Uma parte da população, talvez grande, imagina ou está educada a ver cadeia como um céu, alguns também com ironia. Lugar onde as necessidades básicas do comer, abrigar-se e do vestir estão totalmente atendidas. Lógico que sem dispêndio de trabalho ou de custo ao interno. Então isto assim seria o céu. Não lembram porque nunca viram, que lá a liberdade é ausente, todos trancados. Que moram juntos numa mesma cela. Os banheiros, chamados “boi”, de uso coletivo, isto é, toma-se banho aos grupos num mesmo momento. Sendo, que uma das coisas mais horríveis por lá é a perda quase total da realização de desejos. Mais ainda, o sentimento dessa perda. Outro dado mortífero daquela condição, a ociosidade obrigatória, o não ter o que fazer, muito menos aonde ir. Que perdas e agressões psíquicas isto produz no ser humano, caberia e cabe um estudo.

Do Engenho de Dentro a Campo Grande é uma viagem de trem urbano. Que faço de vez em quando em visita ou a trabalho. Com as composições novas, vieram o ar condicionado e as imagens de televisão. Resolvi um dia então vê-las, as imagens. São propaganda de governo e sempre repetidas na mesma série, num bombardeio incansável. Ao que serviria aquilo? Minha mente me perguntou. Logo a seguir respondida, amansador de população. Especificamente, tratamento e prevenção contra possíveis fúrias coletivas. Nas imagens mostram e dizem um país de risos e constantes realizações felizes. No trem, ao final do dia e já até noite, o trabalhador exaurido e espremido na lotação do aperto, fica obrigado e bombardeado pela propaganda adocicadora oficial. Sim, um adocicador de mentes.

A cadeia é um lugar restrito, proibido, e altamente indesejado se chegar por lá. A restrição tem fins controladores de imagem e do real. Logo no início da Estrada General Maurel Filho, a via que nos acessa a todas as unidades prisionais, está a primeira cadeia, a Penitenciária Industrial Esmeraldino Bandeira. Nela, o muro se mostra sempre bem pintado e cheia de micro-indústrias. A panificação e uma fábrica de tijolos foram as que mais ficaram nas lembranças. No trânsito diário de ir e vir, notava que a Esmeraldino Bandeira é a mais visitada e visada para quem vem de fora em visita de autoridade. A vitrine do Complexo de Gericinó. Então, a todos a quem se deve mostrar e provar como funciona o Sistema Carcerário do Rio de Janeiro, a bela e funcional Esmeraldino está lá, esperante.

Ao lado dela, da Esmeraldino, fica a Plácido de Sá Carvalho, vivenciada por mim durante cinco anos. O que vi da Plácido é que a miséria e a ociosidade imperam. Numa manhã, em depoimento inesperado, um aluno na escola me passou um drama de todo o complexo. Relatou-me ele, em tom de alto sofrimento e perda, que até o dia anterior estava no muro ao lado, na Esmeraldino. Que nela trabalhava diariamente fazendo pães e doces, com dias produtivos e até felicidades. Mas, por trâmite da pena jogaram-no ali, na Sá Carvalho. E que agora, sem qualquer ocupação, estava obrigado a ficar olhando pras nuvens, no tédio do ócio obrigatório. Um inferno. Por este depoimento e pelos meus olhos de vivência diária, vi a função da Esmeraldino como vitrine de Gericinó, e a grande busca, mas sempre negada, da maior parte dos aprisionados em trabalhar.

Nos momentos de filmagens em qualquer prisão de Gericinó montam-se cenários. Eu, inclusive, já participei de alguns. Sincero, quando eu convocava meus amigos e alunos aprisionados, dizia-lhes:”olha gente, é coisa rápida, só um cenário!” O que todos entendiam, e geralmente colaboravam. Mas colaboração conscienciosa de que tudo aquilo nada mais era e é somente imagem enganação. Como naquela do trem.

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