o que me inflama macho à exposição. Como os frios na vitrine eu também estou aqui. Mas algo antes invisível estoura pelo ar aos nossos ouvidos: o assassinato de um negro por três seguranças de supermercado. No gosto das mídias todo mundo ficou sabendo. A morte por um tapa diziam as bocas. Achamos que tem coisa a mais e profunda, que no Brasil todo negro é suspeito, já nasce negro. O atendente dos frios estava fulo de raivoso. Dizia-nos em baixo tom odioso mas aos quatro ventos, que o negro pelo tapa dado no segurança tinha mesmo era que morrer. Num fulo de contrapeso, opus-lhe que se fosse um branco o carinho seria outro que não a morte. A gostosa concordou comigo. Meu ódio subiu mais e o do atendente também. Ao pulo de um concordar mentiroso meu, disse-lhe que ele tinha razão, que o negro pelo tapa desferido tinha mais era que morrer mesmo. Saí dali ao engasgo de espinho na garganta, mas com a mulher bunduda por dentro de mim; frio na mão fogo pelo corpo.

Na rua o espinho espinhou mais. Envolto na raiva bandida, não consegui berrar ao puxa-saco do balcão, que toda desgraça do tapa estava ainda por vir, pelos cinco dedos na cara. Assassinos agora, os seguranças passariam por um júri popular; virariam, já tinham virado, moradores de carceragens prontas. Porém mais ainda, não poderiam jamais cair em cadeia da nossa facção vermelha, aonde seguranças são também inimigos-polícia. E no pensar ter dito isso ao atendente dos frios, passava por mim o fantasma de serem mortos os enforcadores do negro. E eu já até calculava que os três soubessem desse perigo. Mas lembrava-me também, que nos outros coletivos de cadeia, de outras facções, a morte sempre os rondaria. Uma pelas prisões brasileiras serem bem mais negras que brancas; a outra, que eles os três, não passam de polícia de supermercado, como já dito.

Vamos aos não-finais. Desgraça não vem sozinha, vem no cacho. Na vida os novos presos narrados aqui deixaram em desamparo alguém, penso sobretudo em crianças, que alongarão por si genitores bandidos, no sentido negativo da palavra bandido no social, e assim também condenadas. O mundo inteiro não mais se lembrará, muito menos se alertará disso. Mais desgraça não faz mal a ninguém, ao outro quero dizer e digo; que seja então dessa forma por aqui. E para fechar tudo, nosso vice-presidente berrou patriótico tocado humano e referido ao crioulo morto do tapa, que no Brasil não tem racismo. E ninguém objetou-lhe, que só se nega o que existe, pois o inexistente não carece de negação, assim mentirosa e presidencial, muito menos lavada como a dele.

0 respostas

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *