Tratamentos Visíveis – Com Penitências

Ao chegar-me o preso educado levantou-se. Incomodado ao grátis da ação perguntei-lhe por quê. Qual bicho ou coisa lhe mordera e o pusera naquilo, num submisso de não-ser. Orientação coletiva nossa professor. Na magreza de única cadeira somente o mestre deve sentar-se. Mas eu não pedi, objetei. Se caso fosse pediria, que nesse momento não. Então, por nosso pedido permaneça confortável aonde convém. À cadeira então o preso se pôs.

 


 

Internos vinham pela ala a sair. Aos gestos seguranças percebíamos isso. Papéis de entrega e carregamentos já estavam a mãos. Aos olhos ficamos assim às esperas. Quem eram ou seriam nos indagavam perguntas. A estranha da hora, num fora de ponto-cadeia, mexia-nos por dentro. Esqueletos surgiram; dois longos, algemados doentes. Peitos e bocas tossiam sem parar. Roupas não vestiam, engoliam. Ossos embrulhados só em peles, nauseavam. Às perguntas guardiãs de nomes e pais, bocas respondiam sons e escarros. Aos receios fugimos dali; quadrado infecto, baciloso. E os terminais só olhavam ao chão já em prenúncios. A terra quem sabe os chamava, na tranca do último espaço. Pernas não aguentavam mais, e punham-se a cair, desfalecer, num martírio atroz. Mas a guarda em resiste não lhes permitia gritando, que só ficassem em pé a dois esqueletos rotos.

 


 

Na secretaria escolar o preso chegou-se. E permaneceu esperando, no rito de submissão. Mãos atrás meio curvado e quieto, ninguém olhava. Talvez mesmo que nem existisse, não fosse gente. Todo ao redor estava em outra, ocupados às suas vitórias. O descaso total abafava. As pernas passantes não lhe viam. Num ímpeto parei, levantei e fui. Pesquisei que desejava. Matrícula, respondeu. Ao gesto sem favor indiquei sentar-se, dando-lhe cadeira. Mas antes disse, que soltasse o corpo liberasse as mãos, se pusesse gente, que ali ele não era preso, pessoa natural e comum como todos demais.

 


 

O preso aguardava à muralha, ao posto em esperas de um fórum a enfrentar o juiz. Já horas ali, o cansaço dizia. Quentura do sol rebatia ao concreto e voltava às peles, em reforço do maçarico direto. Nada de sentar-se nem ao chão, mandamento mosaico de cadeia. O pino do dia já fustigava. Mas tinha que aguentar, aos silêncios da quietude. O corpo implorante e a penitência que lhe negava. E a caçapa do transporte que não vinha, nunca chegava. A torturar na ponta do pátio o alívio convidante. Sombra. Vou não vou se dizia duvidante. Aproveitasse logo porque sumia, e o sol matava. Sim e não, a coisa e a vontade. Foi. Num mesmo de instante o guarda viu e berrou; sem um segundo de refresco.

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