Fumaças

Novamente na tabacaria. Pensá-la me lembra Pessoa*. Entro fingindo distração no verdadeiro tímido que sou. Logo envolto pelo barulho civilizado de animada discussão. Os charutos fumegam. Par de olhos me fixam desde a entrada, como se já por lá me esperassem. Cauteloso ocupo mesa em separado. Mas os tais olhos me convocam. “Olha gente, esse aí chegado agora tem dez anos de cadeia!” Todos param, me fitam, e sou obrigado a virar-me em atenção, o grupo inteiro me quer. Assuntamos cadeias, facções, bandidos famosos e carceragens. E ao meio destes objetos, interligando-os e os mantendo à superfície, um espírito não pronunciado em subjaz ao dizer, o arauto de verdade que toda conversa possui. E a ela, a esta verdade, é que vamos.

Os charutos e as fumaças puseram-me a acordar. Ao consciente de que se certa parte do mundo os odeia outra os venera. Aí ou aqui a nossa clara pergunta: por quê? Ou seja, o que os bandidos-líderes de facção têm que os fazem admirados e famosos? E isto também por quem não é nem está no crime. Um ser famoso que extrapola a linha marcada da delinquência. Continuando. O que existe neles que nos atrai? Até às vezes nos encantando um pouco? Num campo de um certo heroísmo? Agora sim chegamos aonde queríamos. Saboreio em manifestos do inconsciente coletivo, de que há uma grande ação periculosa e bandida que necessita ser feita. Arquitetada em conjunto nacional e posta ao fogo da história e da vida a preparar-se; o mudarmos para o tempo de um outro estado de coisas.

 

*Nota do autor: Fernando Pessoa, poeta português. Escreveu o poema Tabacaria.

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