Brazilianas

Todos os meus textos se resumem em alcançar muralhas. Identificando-as, e se possível for, objetivo sublime de toda minha vida de preso, ultrapassá-las ou destruí-las. As internas e as externas. Sendo certamente as primeiras as mais terríveis, por tão solidificadas às vezes que são ou estão. Existe algo pior que a cadeia, são as autocadeias. As que no decorrer da vida foram nascendo ou sendo instituídas para dentro de nós. Existem reforços e manutenção delas via coisas e aparatos sutis ou aparentemente tão inofensivos. As mídias, comumente quando centradas nos acontecimentos diários sobre violência, realizam e mantêm esses reforços, introjetando na população culpa e condenação.

Com o inchaço cada vez mais desmesurado, e ainda em acontecimento, do Complexo Penitenciário Brasileiro, houve mudanças ou o acirramento da culpa e da condenação no discurso e ação das polícias. Em nossa juventude como já escrito, pegamos a fase da polícia reprimindo e dando como vadio e assim imprestável e perigoso, todo e qualquer jovem de periferia visto na rua, sem uma atividade legal visível ou comprovação documentada de estar empregado; o tempo da vadiagem. Aparentemente desaparecido, este tempo na verdade recrudesceu; melhor, se desdobrou em outras coisas. Em áreas periféricas bem marcadas, notadamente favelas e bairros pobres, a juventude vive num constante mundo acuada pela polícia, e sendo tratada quase sempre antecipadamente como já bandida. Vestimentas e cores da cultura local, mais a estética do corpo, um cabelo louro numa pessoa negra por exemplo, servem como indícios de alta suspeição e provas. Na minha juventude, os homens da lei numa blitz, desconfiaram muito da barba grande que então eu garbosamente ostentava. Sem que se dissesse um não, o nome favelado foi adquirindo em nosso meio social significado cada vez mais negativo. E esse negativo na sua mais baixa acepção desumana. Existiu uma frase tão em voga, mas que cumpriu seu papel histórico denegridor: você não mora, você se esconde.

O tempo do calendário escolar aumentou. Antes, os jovens e as crianças dispunham de quatro meses de férias escolares anuais; três no verão, de dezembro a fevereiro, com aulas em março, mais o mês de julho. Agora, férias só no mês de janeiro mais a metade de julho. A idade mínima para ingresso na escola, que antes estava nos sete anos, baixou para até três. A criança e o jovem perderam muito dos seus mundos livres de formação. Tínhamos anteriormente às vezes saudade da escola, quando hoje ela satura, alunos e professores.

A autoridade da polícia brasileira para matar, aumenta cada vez mais, inclusive velhos e crianças.

A palavra obediência em nosso meio social, que já se encontrava afixada à educação, isto é, é educado quem é obediente, se afinou ainda mais, tornando-se uma da outra, educação e obediência, sinônimas. Errar afixou-se a pecado e este à alta culpa. E com isto, o direito ao Céu ou ao Inferno subordinados ao movimento das mãos e da cabeça no decorrer do dia. A religião tornando-se ideologia de dominação.

Sociais

Muitos de nós não temos nem facção. Mentirosamente lá fora, na rua, circula que somos só uns amontoados de bichos. Mas não. Cada cadeia possui seus modos, preconceitos e preceitos morais, formas de vida grupal. Ainda assim, com mais ou menos nuances de diferenças por celas, alas, galerias e comarcas. Os corpos e as almas definem, no decorrer da vida e das relações. O que pode existir e realmente existe, é um pano de fundo, um alicerce, uma base, de acordo com a facção ou grupo e suas normas e estatutos. Por incrível ou impossível que possa parecer aos olhos de fora, nalguns ou muitos lances somos mais organizados que eles. Isto porque no fim, pelo menos os sensatos e nós aqui os temos, queremos e lutamos pelo nosso bem. Ainda, como em qualquer lugar, as ordens e os hábitos grupais e individuais são facilitadores das e nas rotinas. Um campo geral que nos ajuda e nos mantém. Somos vidas. O irradio desse campo nos espaços entre nós, auxilia quem chega nas grades e fica mal; funciona como um remédio pelo ar, pelas bocas e olhares. Nessa etapa de inferno que é uma e qualquer cadeia, todos nós queremos sair dela vivos. Quem pensa do povo que nunca viverá por aqui, em uma cadeia, pode estar redondamente enganado. O futuro só o Destino sabe. Ou, como no dito, a Deus pertence.

Mas como dissemos lá no início, muitos de nós não temos nem facção. E soltamos agora por quê. Cada unidade prisional possui seu seguro. Ou seja, um lugar separado em que ficam, geralmente por solicitação do necessitado, os presos rejeitados ou que correm algum perigo de vida, por quebra ou desajuste nas normas por onde estão. Não se adequaram ao meio coletivo, dito por assim dizer, normal de uma cadeia.

Conheci prisão só de seguro. Unidade com coletivo ressegurado de pessoas vindas de seguros de outras cadeias. Assim, seguro já de seguro, desajustados duas vezes. Nomeados aqui fora de “Povo de Israel” pela situação de exílio, expatriados, nunca li uma nota de jornal sobre eles, pelo menos o nome sequer. Talvez jamais descobertos, e assim nunca vistos.

Pelas Manhãs a Lira

Alguns de nós sabemos ler e escrever, só que quase nunca podemos nos mostrar. Num certo tempo já de renascimento tardio por dentro das grades, algo vindo daquele meio-escuro aos meus olhos já clareavam. E por mim talvez já estivesse mais atento. Quem sabe até um pouco mais sábio ensinado por eles. Fugindo então e negando todo o acadêmico escolarizado e imposto introjetado à alma, eu buscava alguma literatura por ali, vinda dos corações e mãos dos meus amigos ou de quem viesse. Hoje, tenho uma certa consciência, de que minha figura de professor tenha espantado coisas boas. Pois que alguém interno, gradeado, certamente quis mostrar-me rabiscos, poesias ou quem sabe uma história valiosa. Mas a aura de sapiência superior, criada pelos outros ou imposta pelo próprio mestre espanta e até mata, sendo esta última sua honrosa função. Coisa que sempre eu evitava produzir, sendo bem certo em momentos impossível, inevitável.

Num outro tempo adiante, nos meios escolares das prisões mostravam-me redações. Estas, geralmente participantes e ganhadoras de concursos promovidos por órgãos oficiais. Nas redações duas vertentes ou linhas de raciocínio meus olhos encontravam. Não obrigatoriamente juntas, mas quase sempre em produções textuais diferentes. Uma vertente, maior e mais presente, mesclada com doses fortes de sentimento de culpa do autor, era servil, aquiescente, buscando uma conformidade o mais encaixada possível com a fôrma e o poder da ideologia do Estado, da república; me produzindo por dentro um forte sentimento de ojeriza e  nojo. Ojeriza e nojo certamente pela servidão voluntária da alma que a escreveu. Ou quem sabe, aquilo ser uma original trama de fuga de quem a compôs. Antes porque todos de nós queremos sair de lá, fugir. Havia muito de uma amostragem nos textos, de sabedoria ou aprendizado escolares. Seguindo, a outra vertente vinha com desconexões de frases por vezes impossíveis de entender; e nalguns momentos com esboços ou tentativas de encaixes lógicos. Nesses e em todos os sentidos, as frases que escrevemos sempre nos mostram ao mundo por dentro; e nessa vertente citada os distúrbios da nossa alma.

Desculpando alguma digressão voltemos. Mais do que as redações visíveis e ou invisíveis, existia e existe por lá nas grades a vontade de dizer, de escrever. E isto, esta vontade, bem mais que os escritos, era o que eu buscava não só ver, mas na felicidade degustar, viver. Encontrei barreiras descomunais quanto a isto. Sendo a que mais se pôs, porém talvez a não mais perigosa, os concursos de redação. Que na base são isso: “olha gente, nós permitimos a eles, os presos, escreverem, fomentando a literatura!” Porém, o que de mais duro e perverso havia, era e é algo que eu também trazia, isto é, levava para os internos no meu corpo: uma certa proibição altamente muda e invisível, nascida nos bancos escolares, ou pelo menos semeada neles.

Profundo, mais do que me incomodou em todo meu aprendizado e vida de leitura, foi uma ausência de identidade, de identificação. Havia e há uma altura, uma ladeira inacessível, proibida, entre eu leitor e os mundos dos textos que me batiam aos olhos. Fossos e distâncias. Pobre por aqui não sabe ler nem escrever. À esta máxima nossas mãos se contrapõem, sempre. E assim a Sorte e o Destino me presentearam por dentro das grades. Um poeta jovem e extremado me apareceu. Ao amanhecer e abertura da escola, vinha-me ele com folhas abertas, feliz e pronto a recitar. Mais do que o escrito lido ficou-me seus gestos, sua postura. Certamente a solidão de sua cela na madrugada, em alma de liberdade por outros mundos. Que logo depois seu rosto de pura beleza me oferecia, me declamava. Objeto amado do qual jamais esquecerei.

Publicar Publicar… Primeiro Filho, Certeiro

A escrita prisioneira teve os seus lá foras. Garimpando encadernação rápida e barata, andávamos cansativo e meio a esmo. Que para registrar nossa primeira publicação, a Biblioteca Nacional a exigia em volume com capa dura. Assim, a intuição nos levava a prédios velhos do Rio Antigo, próximos ao Largo de São Francisco e à Praça Tiradentes. Até que finalmente a encontramos. Aquele tipo de oficina em desaparecimento mas ainda tão útil, de vários consertos e produções manuais. A escada lúgubre do século anterior nos conduziu a um alto e meio escuro andar. Na falta de luminosidade não vi bem, mas vários operários trabalhavam sobre bancadas mexendo coisas. Pesquisada a encadernação de Outras Cadeias acertamos o preço e a hora, voltaríamos duas horas depois. Esgotado o tempo de espera fomos afinal pegar o embrião. Para nossa surpresa, o grupo de operários da oficina veio que respeitoso e admirativo ver, saber quem o autor era, seu rosto, seu olhar, seu modo de ser. O grupo, as mãos que manipularam as páginas encadernando-as, leram algumas coisas delas, os murmúrios nos passavam isso. E tudo enfim como se aquilo, uma breve história sobre Bangu III, fosse e era para eles uma voz proibida e negada, porém intensamente bem vinda por ansiantes esperas. Desejada.

Feito o certidão de registro na Biblioteca Nacional, corríamos inseguro e sem muito saber sobre impressões e gráficas. Uma tarde escolhemos aonde ir por um livro que nos agradou e anotamos o endereço. Chegado dias depois ao anotado, entramos por imenso corredor até o escritório. Sim, disse-nos quem logo nos pareceu o dono, Outras Cadeias poderia ser impresso ali. Feitos os prévios, olhares e conclusões, acertamos o preço e lá fomos nós. O embrião já de capa vermelha entraria às máquinas e nos sairia multiplicado por mil. Passados alguns dias já antes em acerto, olhos ansiantes de graça como a se ver o primeiro filho, foram verificar umas provas. Sem delongas autorizamos rodar, que o caminho do depois em história de livro publicado, nos punha em angústia de pressa. Nesta entrevista das provas, o chefe da oficina das impressões estava lá, junto de nós. Lembro vagamente que veio mais um operário com ele. Pessoas com corpo e alma de comunidade, trataram-nos o tempo todo como um escritor querido e admirado. A voz escrita do livro fora ouvida por suas almas, por isso elas estavam ali.

Tudo concluído e à mão, com os mil exemplares empilhados em casa, resolvemos por bem e aos receios e segurança de alguma inveja odienta, que poderiam em fofocas espalhar patrocínio de facção, exigir uma nota fiscal de serviços gráficos em nosso nome. A transferência de valores da conta bancária serviria-nos de suporte e prova. O serviço já estava pago. Feito o pedido da nota e chegando ao escritório da gráfica, para nosso desencanto e surpresa fomos tratados como um ser altamente indesejável e perigoso. Sem que nos permitisse entrar e sentar como houvera antes, o burguês dono da gráfica com olhos faiscantes de muitos ódios, passou-nos às mãos um tosco e mal escrito recibo, como se essas mãos que o pegavam fossem de um sujo e repugnante ser.

Absorvidas as dores da agressão sofrida, nossa mira de alma nos avisou o certeiro do livro como um tiro bem dado, bem acertado. Que o furor inesperado do proprietário da gráfica, ao simultâneo da graça e admiração dos trabalhadores pelo Outras Cadeias, nos situaram os olhos e as mãos. Era a voz que precisava de sair, pelo menos num começar.

Medos e Movimentos

O coletivo mudou, disse-me o guarda, agora não é mais Vermelho*. Bateu o cadeado às minhas costas deixando-me sozinho preso e se foi. A grande ala estava morta, nem um pio sequer. Só penumbra no ar, como alma assustadora em espera. Os passos quiseram e fui. Deslocado, eu entrava como em outra casa sendo a mesma. Agora havia um desconhecido à frente. Deparei com galerias vazias. Todos os presos recolhidos às celas, num certo mutismo assustador. Lembrei-me num cemitério. Aonde está a vida, o coração palpitava, e perguntava. Sem ninguém visível, afugentei o mal-estar pelo meu grito: “coletivo! Escola!” Em altos brados à galeria. Ninguém. Insistente fui passando às outras. Nem um rato corria assustado. No fundo da ala, já na escola, tentei fazer algo, arrumar papéis, ao menos fumar; nada consegui. Um mundo se perdeu e eu tentava resgatá-lo. Bem antes, ainda no choque da entrada, endireitara-me ao corpo e me recompusera. Mesmo sem os amigos vermelhos de sempre a vida seguia.

Repeti-me no dia seguinte. Galeria por galeria fui chamando e nada. Pistas vazias. Na quase última pequeno grupo ao fundo. Chamei chamei e não quiseram chegar. Por mais que eu gritasse professor e escola, só olhavam, sem responder. Descobri um próximo e estendi-lhe a mão. Eu era só um professor, ele podia chegar, disse. Meio arredio ainda, e distante, o preso cumprimentou-me. Porém logo repreendido pelos demais ao fundo.Que ele cumprimentava o inimigo, disseram. E assim não passamos desse único momento. Dias depois foram todos transferidos. E a vida jogou-me em outras prisões à espera.

Na Sá Carvalho* tempos depois, aluno corpulento, bem malhado, contava-nos em aula desejos e histórias de guerrilhas, selvas e fronteiras. Sua próxima empreitada logo após sair em liberdade, seria perder-se nas matas e pantanais de Mato Grosso e lutar; pulsava por heroísmos. Na contra-dança da fala narrei-lhe o acontecido no III*. Quando estando lá o Terceiro Comando, por mais que eu chamasse nas galerias ninguém respondia. Eu estava lá professor, clareou-me ele, não saíamos das celas nem atendíamos ninguém, com medo do inimigo Vermelho. Também não dormíamos à noite, continuou, pois poderiam vir a qualquer hora possuindo as chaves dos cadeados, e degolar-nos todos. Que mesmo já ao dia, minha voz de professor podia também ser isca.

Mas aquilo de proximidades de facções diferentes e inimigas numa mesma unidade prisional, podia ser um jogo perverso e era. Que eu, e pensávamos em todos nós, jamais nos deixássemos cair. Ao escolher o preso como grupo social de aproximação e vida, sabíamos que o Grande Mal está fora de todas as cadeias. Entrar na Dr. Serrano Neves e encontrar aquele vazio, e não as mãos e rostos amigos de todos os dias e esperas, deixou-me momentâneo sem chão porém nunca sem vontade. Pareceu-me armadilha. E a ala B vermelha era um front aguerrido e forte. Soldado às vezes solitário, nossas pernas continuaram caminhando e de olhos atentos, até encontrarmos uma nova e favorável posição de tiro e de luta. O Complexo de Gericinó, campo de eternas batalhas, nos esperava sempre.

 

 

Notas do autor:

Vermelho, Comando Vermelho. III, Bangu III. Sá Carvalho, unidade prisional Plácido Sá Carvalho.

O Documentário

As imagens me faziam mal. O título sim, me atraíra antes: “Cartas Para Um Ladrão de Livros”; com dois feitiços, livro e ladrão. No catálogo do festival, assim eu não podia perdê-lo.

“Sou gay tá professor”, disse-me na ordem da facção logo no início, naquela manhã quase sem aulas na Muniz Sodré. Não houve avisos nem apresentar, chegou e se pôs. O coletivo amigo já lhe dissera eu. A conversinha fluindo. No seio, ele que só falava, qual depoimento criminal; e era. No fundo, profunda revolta de réu no tribunal; em que a justiça passa, mas só com lacunas. Assim então eu o ouvia. Começou com pequenas revistas antigas mas de grande valor. Olhou na biblioteca pública e elas estavam lá, esquecidas, como se a esperá-lo. Pegou-as e saiu, a segurança não se importou, nem viu. Transformadas logo em dinheiro seguiu em frente e continuou. Cresceu. Já tinha então comércio pronto à espera no negócio dos livros. Assim, só trabalhar e passar adiante, com dinheiro vivo na volta. O mundo das artes dando-lhe muitos lucros. O veio do descaso público lhe facilitava agir, não havia muito ligar. Seu tino periculoso foi descobrir esse veio, e chegar por ele ao grande filão. E o negócio então se avolumou, ele já garimpador de quem tudo receptava. Sócios. Na ordem prisões e processos. Histórias. Porém o que não concordava, me contava o interno ali, era de quem negociava com ele, ninguém fora preso arrolado em penais; mesmo que ditos e identificados porque enumerados. Só ele puxando nas grades e pronto.

Falou-me da luta pelo bem-estar da mãe, por um teto que lhe desse abrigo.

Na poltrona do Odeon meu desarranjo de alma por dentro. Aos poucos os sentidos de que já vira tal filme, crescendo. Mas a falta de encaixe do onde ou em quê, desconsertava. Obrigado agora a assistir, fui vendo a história, deixando o olho receber. Despertei na paisagem visual. A vida na tela se apresentou sem aviso, no contínuo do desenrolar. Fez da Cinelândia Gericinó, na grade da Muniz Sodré. O documentado preso já conversara comigo. Clareou-me no cinema coisas que não me dissera em cadeia. Porém o básico da sua revolta, de incluir também seus ricos compradores nos processos mas em vão, veio inteiro nas duas versões, na tela e no real. Nisto eu já era do filme, alguém que reencontrava um parceiro de cadeia na liberdade, só que em pura imagem.

Perto do fim, o depoimento hipócrita do delegado federal, fingindo revolta pelo impedido social de prender os sócios de Laéssio, deu-me nojos de alma na poltrona.

Logo após a sessão houve debate com os diretores. Nos pomos assim a conhecer-nos. Eu professor já ouvidor da história, e eles, os realizadores. Que disseram para nós a tentativa impedida, de mostrar nos finais da fita os nomes dos compradores do ladrão de livros, a parte patrão do negócio. Receberam pela tentativa, disseram-nos os dois diretores, ameaças de processos e mais. Ou seja, a porta que não se pode abrir; só falsamente como agora, nos dias que escrevemos.

 

 

Notas do autor:

O documentário “Cartas Para Um Ladrão De Livros”, foi exibido no Festival de Cinema do Rio de Janeiro de 2017. Tendo como protagonista Laéssio de Oliveira, o “ladrão de livros”.

Recentemente, em 04/12/18, o jornal O Globo publicou em destaque no segundo caderno, um pouco da história de Laéssio.

No Segredo

Num canto de muralha interna entre cadeias, em nosso caminho obrigatório de entrada e saída já próximo da portaria, passávamos em frente do castigo, lugar pior do que o costumeiro das celas. Era, e certamente ainda é, pequena construção de laje grudada à muralha e num lugar de sol inclemente. Que talvez para economizar gastos, usavam o calor da natureza para castigar ainda mais. Pequena grade de visualização dava para o espaço externo. Geralmente os presos castigados se grudavam nela, num jeito de ver um pouco do mundo. Isto, principalmente quando passávamos nós professores e as professoras. Que ao ver-nos, as esperanças de liberdade lhes cresciam.

Por uma tarde ensolarada na passagem de saída, alguém do castigo gritou meu nome. Como apesar das muralhas as cadeias se interligam, olhei na direção do chamado surpreso, quem seria. Sem preâmbulos o preso desconhecido transmitiu-me respeitoso, desculpas de outro preso em cadeia distante. “Pedro* da Frei Caneca mandou lhe dizer que tá tudo resolvido tá?” Respondi sem nada pensar num “tranquilo” repetido, e em rápido ok de mão pelo polegar afirmativo. Dois dias depois a mesma fala do castigo em confirmação, num alto respeito ou medo. Mais efusivo e consciente reafirmei meu aceite e compreensão. Mas eu não conhecia Pedro, e isso me pôs num segredo.

À história agora, temos um anterior. No passe e repasse do livro nosso “Outras Cadeias a Cadeia”, colocávamos ao costume e carinho nosso autógrafo, este acompanhado do agradecimento do autor. Um volume autografado foi para uma psicóloga amiga e querida nossa. Certo por um comentário de outro alguém ou referência dela mesma, a história do “Outras Cadeias” chegou aos ouvidos do seu namorado, este um preso do então Complexo Penitenciário da Frei Caneca. Pedido por ele o livro emprestado, nossa amiga psicóloga arrancou a página da dedicatória autografada. Escrevo muito fundo, quase às vezes perfurando a folha com a ponta da caneta. Este fundo já sendo um dado psíquico. Retornemos. Emprestado o livro, a periculosidade amorosa se indagou sozinha da folha arrancada, o porquê daquilo. Assim, num sistema inteligente que desconheço, ele fez nossa letra bem legível aparecer nos sulcos da página seguinte, a que estivera sob o peso da escrita dedicatória. Tudo se lhe mostrou aos olhos. Aquela mensagem o ciúme lhe insuflou. Podia ser e era uma mensagem de amor. Creio que se bateu em ódio por paredes e grades. Noites insones de puro desassossego infernal de macho. Ele ali, e ela toda prazerosa com outro lá fora. Havia então que desenrolar com esse autor. Bolou incontido convite raivoso de me conhecer e o enviou, vindo pela própria boca da namorada assustada. Ouvido o clamor bandido dissemos que sim, que iríamos lá na tal cadeia desenrolar. O raciocínio alertou-me que avisasse os meus amigos do crime. Aonde iríamos e o que faríamos. Precaução bandida e sincera por mim. Houve uns dias de total silêncio, até aquelas tardes da mensagem de paz do amante arrependido. Logo depois a leitora e namorada se houve comigo em perdão. E tudo assim se foi. Só que ficando eterna na alma de quem os escreve, uma ação estrangeira secreta mas entendida, de que alguém poderoso e amigo interferiu. Pondo-me a salvo e protegido de qualquer suspeita odiosa de um amante aprisionado. E livre talvez de um crime passional.

 

 

Nota do autor: Pedro, nome fictício na crônica.

Dia de Morte

Descomunal seguro de vida eram meus grandes amigos do crime. Esta a lição que mais eu soube aprender e usufruir para sair ileso. Nas cadeias há um meio caos desestabilizador. Os sinais da verdade em contrários e até ofuscantes. Vamos ao caso. Na portaria, o guarda mesmo que de longe já vinha despejando ódios. Todos sentimos um encolher de corpo; as duas professoras, eu, e até o outro guarda das chaves. O homem chegava mortal. Olhos de puro terror. Exigiu raivoso carteirinha nossa de professores de cadeia, como se nunca nos conhecesse, mesmo com toda identificação visual de trabalho anterior já longa. Era só uma deixa. E pôs-se a assustar as professoras. Num bote de onça virou-se agressivo, e disse que tão logo eu estaria morto com a boca em formigas. Esbocei pequena reação de espanto. As professoras, mais assustadas ainda, arrastaram-me amáveis para fora da cadeia. E o guarda junto, ameaçador. Saímos de carro porque eu na carona também fui. A cobra raivosa por lá mesmo ficou.

Logo depois, sozinho ainda na rua a voltar para casa, levemente atônito eu buscava uma linha. Aquilo de alma que temos do campo da intuição. O atônito não abrandava. Sinais leves de socorro apareciam por dentro, sem que eu lhes buscasse de imediato o auxílio. Eram por enquanto só um leve conforto. Caso precisasse eles seriam. Já nos hábitos comuns de casa silencioso em conversa interna, eu ia andando. A estrada do dia não parecia tão perigosa, mas que me alertasse feito em confronto mortal, dizia-me meu aparato de prevenção. Talvez que uma certa tranquilidade crescesse, por uma resolução já tomada. Medo do dia seguinte não me veio. E o mundo girava. A sentença da morte por dentro, caminhando. As relações com meus amigos do crime em alto apreço, de vida ou de morte. Incontinente o telefone tocou e eu atendi. O guarda ameaçador por voz suave se retratava. Sem choque de alívio pois já estava resolvido anterior em mim, entrei com palavras também de paz.

Desligado o telefone, refleti por dentro a assentar-me as águas da alma. O que acontecera. O discurso da fama viera ao meu socorro. A este fim foi o que a reflexão me pôs. Amigos perigosos do professor, do crime, saberiam, pondo a vida do guarda da morte na linha certeira de tiro. A lógica do discurso na fofoca do medo nos salvara, de um desdobre trágico iminente.

Missa Perigosa

Convidaram-me à reza na carceragem. Gesto santo veio da boca que a encomendara. Com padre e tudo, disse-me. E que eu não faltasse, ainda pediu resoluto o parceiro. Data e horas marcadas, ouviu-se sinais e climas de honrarias e espíritos em transporte. Deus invadira a prisão.

Em alinho de roupas libertei-me dos hábitos escolares e fui. No grande pátio interno junto à ala, cadeiras arrumadas acomodavam fiéis já contritos, em submissos de oração e louvor. Ao me verem chegar nas barras da grade, comoveram-se os presos em saudosa vista de comunhão e apreço, suas graças de alma queriam-me também com eles, em corpos e vidas irmanados. Puseram-se logo alguns, preocupados e solícitos, aos clamores do funcionário* para que mais um entrasse na improvisada igreja. Aberto os ferros e batido o cadeado atrás de mim em fechamento, saudei-me religioso com meus irmãos de cela e de vida. Educados e prazerosos arranjaram-me cadeira num ponto privilegiado e central.

Na liberdade pelo amém final, nos desmanchamos logo em palavreados soltos do informal. Como em qualquer igreja, nos livrando do amarrado do culto. Íamos assim para lá e para cá às amenidades. No movimento e intenção de cumprimentar o padre e bulir algo com o parceiro que encomendara as bênçãos, notei sentidos de intenso alerta. As auxiliares do homem de Deus, duas mulheres, estavam às guardas e medos à minha pessoa. Suas auras de segurança diziam, não queriam-me junto delas e da batina sagrada, no participe do burburinho de adulação que religiosamente se formara. Na sutileza de teste, dei passos na direção de uma das mulheres; ela, também sutil, ensaiou repulsas e fugas sinalizando. Grato por tudo, despedi-me e fui embora.

Já em outra grade, na minha, comecei a refletir em risos sobre as caras femininas na missa. Chegando eu lá limpo e arrumado, tênis vermelho, vindo não se sabe de qual cela dali; mais e tudo, ansiosamente esperado e bem recebido, não havia dúvidas: eu era um dos líderes do crime. Portanto, todo cuidado na certa fosse pouco. Ali, num segundo de mundo tudo pode virar. Pois estávamos numa afamada cadeia, Bangu III, em ermos de guerra. Onde sair com vida podia ser custoso, ou ainda muito incerto.

 

 

Nota do autor: seu funcionário, nome como é chamado qualquer guarda de cadeia pelos internos.