Na tarde da rua São José, homem desconhecido buscando chamar atenção fala contra a Milícia. São inimigos, diz, numa voz alta porém de certo recuo e medo. Nós, os passantes e ouvintes, entendemos claramente pelo que ele nos diz, que lá onde mora agora é Milícia.

Lembro de um belo quadro de Rembrandt*. Como também de que já escrevemos sobre o assunto Milícia. Este, acontecido ainda lá nos anos sessenta na Baixada Fluminense e periferias do Rio. Houve muito medo na época como agora, com um discurso partilhado mas subterrâneo no povo. Mesmo quem os escreve, sente fortes fragilidades.

Falar de Milícia só em lugares fechados e com bem conhecidos. Às vezes a meia voz, com olhares aos vizinhos por perto. Por outras, melhor nem tocar no assunto; principalmente se estivermos em área dominada. Sentimo-nos, como que invadidos por um exército estrangeiro inimigo mortal. O profundo flagelo provoca calares ou cochichos inseguros. Eis uma nova facção, disse-me o preso um dia.

Notamos também, outras tomadas de posição nas facções históricas com base comunitária; elas não se digladiam entre si mais tanto, disputando espaços. Talvez e certamente efeito de presença da Milícia; melhor, do seu corrente e rápido expansionismo pela cidade, conquistando territórios.

Configurações novas de um mundo de guerra. E com ele nosso muito mais medo junto.

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Nota do autor:

A Ronda Noturna.

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