Eu digo lá fora, que tenho mais medo de carro do que de bandido. Esta frase, foi dita num instante de liberdade e de comunhão, numa aula dentro da cadeia, em Gericinó, Rio de Janeiro. Houve silêncio geral, talvez em alguns, como um entrave a engolir. Passados dias lembrei dela novamente, só que com certo sentimento de cuidado e com a indagação se ferira alguém. Mas a tal frase não se desligava de mim, como se dizendo-me algo e eu incapaz de entendê-la. Eu tentava esquecê-la, e ela, insistente, me voltava.

Mais de dois anos depois furei a barreira. O do porquê dissera e continuava a dizer no meu silêncio, que tenho mais medo de carro que de bandidos. Talvez porque estes pensam, e aquele não. Não, não é isto. Primeiro me veio a ideia acertada de que ao pronunciá-la, a frase, eu estava buscando mexer no preconceito do preso que ele tem sobre si mesmo, na culpa, de encarnar o único mal na cidade. Ou seja, de que a palavra bandido tem que ser deslocada.

Caminhando pelas ruas, normalmente do Centro, cruzo com grupos diferenciados de gente. É a comunidade na área! Dizemos, dizem. Isto com o reforço instantâneo de cuidados e o aumento do medo; podem nos roubar. Esqueço, e me lembro agora, que possuo mais do que medo, terror com causa, de certos balcões, como os de sapatarias e lojas de roupa, de operadoras de telefonia e de farmácias. Que podem e me enganam, ainda fazendo-me ganhar a rua feliz da vida. A legalidade tem mais bandidos. Realizar uma operação de compra ou venda de casa é um verdadeiro martírio. Na prática, o substantivo corretor possui como seu sinônimo natural a palavra golpista. Mas no ramo do direito e da justiça também é assim. Só sabemos em qual corpo mora e está o bandido depois do crime feito, e legal, sem salvação. Aqui, temos um misto de cumplicidade nisto. A vítima odeia o seu algoz mas se cala.

Entre o bandido histórico, este que normalmente vai parar numa cadeia, e o outro, incubado na legalidade no corpo de qualquer profissão, há um duplo de mentira e de verdade. Enquanto o assaltante comum, numa ação clara e direta nos rouba, o outro, o bandido legal, rouba-nos legalmente muito falso e mentiroso, acobertado pela aquiescência social estabelecida. O amedrontador e evitado é verdadeiro; o aceito, o falso, o mentiroso.

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