Entrei na Vila Mimosa, pensei ainda com a mão na maçaneta da porta entreaberta. O forte cheiro de esperma quente e ainda recente, misturado ao de vaginas saciadas, puseram-me num instante e ao impacto no prostíbulo público e central do Rio de Janeiro. Naqueles dias a escola na carceragem era grande mentira. Mentira que era a nossa resistência bandida, minha e dos meus grandes amigos do crime. Havia uma luta secreta com medos e tremores. Depois de guerras intestinas no cárcere entre nós e as polícias, cismaram de acabar com a escola, o que nós no crime resistíamos. Do meu lado professor, eu jogava atirando com uma única frase na direção das polícias e Secretaria de Educação: se destruírem a escola, aviso a todos os meus amigos. Que quem me ouvia, sabia tratar-se nada menos do coletivo inteiro e assustador penitenciário do III. O medo fazia todo o mundo legal recuar. Meu fuzil era a boca, meus pentes de bala sempre carregados, o cérebro.

A escola era mentira porque nunca havia aluno. O regime disciplinar interno imposto proibia qualquer um fora da cela. Tudo funcionava num simbólico. Abrir e fechar aonde estudávamos todos os dias, o ritual da resistência, da vida; como um atirador que defende sua favela da polícia estranha e assassina. E estávamos ali, quase sem falar mas cúmplices, eu e todos os bandidos do III. Que hoje, reconheço ser uma das maiores e a mais inteligente quadrilha da qual participei.

E ainda na porta entreaberta, imaginei todo o final de semana da secretaria escolar funcionando num grande ratinho*. Amigo de cela meu me contava, que se esgotava em várias relações na visita íntima, até quase nem andar com as pernas bambas. A química pubiana armazenada no ar fechado e sobre cadeiras e mesas, à espera de um professor desavisado, com milhões de espermas mortos mas inda resistentes, foi a prova e o grito, de que a vida só pode continuar. As idiotices dos homens não impedem nada. As púbis ardentes sempre se encontrarão.

Nota do autor: ratinho, lugar improvisado aonde se faz sexo na cadeia.

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