Declaração Atenagórica

Produzimos um número de crônicas com um fundo comum. Ao nos vivenciarmos pelo mundo, ruas e lugares com pessoas, ouvimos e percebemos maneiras e mais maneiras de pensamentos e visões do real imediato ou do mais profundo. Vivemos momentos históricos de muitas mortes, violências de todas as formas e grandes medos. Estes últimos causas e fins de enormes tragédias. Andamos e ouvimos pessoas. E ao ouvi-las, percebemos como no geral ainda nos encontramos tão deficientes e ou equivocados sobre nós mesmos, numa visão e relação escuras, com falta de consciência e de razão. No imediatismo e superficialidade dos noticiários das mídias nos confundimos e nos ignoramos mais. Mãos e forças de fora do crime, mas um crime mais severo e profundo, lucram muito e se abastecem com isso; com os nossos sofrimentos e mortes.

Um mundo, qualquer mundo, é feito com o social que ele mesmo produz. Quando vemos alguém matando ou morrendo, ali não é um ponto isolado ou final, é um estágio avançado da coisa. Somos concordantes, esta posição de responsabilidade há que sempre se pôr. Como também as perguntas por que estamos e ficamos assim. Só cabendo a nós respondê-las. E mudarmos de direção se assim o desejarmos. Ou morremos ou vivemos.

Sempre nos incomodou o discurso sobre os penitenciários nas bases e formas da moral estabelecida. Ou seja, vistos de fora para dentro, e nunca deles para fora. Numa visão básica de que eles, e só eles, são os culpados de tudo. Por isso somente eles têm que pagar. Em noção de que a mão que mata e rouba está sozinha e é sem história. Alguém já nos disse que um menor não cheira crak à toa, nem por recreação. Não temos lições, respostas e soluções acabadas e por assim postas. Nosso trabalho, com a ajuda de tanta gente, é, significa e possui como fim intencionável nos sabermos de outras formas e mais. Se não estamos bem assim, como não estamos, o que necessitamos realizar para nos mudarmos. Antes nos vermos mais e melhor, sempre pensamos nós. Nossas formas de ser não nos atendem mais. Dizer ou tratar sobre crime significa reconceituar ou atualizar a palavra crime. E com ela todas as outras que a acompanham. Talvez tendo que alcançarmos a totalidade do nosso discurso num trabalho longo. Hoje somos inimigos assassinos cruéis de nós mesmos. E nos prendemos tanto, dentro e fora das cadeias, também em outras prisões. Há muitas condenações de classes sobre classes.

Trazemos de longe a violência já estatizada nas formas do nosso Estado, quer dizer, república. Ao homem comum nada ou quase nada. E tudo num grande favor benevolente e bom. Mas nada esperamos disso, ou seja, de qualquer mudança da máquina pública. Há um desejo nosso no trabalho de escrevermos; o de levantarmos outros discursos, formas de pensamentos e ideias. Buscando enxergar um pouco além das trevas que nos cegam, nos derrubam e nos matam. Prossigamos então.

 

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