Sentenças Perpétuas

Eu estava num lugar junto a pessoas de jaleco branco, que me parecia secretaria ou sala de professores de uma escola. Minha fala era de justificativa. Eu dizia ser um sobrevivente. Pois trabalhando tantos anos nas cadeias, como trabalhara, e convivendo com muitos doentes dos pulmões continuava vivo e são. Até lembrava, pondo a boca em redondo e assoprando, os bafos que recebera de pessoas tossindo. Logo a seguir, passei a ver vários homens manipulando concreto fresco em preparo. Havia muitas masseiras. A luz meio escura. Nessa parte acordei assustado com o sonho.

Ao despertar, na busca de tranquilidade, constatei logo não ter sido pesado e tenebroso como alguns outros sonhos, que me causam profundo mal-estar na alma e no espírito. Sonhos estes que sim, muito mais horríveis que pesadelo, sempre se referem a tempos e ações de trabalho. Que, eu mesmo já aposentado, carrego eterno, em grandes traumas quando aparecem. O dormir, deve deixar ou pôr as guardas e barreiras internas do Eu relaxadas ou sem ação, permitindo que o tão profundamente interiorizado se desgarre e saia. Fico na impressão como um inferno e tortura a esconder, numa infrutífera ação de evitar a Dor.

Sabemos que guardas e presos sonham com as grades, em imagens do dia anterior descarregadas no material onírico. E que as vidas deles, mesmo em objetivos e realidades tão diferentes, repousam num fundo comum: ambas estão em prisões.

Ao lecionar em escolas penitenciárias devo ter ficado em duas cadeias: a do contrato de trabalho e a da realidade do local. Que também podem ser só o desdobrar de uma única. Posso assim, acordar livre mas na sensação ainda onírica de estar numa comarca na cela; ou em sufocos de forte dor de barriga num boi,* a defecar. Também, descubro hoje duas tragédias de vida. Uma, de que as décadas de trabalho assalariado cingiram-se ao meu espírito, fazem parte mortuárias dele. Então, mesmo aposentado continuo afixado à máquina de produção. Como um preso que mesmo liberto, continua na cadeia. A outra, de que vejo trabalhadores logo morrerem ao se aposentar; não conseguem mais respirar livres, fora das grades do eterno trabalho.

 

 

Nota do autor: boi, latrina de cadeia no jargão prisional.

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