Aonde Afinal Estou

Você sempre fala como se estivesse na prisão, ou como se fosse um preso, e nunca professor e livre; diz-me meu amigo de charutos na tabacaria. Repete-me isso várias vezes, a lembrar-me, como de algo que o incomoda e talvez não saiba mesmo dizer. Pela sua insistência tento lhe responder, dar uma explicação, mas a boca não sai, não se solta de dentro de mim. Almejo ressignificar, por fim respondo. O que ele imediatamente objeta ser impossível.

Várias vezes converso com pessoas, e descubro como a grande maioria tem na cabeça a cadeia em uma eterna balbúrdia, um lugar sem o mínimo de ordem e mesmo que só um pingo de humanização. E estas imagens até em gente que esporadicamente já foi visita. Não veem ou nunca aceitam, – com alguma grade? -, que existe uma luta contrária, uma resistência de fundo. E talvez seja esta luta que tentamos o tempo todo dizer; enxergá-la nos recônditos gestuais das visitas, na ordem e essência do discurso do preso, e descrevê-la, comunicar. Então nunca aceitar sem questionar a palavra que nomeia o objeto. Antes não confundir o próprio mundo com o significado mundo. E assim descobrir outras latências, outras formas de vida. Sentimos o quão pouco sabemos. Mas um outro foco de olhar em nossa escrita produz reações, mesmo que um leve mexer de retinas. Reações estas em que outras mais se alinharão, e já em terceiros gestos ao que antes tão encoberto. Ressignificar, em nosso caso, é já pôr o outro à escuta, quem sabe até a desejos.

Alegrias Internas em Liberdade

Inscritos no vestibular fariam provas no domingo. A direção da cadeia, a então antiga Dr. Serrano Neves ainda não partida em duas unidades, solicitou nossa colaboração docente. Arrumar um pouco a sala dos exames, receber os alunos; no geral mais um apoio moral auxiliar do que didático e físico. Guardas- professores ministrariam as provas. Nós, numa preocupação humana e escolar, arrumamos pequena merenda para os vestibulandos, em manhã  de raciocínios e respostas. Que todos só ao café das celas, ficariam horas trancados às questões e às grades da sala. O que lhes daria fome e sede, alterando o desempenho dos saberes e cérebros. Quase ao chegar dos vestibulandos, a tirania do chefe dos guardas-professores, num ímpeto ríspido e gratuito, censurou-nos proibindo a projetada distribuição do miúdo farnel. Não, disse-nos ele fingindo brutalidade, e esconda tudo para eu não ser forçado a uma negação por internos. O que objetamos, escondendo a merenda, que conosco e os presos tínhamos a total liberdade do sim e do não. Fora, bem fora, de uma relação de litígio, medos ou de guerra. Eu e os presos só éramos amigos e pessoas. E a mão de um atencioso professor colaborador acatou a ordem imposta, não sem algum desgosto interno e silencioso.

Antes do início dos testes marcado em hora oficialmente cronometrada, começaram os mecanismos e rituais de soltura das celas. Coletivo em R.D.D. ( regime disciplinar diferenciado ), os guardas só liberavam os vestibulandos das galerias um a um; em total aparato de revista, movimentos e cuidados. Como numa operação de alto perigo, provocando-nos ânsias de esperas e um sentido de que nada daquilo de amparos eram necessários e não levavam a nada. O que acontecera já passara, uma rebelião. E os tempos corriam entre as grades, de um silêncio inquietante e clima de pesado mal-estar. Num jorrão inesperado cabeça de fila de homens pôs-se à nossa frente, no dobre de uma esquina de concreto. O primeiro da fila ao nos ver abriu-se em sorrisos e manifestações de alegrias. Assim, desmanchando todo o aparato de corpo imposto pela ordem, suas mãos vieram à frente num caloroso abraço e cumprimentos. Seguido no respeito um a um nos seguintes, no ritual sincero das congratulações. Eles reencontravam seu querido professor. Depois de muitos dias de um vazio escolar massacrante.

Terminados nossos afagos, felicitações e desejos de boas provas, puseram-se eles os vestibulandos à sala, quase chegando ao fim a nossa tarefa de apoio. Porém notei no ar abrupta mudança nos guardas-professores em relação a quem vos escreve. Começaram olhares de falsa harmonia e comunhão de vida e civilidade, pois descobriu-se eu professor amigo deles, do crime. Produzindo no que foi antes tão ríspido e duro, manifestações de abrandamento, de medo inconfessável. Pois quem gosta cuida e protege. E a segurança das provas sentiu ali aos olhos, que os internos sabiam gostar, produzindo receios de entregas nosso e possíveis retaliações dos internos. O que nunca fizemos nem nunca passamos por estas vontades. O máximo ali, o ápice, foi aquela comunhão de vida e civilidade verdadeira, na amizade sincera dos nossos amigos de cadeia.

Sentenças Perpétuas

Eu estava num lugar junto a pessoas de jaleco branco, que me parecia secretaria ou sala de professores de uma escola. Minha fala era de justificativa. Eu dizia ser um sobrevivente. Pois trabalhando tantos anos nas cadeias, como trabalhara, e convivendo com muitos doentes dos pulmões continuava vivo e são. Até lembrava, pondo a boca em redondo e assoprando, os bafos que recebera de pessoas tossindo. Logo a seguir, passei a ver vários homens manipulando concreto fresco em preparo. Havia muitas masseiras. A luz meio escura. Nessa parte acordei assustado com o sonho.

Ao despertar, na busca de tranquilidade, constatei logo não ter sido pesado e tenebroso como alguns outros sonhos, que me causam profundo mal-estar na alma e no espírito. Sonhos estes que sim, muito mais horríveis que pesadelo, sempre se referem a tempos e ações de trabalho. Que, eu mesmo já aposentado, carrego eterno, em grandes traumas quando aparecem. O dormir, deve deixar ou pôr as guardas e barreiras internas do Eu relaxadas ou sem ação, permitindo que o tão profundamente interiorizado se desgarre e saia. Fico na impressão como um inferno e tortura a esconder, numa infrutífera ação de evitar a Dor.

Sabemos que guardas e presos sonham com as grades, em imagens do dia anterior descarregadas no material onírico. E que as vidas deles, mesmo em objetivos e realidades tão diferentes, repousam num fundo comum: ambas estão em prisões.

Ao lecionar em escolas penitenciárias devo ter ficado em duas cadeias: a do contrato de trabalho e a da realidade do local. Que também podem ser só o desdobrar de uma única. Posso assim, acordar livre mas na sensação ainda onírica de estar numa comarca na cela; ou em sufocos de forte dor de barriga num boi,* a defecar. Também, descubro hoje duas tragédias de vida. Uma, de que as décadas de trabalho assalariado cingiram-se ao meu espírito, fazem parte mortuárias dele. Então, mesmo aposentado continuo afixado à máquina de produção. Como um preso que mesmo liberto, continua na cadeia. A outra, de que vejo trabalhadores logo morrerem ao se aposentar; não conseguem mais respirar livres, fora das grades do eterno trabalho.

 

 

Nota do autor: boi, latrina de cadeia no jargão prisional.

Eu e a Professorinha

Entramos numa época de muito abandono. Em 2003, já sem direção, a escola* só tinha a figura de um professor, este que vos escreve. Ainda muito medrosos e arredios aos penitenciários, quase ninguém do magistério se ousava chegar. Assim, nas idas e vindas diárias pela estrada interna de acesso, quando muito, eu só cruzava com uma única professora; os dois solitários da educação. Tocados pelos encontros e aproximações, começamos a ter um clima de namoros. O eu e só ela certamente nos provocava, empurrava um ao outro. Nesta época surgiu a primeira modalidade de transporte público em Gericinó. O um quilômetro e meio de estrada ainda muito cheia de lama e buracos, opunha-se como um dos últimos obstáculos às visitas, e um sofrimento a mais em nós funcionários, vindos de casa com banho tomado e roupas limpas. Para driblar de espirros sujos pelos carros, poeira e às vezes muita lama, eu aguçava ao máximo os olhos em prevenção. Olhando aqui eu devia enxergar metros à frente. Ou então prever encontros a evitar. Os transportes chegaram em forma de tratores, dois, com enormes rodas traseiras. Que puxavam, cada um, carroceria tosca, com tábuas brutas servindo de bancos. Em alguma roça carregavam cana ou estrume. Aquilo nos matava por dentro, dando-nos uma identidade de gado. Nunca vi guardas e outros funcionários alinhados viajando por eles. O que me ficou na lembrança foi só eu e a professorinha. Esse diminutivo com intuito de carinhoso, porque ela era gorda. Um gorda suplantado pela graça e simpatia. Talvez que ela só me quisesse. Nos dias chuvosos, portanto com muita lama, viajar por aqueles transportes não de gente, tendo que ficar atento a espirros de lama, mais um horrível clima de animais que sempre traziam, durante minutos colocava minha alma, como as dos outros também, num fundo de dejeto, entrada e saída de um inferno. Creio que as visitas, mesmo assim, enfrentavam aquilo com um certo resigno. Pois vinham já cansadas de longe, com enormes bolsas de cheirosas comidas e roupas. E caminhar naquele final de estrada, chegava aos limites da exaustão.

 

 

Nota do autor: Escola Professor Carlos Costa, na antiga Penitenciária Dr. Serrano Neves, Bangu III.

Identificação

Nos empurram uma versão semântica descomunhante, cruel.

 

 

Nas manhãs das visitas o mundo prisional aprisionava bem mais. Quase sempre ao chegar à cancela, eu mesmo tinha dúvidas se entraria, se conseguiria passar por tantas barreiras e verificações. Guardas fortes e musculosos davam ordens, conduziam visitas qual bando de perigosas suspeitas. Talvez na índole e percepção, de que bastaria um punhado de maconha entrar numa carceragem para libertar todo mundo, ou mudar a terra da nossa miséria. A verificação uma a uma de quem passava pela cancela, geralmente mulheres, mesmo com toda automação de roletas e códigos demorava, formando eterno suplício quase final. Entrei, com certeza aliviadas pensavam muitas. Acontecia ações de operações bélicas, com guardas conduzindo perigosas inimigas, as visitas. Até meu corpo, de funcionário professor, no meio daquilo tudo de alto controle e repressão, encolhia-me todo, mesmo aparentando alguma soltura. Certos guardas pensavam-me, tinham-me e tratavam-me forte inimigo suspeito. O Espírito de Visita estava também comigo. Muitos presos já eram meus parentais. Lá fora da cancela, na grande fila da entrada e da espera, ares das comunidades formavam gestos de todos os tons e desejos, mas assentados num fundo comum, todas são visitas. E assim a palavra visita adquiria um outro sentido, ainda não dicionarizado, de condenação criminosa. Pondo em nossa Gramática os fossos, as marcas da separação, as cadeias.

Quem Sabe Mais

Com eternas saudades de nós.

 

Aos términos das lições aprisionantes, entrávamos às surpresas em brincadeiras de adivinhações ou acertos. Colocada alguma coisa no quadro, palavra ou frase, parávamos os alunos em olhar aquilo, classificá-lo, dizer o que é. Eu professor, ofertava nossa merenda tão simples como prêmio ao ganhador, ao vencedor da batalha. Às vezes tudo era rápido, uma boca logo sabia; noutras demoravam mais. O grupo, já em pé às quase saída da sala, mas ao redor da mesa do mestre junto ao quadro, esperava o enigma proposto. Qualquer coisa, ou até pequena coisa, nos valia ao teste, ao saber ou ao não-saber. Assim escrevíamos ao quadro e perguntávamos. Quem soubesse e no tiro acertasse ganhava o lanche, bolinho doce mais um refresco. E competíamos alegres, feito meninos em disputa de vencer.

O grande não estava no saber ou em não-saber. Entretidos ao em torno de quase nada, nos rodeávamos como a reviver numa brincadeira infantil. A simplicidade dos nossos gestos nos igualava tanto. O encontro livre e prazeroso o prêmio. As almas talvez nos pedissem aquilo na busca de um voltar. Pelo menos de um ressentir e lembrar. Recitando-nos que aos miúdos pequenos, jamais soubemos por onde iríamos morar por tantas de nossas cadeias.

 

Idades e Prisões – Do Morro e do Asfalto

Notamos em variações de ondas, discussões e opiniões sobre o limite da menoridade dos jovens infratores perante a lei. No fundo, a partir de qual idade alguém é consciente, e assim responsável, de si. De um dos lados, as classes média e alta preocupadas também com os seus filhos. Pois que, esses pais medianos e altos sabem o que tem em casa. Num outro dos lados, ouvimos as vozes de que se fez tem que pagar, não importando a idade. Vemos, neste discurso de culpa e acusação, raízes na Inquisição Medieval. Pensamos também às vezes, de que jogar menores infratores em cadeias fechadas com penalidades de adultos, vai se dar quando fizerem uma saída jurídica lacunar, que coloque em seguros e livramentos de grades os filhos dos ricos. Delimitando a partir das alturas de classes e tesouros, e da falta deles, as inocências e as culpas.

Para nós, a pergunta sempre será esta: em que modelo de sociedade são formados estes jovens infratores; e o que os faz assim, delinquentes sem saída. Pergunta que ao mesmo tempo ignorada, porta a ser respondida. Sabemos, a partir de Foucault*, que a ação do edifício jurídico ( modos de condenar ou absolver ), se dá muito pelo domínio de classe sobre classe. Porém e mesmo assim ainda, esconder ou deixar de pensar sobre o que dissemos aqui, é uma coisa só nossa de Brasil e de mais ninguém; nem de Deus.

E que numa divisão e circulação de riquezas tão mesquinhas como as nossas, as tragédias da justiça são muito mais criminosas.

 

 

Nota do autor: Michel Foucault, filósofo francês. Publicou entre muitos, Vigiar e Punir ( Nascimento da Prisão ).

A Arte Carinhosa de Levar Delícias

Já aludido intensamente em outra crônica, nossa relação com as comidas prisionais sempre foi de um forçado maldoso. Com um espírito ingenuamente guerreiro, ao ver funcionários no refeitório olhando o cardápio do dia com ares de repulsa e nojo, eu os sentia um tanto frágeis ou maricas. Mas não, eles estavam certos. Maquiadas, as vasilhas chegavam com vapores de gostosos sabores; que muitas vezes nos enganavam. As péssimas qualidades vinham depois nas respostas estomacais, e no metabolismo agredido.

Mas o assunto aqui é bem outro sendo ainda comer. Ao percebermos pelas mídias e gentes do povo, preconceitos da ignorância em relação às comidas levadas aos presos pelas visitas, ponho-me numa situação de crítica e ingratas lembranças. Quiséramos nós que as visitas nem precisassem levar, ou, quando muito, um algo de diferente. Mas porém não, pois o alimento nas cadeias, em cores e invólucros de razoáveis almoços, são de um eterno insosso mais os venenos. Então, o que cada visita leva em laboriosos preparos, pratos e temperos, são formas de quebrar penitências injustas com os seus sabores. Que estes, por mais que prendam e reprimam, sempre haverão de chegar, e deliciar quem os espera.

Mensagem Incompreendida – E Só Iluminada ao Cronista 15 Anos Depois por Judith Butler

“Olha professor, teremos todos os cuidados. Em caso de rebelião com reféns da escola, as primeiras prioridades serão, na ordem, das professoras e logo a seguir dos professores. Isto principalmente em relação à proteção, melhores espaços, água e alimentação. Estendido também ao corpo social, que vem trabalhar no cárcere com as nossas vidas”. Eu não tinha autoridade de ouvidor, como uma condição de prestação de contas antecipada. Ainda, porque a voz do preso me veio mais do que como um arauto coletivo, uma ordem estabelecida das coisas. Ouvi tudo e me calei, só assentindo com os olhos e a cabeça. Passou-se tempos e tempos, e aquilo de aviso me matutava, até diluir-se de vez na mistura do caldeirão da vida.

Chegando pela manhã à cancela da entrada principal, o tumulto de carros e gentes nos acessos alertava-nos. No ar das vozes a notícia em primeira mão: Bangu III estava tomada pelos internos, a refrega das muralhas. Guardas, armas, tiros, cachorros de ataque e ensaios de polícias em invasão. No espetáculo externo, do mais medroso ao mais beligerante, todos se queriam heróis. As câmeras e os registros de mídias estavam ali. E os bandidos tinham que perder, a repressão dizia. Um guarda tombou em resistência de luta. Instantes depois da tomada houve um gesto de vida. Constatada a gravidez da professora-refém, esta foi logo liberada. No meio do sufoco do caos eclodira a sensatez. Mas isto, o gesto dos rebelados para com a professora grávida, do lado de fora no mundo do legal nem foi mencionado. Visto sim, um algo ou ação totalmente sem valor. Pois que as forças do Estado, do “Bem”, só visavam dominar, reprimir. E o que é a vida diante disso.

Três dias depois tudo acabou, a cadeia tomada foi entregue à segurança pública. Porém, aonde neles bandidos e polícia terminou, em quem os escreve se renasceu ou continuou. O conceito-verdade de que o Estado protege, já tão ralo em mim, se diluiu de vez. A ficha final caiu. E digo a seguir por quê. Com a total ausência e descaso da nossa Secretaria de Educação aos reféns professores, a primeira voz de professora ao sair, foi dizer-me que o coletivo penitenciário cumprira o falado pelas prioridades humanas na rebelião. Havendo até, em necessidade de momento nos tiros, muralha de corpos de presos a proteger as mulheres.

 

Relembro, escrevendo agora e quinze anos depois, a rebelião na antiga Penitenciária Dr. Serrano Neves Bangu III em Gericinó. A intenção aqui é só dizer para nós o principal. Em tudo, o que me fez lembrá-la, a rebelião, foi uma inversão de dados de realidade. Melhor, um ver além do universo mentiroso ideológico estabelecido. Assim, no desenrolar da mencionada rebelião, enquanto pelo lado de fora, o da lei, só partiam tiros, ações e estratégias de dominação e repressão, sem ao menos tênue fingimento de tez humana; já do lado de dentro, o dos internos e delinquentes bandidos, mesmo com toda guerra e o sítio total que eles enfrentavam, ordens e ações de proteção a vidas humanas se pautavam, como comprovadamente aconteceu e acima relatado. Pondo-nos agora em olhares contrários. De onde antes esperávamos proteção, hoje e sempre ficarmos o mais que pudermos em desconfios e protegidos dele, o Estado-República e sua “Democracia”.

Fim – Modo de Matar a Representação da Vontade

Em repente sem que eu soubesse ainda por que, na cadeia toda os presos entoaram ladainha em música e recitos ao misturo. Aquilo parava-me todo; com alma buscando sentir o mais que pudesse. Voava um certo tom de guerra, de enfrentamento, nas vozes entoadas. Por mim, me indagava como podiam fazer tão certinho, sem a mínima folga de ensaios em conjunto. Presos às celas, tudo dificultava tudo. Mas o alto coro saía na cadeia inteira, de vez em quando às tardinhas.

Até que um dia me clarearam. O coro era o grito da festa quando um preso saía, ganhava o mundo. Passei então a esperá-lo, num aguardo inconsciente. Ao começar a escutá-lo fazendo o que fosse eu parava. Mais do que entender a letra, buscava ligar-me ao mistério mágico, que o canto alegre lançava ao redor. Momento de passagem intenso, à Liberdade

O tempo depois passou sem mais nada do coro. Indaguei oportuno o porquê. Ao que interno nos explicou. Toda vez que a cadeia cantava por mais uma Liberdade, quem saía das grades logo morria. Lógico então, que ouvidos secretos inimigos avisavam alguém de fora para executar. Quem saía, saía para morrer. E por isso, em segurança e precaução, a cantoria acabou.

Chegamos à nossa hipótese de conclusão. As mortes, logo depois do preso alcançar a rua, tiveram por objeto estancar e matar o procedimento ritual. Sabemos, já isto em outra crônica, que pessoas e grupos se comunham e se firmam pelos rituais. Sabemos também, que existem mecanismos de vigia e controle do poder, com o fim único de manter subjugada ou destruir toda e qualquer busca ou tentativa de possível comunhão, especialmente nascida do seio do povo. E que em nossa certeza, a morte do ritual na cadeia foi um desses fins.