Formas  de sexo me chamaram sempre muita atenção dentro da cadeia, inclusive a minha. Sem termos parceiras, a grande maioria de nós se vira com as próprias mãos. Nos dias ou dia em que o imaginário está rico, de bom augúrio, as coisas saem bem melhor, às vezes nos dando até esplêndidos alívios e satisfação. Sonhamos bastante com mulheres, claro. No aperto da abstenção sexual obrigatória da cadeia, coisas até escabrosas fluem durante o sono. As minhas, no início me perturbavam, e de vez em quando ainda, mas as provações da vida e várias leituras do Freud me balizaram um pouco, me dando certa calma. Porém ímpetos intensos de beijar uma mulher, acariciá-la mansamente, até fazê-la linda dormir, tomam-me de assalto, distraído. Fico meditando sobre isso, essa abstenção obrigatória, e chego à racional conclusão, de que o poder imposto realiza esta tortura como para nos matar ainda mais. Num dia, dentro da cela com quase cem homens, nitidamente ouvi deliciosa voz de mulher, não dizendo meu nome, mas ao mesmo tempo como que me chamando. Dei um arrepio violento e fiquei excitado. Não sei se cochilei num segundo e sonhei, ou até se delirava. Durante esse dia do fato, fiquei depois fora do ritmo da vida e com uma pedrinha por dentro, incomodante. Não sei quantas vezes, já perdi a conta, em que acordei todo molhado por causa dos sonhos. Nalguns, coisa meio estranha, não acontecendo nada de carinho e penetração, mas mesmo assim me fazem ejacular, às vezes até com viajante gozar. Sinto-os como uma espécie de magia. Um dos mais lindos sonhos que tenho, estou confortavelmente deitado e vários rostos alegres de mulheres me olhando, como que cuidando de mim, no sentido de proteger. Espero chegar lá fora e não pegar todas, mas encontrar uma que me sacie, me esgote todo por dentro. Fazendo-me acordar na manhã levinho como uma pluma, vendo o mundo por um igual.

Consegui certa vez umas camisinhas aqui na cela, que ao colocá-las já era tudo, como numa penetração deliciosa. Devemos ter por aqui, na cadeia, invenções sexuais incontáveis, pois se já lá fora, com toda a liberdade, tem tantas. A lógica também é simples. Imaginemos um pastor que cuida de cabras. Todos os dias ele as leva às montanhas, aos matos, para pastar. É só ele e as cabras. E pode acontecer dele se apegar a uma delas, ou até a mais de uma. Homens e animais se relacionam e se entendem muito. Pois então está notório que as nossas linguagens, de homens e de animais, se encontram, se realizam. Voltemos agora ao pastor e às cabras. Pode acontecer ainda mais, e acontece, dele possuir um amor não-correspondido. Num dia, sem ele ao menos esperar, ou até esperando muito, começa a perder o controle sexual em si mesmo. Será também que temos algum? Isto é, controle? A partir daí, sem mágoas, as coisas começam inevitáveis a acontecer. Uma cabrinha se torna sua linda mulher. Na roça, onde nasci, ainda pequeno eu ouvia histórias verdadeiras sobre éguas, mulas, rapazes e meninos. Numa delas, existia até uma lata grande, a servir de degrau, noutras um barranco eleito, o do orgasmo e da festa. A turminha se saciava feliz.

Não sei qual ordem, natureza de transtorno ou marca perpétua, esta ausência de mulher em carne e osso deixa ou deixará em cada um de nós. Teve uma época, numa cadeia pela qual passei, que estiquei o quanto pude minhas idas à psicóloga. Só de sentir o seu cheiro já me enchia por dentro. Numa vez, quando ela se curvou de costas para mim, cheguei a ver os contornos em alto-relevo da sua calcinha, e um pouquinho dos desenhos, em azul e branco. Mulher atender preso é o maior castigo, embora o que todo mundo quer. Noutra oportunidade, alegando fazer artesanato, pedi à mesma psicóloga, que me desse um tubinho gasto de batom jogado fora. Na cela, cheguei a alugar e a emprestá-lo a alguns amigos. Não sei o que faziam com ele, o tubinho. Comigo, só em pegá-lo, sentindo o lugar que dedos femininos estiveram ali, me dava pequenos transportes. Alguns objetos parecem mágicos, ou então somos nós feiticeiros que jogamos a magia. Mas de qualquer maneira são mágicos.

Cada um de nós só pensa em sair da grade, como um trabalhador exausto e faminto na aposentadoria. E quem não pensar é louco. Estamos aqui para pagar nossas penas, conforme o estabelecido pelo jurídico. Quanto a mim, nos instantes racionais eu tenho isto equacionado na cabeça. Só uma coisa não dá nunca para assimilar, entre também outras fazendo um conjunto, é a de não sermos vistos possuidores e sendo natureza, com desejos e muito sexo.

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