No Escuro

Algumas tardes cresceram ficando maiores que nós penitenciários. Começaram as professoras a trazer-nos filmes; saboreados no quase acaso das sessões inesperadas, em sala de aula por cinema e lotada, às pré-estreias espetaculares. Alunos e não-alunos se chegavam, nas vontades e fuga de um gargalo estreito, a cela de cada um. Sem que me desse tanto por mim, o coração e a alma viravam-se alegres e até alguém feliz. A pequena multidão, maior número que o costumeiro das aulas, deliciava-me todo a recebê-los. Éramos ainda pessoas.

Como numa casa e hospitaleiro, nossas mãos se ocupavam num delicioso café. Delicioso porque repartido, passando de mão em mão num copo só. Nossas almas via bocas e lábios se irmanavam. Todos ali. As pernas de um professor feliz iam e vinham. No ritual do filme nos encontrávamos, sem boas-tardes e olhares hipócritas. A comunhão das almas sem muito se mostrar se nos bastavam. Bandidos para os de fora ou para quem quer que fosse, para nós ali corações e desejos. Que o grande filme não era o da tela, mas das almas se repassando nos mundos.

Houve “Dançando no Escuro”. E o apoio de cinema teve que por bem arrumar mais cadeiras, todos queriam vê-lo. Afoito ao café nossas mãos iam e traziam mais. Pelos goles prazerosos nossas vidas se encontrando ao ritual do mesmo cálice, qual numa ceia. Queríamos sempre o melhor. Pois o café da cela era outra coisa, chamada de ruim ou venenoso; e pago a bom preço talvez. Mas tudo tudo mesmo, que mais do que importava, éramos todos ali, dançando por aqueles escuros. Nos dizendo ao silêncio do filme por nossas querências e texturas. Plenos à liberdade por um fim.

0 respostas

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *