Os Corpos – Aonde os Suplícios Estão

Nasci algemado e nunca mais me saí.

 

 

Crianças dormíamos no chão, em rotos e finos colchões de capim por sobre jornais velhos. O frio do cimento podia nos matar. O martírio de tudo não era o dormir ou se deitar, mas o antes e o depois que nos garroteavam. Por vezes sonolentos aos já quase cair, o chão da sala tinha que estar livre, por qualquer afazer a mais ou alguma visita ou esperas. O uso da sala se embolava como de quarto que não tínhamos, pervertendo tempos e castigando mais. Dizer casa quase certo estávamos mentindo. Quando também deveríamos amá-la; não só a casa e a nossa mentira, porém aquilo tudo de mundo. Que a modo de coerção a ordem das coisas nos mostrava o pior: alguém sempre mais pobre se existia se miserando mais. Assim nos contentávamos, nos mentíamos.

Ao arroz com feijão de básico se aglutinavam alturas e baixios sem aviso de espera. Um ou outro podia escassear, ou os dois juntos. Às raspas de fundos de panela somavam-se requentados cafés com farinha. Não havia fome, mas a penúria contínua da quase falta, de um quase ter ou não ter de um almoço. Que por vezes acontecia plenamente: hoje não tem comida. Só o mundo do imaginário nos salvava; ou pelo pouco nos permitia sobreviver. Pedir emprestado em canequinhas expunha o limite do seco. Entre as casas, pés e mãos dividiam ou buscavam alimentos nas penúrias dos dias. Enormes distâncias e descasos subsistiam monstros ferozes perenes e crus. O mundo só deve ser aquilo.

Jogado no frio da cadeia parece que redivivo. Ao chão do pouco espaço nos redimimos coletivos como em casas. Vindo da ordem e a própria ordem, o suplício diário nos invade, ou ameaça. O mundo só se repete então. O de fora quase sempre está aqui. No ajuntamento das nossas casas a lotação de uma cela. Ter ou não ter algo pela ordem do guarda, me traz por dentro a escassez-penúria de uma certa criança. O não-ser do meu corpo por horas marcadas aos conferes, revistas e outros males a ter que passar, me reacendem antigos de rua. Esperar na fome ou as dores ferrenhas de uma surra ainda criança, me repete por aqui em rotinas de grades. Meus mundos de fora ou de dentro se igualam; na aparência cegueira de que são diferentes, que até se contrariam.

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