Ninguém sai imune de uma cadeia. Do diretor ao preso mais anônimo, todos estão trancados. Que as muralhas não são pessoas. Ao iniciar-me na feitura destes textos, mal-estares me afligem por dentro. Coisas anteriores não estão passadas, resolvidas, ficam apenas inertes, esperando uma hora de aflorar, ou explodir. Por vezes, ao conversar com alguém, bombardeio os ouvidos alheios sobre as penúrias das grades. Com médicos aos quais paguei caras consultas, aconteceram os bombardeios. Eles, os médicos, pacientes deixam-me falar, contar as minhas histórias de grades. Quem deveria falar, pelo menos num momento consultando, só me ouve. Devem ter-me por um perturbado ou louco. No final da conversa eu me desculpo da falta de educação feita. Mas só a descarga da garganta me socorre, me alivia.

Dez anos de cadeia não são dez dias, sem heroísmos. Com toda a carga de pressão em Bangu III, clarifiquei durante muitos meses a vontade de dormir, pelo menos uma noite, numa de suas celas. Queria um mergulho mais fundo no poço, sentir os silêncios e os movimentos noturnos do crime, suas declarações e perigos. Internos amigos mais próximos, sabendo as direções das minhas vontades, tornaram-se receptivos e felizes. Quem sabe algum cigarro rolaria entre nós e até riríamos, eles comentavam. Os sentimentos não escolhem lugares.

A cadeia nos juntou e algo nunca mais nos separará. A noitada solidária não foi possível, por impedimentos legais e de segurança. Minh’alma queria mais sobre a ação da prisão, o que é estar  num corredor daqueles. A grade havia sido vencida.

Nestes anos todos de cadeias, vi um continente de perturbações mentais além das minhas, alunos com ansiedades e angústias extremadas. Fora outros casos mais profundos, em que alguém se entocava na baiuca, mal saindo para necessidades básicas. Revoluteios e surpresas mentais aconteciam. Com certa calma, eu tentava recompor, batendo no discurso da esperança e da vida. Mas também eu me desgastava por dentro. O peso enorme do mundo nos atormentava. Falávamos a nós mesmos, como um consolo moral, que o lado do poder estabelecido torcia por nossa morte, mas que nós, eretos, sairíamos inteiros para a vida. Agora, nestes dias que escrevo, talvez ninguém me ouça, porque no fim eu também fui um interno.

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