Filme Brasileiro – Um Longa Metragem

Observamos anos recentes grandes manchetes sobre as prisões, os jornais diziam. Percebíamos em expectativas que viria algo ao preparo e não sabíamos o quê; este ingenuamente pensado por positivo. Ou seja, de que haveria um estancar e diminuição dos cárceres nacionais. Mas não, o que estamos constatando é um avanço, pois o início já aconteceu, de uma indústria de entretenimento com foco único nas grades e, claro, todos os que nelas estão. As mídias, as produtoras de imagem e cinema as grandes inventoras; na ordem as abocanhas dos lucros.

Na segunda metade do século XIX, jornais do Rio* já destacavam crônicas sobre crimes e delinquências, com todos os seus componentes. Havia um público numeroso de leitores, a óbvia conclusão que se tem. Nisto, alguém já até nos lembrou, a desgraça alheia é sempre prato saboroso por aqui. Assim por então, voltando ao passado, rastros e obras de estudos criminais eram citados e referidos, as bases científicas da época. Ao que Lombroso em alta, com a certeza dos seus tipos-bandidos.

Já no século XX em nossa hipótese, houve um grande salto a partir do caso “Fera da Penha” nos anos cinquenta. A seguir passando por Tião Medonho, Cara de Cavalo, e chegando a um certo ápice em Lúcio Flávio mais Bandido da luz Vermelha. Na passagem do XX ao XXI retomou-se, já numa fase avançada e firme, com Pixote, Carandiru, Cidade de Deus, Tropa de Elite e seus desdobramentos. Mas nessa fase sim, alcançando bilheterias milionárias e um forte impacto. E este, o impacto, fomentando opiniões, discussões e imaginários úteis ao poder.

Então o mundo das prisões brasileiras, tornou-se um vasto social cobiçado e explorado pelas fábricas do entretenimento nacional e, quem sabe, mundial. Cada preso ou presa e seus familiares, as personagens reais dessa nossa História de Infernos. Mas para tornar tudo tão digerível, as mãos e cabeças idealizadoras põem o invólucro infalível do aceitável. E este com a superfície doce de social humanamente ideologizado. É só pagar e entreter-se. Fim.

 

 

Nota do autor: Rio*, Rio de Janeiro, por então capital do Império e depois da República.

 

Uma Síntese: Não Saber Escrever – A Prisão da Escrita ou A Escrita da Prisão – O Inconsciente

Quando a professora pedia tentávamos o aceitável. Mais, aquele que nos desse o melhor elogio com a nota maior. Uma frase bonita vasculhávamos em nossa mente, mexendo com os pauzinhos das lembranças por montagens de palavras e adjetivos doces. Não víamos nada de nós mesmos. Na realidade não nos enxergávamos via papel na tessitura da nossa própria letra. Buscávamos agradar a ela, que nos dirigia e amoldava. Ganhei dez, o sonho de cada infância a levar para casa. Casa que já nos esperava sempre assim, com uma inteligência nota alta.

Ao muito eu nem aparecia por nunca conseguir. A mão não aprendia do começar. Mesmo sugerido o que e como dizer, ficava difícil. A primeira palavra, a frase de início, eram cegueiras totais. A renitência da mão não escrevia, se negava, por mesmo e antes não saber, não enxergar. O permitido estava à frente, condicionante. A cabeça não andava. Começo meio e fim, dizia a mestra e todas as vozes ensinantes. Nada mais. Escrever é dizer o que se pensa, tentem ser verdadeiros. Mas a verdade não era minha, não era a minha. Como então dizê-la. Minha própria cegueira tentava me esclarecer nisto, porém eu ainda não me enxergava. A rejeição teimosa que me blindava do fora, nunca assimilando, me protegia.

Dizer a nossa dor, eis enfim então algo. No passe e repasse da boca e da mente conseguir por saber escolher. O que nunca me disseram como; na imposição sutil do melhor e do mais aprender, mais saber. Assim é que se escreve me dizia alguém, na letra certa do dicionário, na palavra enxuta, por frases certinhas em perfeituras de ligações. Verbos conjunções e afins. Na harmonia das concordâncias úteis, dóceis e submissas. No estranho daquilo que não é meu, porque não sou eu, mentindo-me com a letra que ensinavam-me. Que no discernimento eu nunca a soube elaborar.

 


 

Nota do autor: hoje descobri porque alguns nunca aprendem. Talvez nalguma resistência subjacente e ao mesmo tempo visível.

Ela com Eles

Barulhão de presos invadiu-nos à aula pondo-nos ao alerta. Olhando às grades da janela, no centro de média plateia rala e disfarçada dois discutiam ferozes. Grupo de guardas conversavam próximo, sem intrometer. Aos climas de rinha quase de luta, nas bocas alto volume acontecia, vibrava. Sem nada saber aos quadros e cadernos voltamos. De pouco, num passe, interno-fofoca nos partilhou o segredo. Flagrados pelo marido traído, fornicavam dois, um deles mulher, pelos panos sujos da comarca discreta. Descerraram cortinas aos lados e pimba, entrelaçados num gozo só. “Eu estava precisando,” desculpou-se em ato boca do ativo comedor.

Discussão pública, agora toda a cadeia já sabia. No pátio, frente a frente, os contendores no desacerto de usos e comidas de um corpo só. Posses. O que de um pertencera ao outro, sem empréstimos e aos secretos, nos fluídos incontidos das necessidades. Qual ave perdida, o objeto da disputa ia e vinha sem parar, sem lugar. Nenhum apoio de quem quer que fosse. Ali ele era um tudo e ao mesmo tempo um nada. Porcamente nomeado.

Entramos na tragédia gay. Sem ter mesmo aonde se meter, talvez até sem comarca, o pivô da discórdia vista nos procurou à escola, queria ele muito estudar. Quase nada nos disse ou dizia. Buscava um fio de apoio e de voz. Mas nosso preconceito o repelia, o rejeitava. Nenhuma das sábias mãos assim se projetou. Ele ou ela, iniciei a perguntas em tons de pilhérias; masculino ou feminino, por sarcasmos de falsa dúvida. Rapazinho branco miúdo e indefeso, tudo ali na Educação também o condenava; o evitavam naquele universo machista. Vendo-se assim, levantou e se foi. Sumiu. Para sempre entre grades e dores.

Quase Tabu

Quando vou escrever sobre sexo, pergunto-me eu. Talvez modos a enganar postergando. Meu corpo também é sexo. E os corpos-desejos estão lá nas grades, esperando a serem narrados, vistos. Nos anos 50/60 e até antes e depois, havia corrente de estupros homem virando mulher. Nas delegacias em acontecer. Deixasse rolar. Mais do que preso, a moral, a vida, entravam em guilhotina. Dos cubículos as grandezas dos fatos ecoavam-se aos foras pelas bocas; horrorosa face do corte da lâmina, do cadafalso sempre pronto, reforçado pelo nosso machismo. Os mais fortes comendo os mais fracos. Era entrar, ser gostado por quem e perder. Ao dia seguinte preferível a morte. A cultura barrela.

Até alguém chegar diante do professor levaram-se anos. Nesse caso obrigados pela facção. Se sou, primeiro sempre dizer que sou gay, ordenavam. Aconteciam afetos entre nós, sem a aura avisante repressora do que éramos, do que somos. Nisto certamente uma grande vantagem. Um homem deve lembrar-se de outro homem, encher-se de saudades.

Nas grades das prisões recebi intensos, aos encantos que se dão. São linhas agora de um afeto retorno. De almas em além. De amores e amores.

Sexus Internus

A guarda bateu o cadeado à minha saída da escola e sumiu; alojando-se num cafofo de grade qualquer. No reflexo de segurança inicial, os olhos do professor varreram o chão da grande ala. Enfrentar as bocas de cela dos dois lados até à segurança da saída, nos contaminava de um certo medo do imprevisto; qual um paraquedista veterano sempre ao primeiro salto. Não havia quase barulho. Talvez as presas dormitassem, mãos ao tricô e costuras, ou mesmo em afazeres até domésticos de casa, de mãe e de mulher. Mesmo ali, cada saia com os seus lares, sua vida. A pista enfim parecia deserta. Nisso, acordada como ao ver-me, interna se mexeu lá no fundo, bem distante. Sentindo, parei num recuo de volta e indecisão. Seus olhos já miravam em mim, feito uma valiosa caça a abater. Era o que antes já produzira o recuo, qual passarinho perdido às bocas do predador. As grades não me deixavam fugir. Assim, não corajoso, entreguei-me a uma sanha predestinação da vida e fui. Caminhei.

Como lances de festa começamos juntos. Ela, esperta, sincronizava seus movimentos de passos, de dança, comigo. Vai me engolir, balbuciei por dentro. Não busquei tábua de salvação num ato de mundo milagroso. Grande e robusta, me dominaria fácil, nuns braços estranguladores e coxas famintas de abocanhar. O corpo à distância já me engolia, mesmo que ainda em preparo. As púbis todas se salivavam, ao se antecipe do gosto. As carnes e os prazeres tão ausentes durante anos estavam ali, vindo. Trazidos pelos passos de um saudável e ingênuo professor. Talvez que antes ela já até marcara em aula, depois nos sonhando sedenta pela pedra da comarca noturna. Dormíramos juntos sem que eu soubesse, no fantasma saciador de desejos. Aos andares, as metragens das carnes se estreitavam, se chamando a dois. Pois que encoberto pelo medo, os sangues e músculos do professor só queriam entrar por aqueles sedentos adentro. Algo intumescido dela só implorava. Vem. A ala uma grande alcova. Os sexos só queriam se entender, se aliviar. Se existir plenamente na ordem da natureza, desde os infinitos primórdios. Num momento, em desagravo, pensei em estupro de macho pela fêmea.

Aos últimos passos do encontro e do cruzar animal, fiz-me em estado de suspensão. Que tudo podia acontecer agora. Qualquer socorro estava longe, não existia. Ainda, que único macho na escola, portanto naquela carceragem de só mulheres, talvez roubassem continuamente meu corpo em imagem. Aos alívios de pernas e camas, de deliciosos parlatórios, e quem sabe de grandes amores mais profundos e livres. No quase, eu já não enxergava nada, todas as defesas ruíram. Que ela fizesse o que pudesse ou quisesse. O professor indefeso. Num último amparo meus olhos só encaravam à frente, mesmo sem nada a ver, qual esperando um golpe fatal. Porém, relatando só um antecipado mas já todo acontecido, a boca delícia da presa sussurrou-me aos ouvidos: “gostoso!” Transantes, os corpos-desejos depois se foram, pedindo mais, muito mais.

As Professoras Internas – Agumas

Engoli, dividi mundos e até namorei dentro e fora com algumas, que por lá ensinavam. Degustei forçadamente mundos estranhos ou dos quais nunca entendi. Todas as mestras, quer se concorde ou não, traziam para suas convivências com presos seus afetos, neuroses e religiões. O corpo, ao escondido ou não, sempre vem com tudo. Ao convívio vamos construindo e postando nossas barreiras e portas ao outro. Nesse caso o outro, o coletivo, a multidão dos apenados com os quais nos juntávamos. Lembrando aqui outra vez, que as escolas penitenciárias ficam no interior das carceragens, nunca fora. Por vezes me perguntava como iam ou estavam as misturas. Que conviver é misturar-se. E as grades nos lacravam ali, quer dizer lá, como uma sopa bem enlatada.

Eu, na minha entrega pessoal com a sujeira do crime, devia produzir repulsas e nojos secretos; principalmente nas que nos abraçávamos e beijávamos. Quem sabe uma busca de cheiro de preso ou bandido por mim. Ou mais, eu professor já criminoso. Houve momentos que senti buscas e chamados de salvação. Que eu não me misturasse tanto, imploravam.

As mais higiênicas as religiosas. Se o mal bandido está por aqui, nem da água do filtro escolar eu posso beber, como faziam. Talvez ou bem certo no pensamento de que o crime flutua pelo ar, qual um bacilo mórbido de pulmão. Tuberculoso. Ou pode entranhar-nos pelo uso de um lápis comum. Não sei como respiravam, em ares periculosos impuros. Trazendo religião que significa comunhão, elas separavam-se a miúdos, a tudo. Um cafezinho trazido pelo preso, vem líquido altamente suspeito, podendo contaminar e matar.

Sabemos que religião não transforma. Um homem continua devasso embaixo da vestimenta de padre, ou do terno bem passado de algum pastor. Mas a questão aqui não é esta, é outra além. Ao levarem as professoras para as cadeias e grades seus sentimentos religiosos, deviam ficar num contraponto crucial. Os humanos dali não eram iguais. A alma realizava jogo duplo, como de uma freira traidora, porém em face de pureza. Ainda aqui não cheguei ao desejado. Se havia algo consciente, ou se nem precisava de existir.

 

O Preso, as Mercadorias e as Vendas, o Lucro

Somos pessoas que estamos lá. Vemos publicadas narrativas e narrativas, histórias e histórias, em torno ou sobre quem está por trás das grades dentro das cadeias brasileiras. Os discursos e os olhares, a atenção e os saberes, aumentam. Mas os presos ainda são neles só eles e, ainda distantes, bem distantes de nós. Literaturas em textos agressivos por tonalidades fortemente exóticas, ou então em graça irônica de quem habita as grades as escolheu por livre e espontânea vontade. Manifestações documentais, porque publicações, só nos objetivos de tão somente vender, faturar; tornando-se ao possível um best-seller de mercado. O preso coisa-imagem de consumo, de alto consumo. Livros por vezes, na face do discurso com forças vendáveis a enternecer e espalhar-se, por tintas finais envolventes de um humanismo enganador de mercadoria falsa. Cada unidade prisional qual fábrica de chocolate amargo, tornado doce comestível aos olhos pelos invólucros que o vendem.

Assim o de hoje ainda é mais profundo, com certeza num amanhã com saudades dele, como nos alertou já um preso. Pois que a dinâmica perversa parece ter pressa, cada vez mais pressa.

Não temos ares e nunca teremos de mexer ou mudar, mesmo que só num grãozito, a predestinação do mundo que somos nós. Não temos as ganâncias de deuses. A conversa simples boca-a-boca tantas vezes nos basta, totalmente nos atém. Desnudar o escondido pelas verdades e muros de fora, para sempre a nossa intenção. Lembro-me incansável, que fugir, libertar-se, é destruir preconceitos e olhares estrábicos. Nesse nosso sincero sobre as realidades intra-muros, colocadas pelos poderes aos secretos, mostrá-las, desanuviá-las pelo menos, para a grande população de fora. Romper o conceito assentado perverso do nome bandido. Ele já a grande prisão, repetimos.

E pensarmos quem sabe cá fora, que não estamos também tão livres assim. Que o de lá foi antes também um de cá. Que um fora maquina industrialmente já e produz o de dentro. E se assim o faz, os componentes de um preso, qualquer um, nascem nos entremeios, furores e dinâmicas da liberdade. Com a legalidade abocanhadora delineando novas delinquências. Notar e saber aqui, que quanto mais leis mais infrações. Quanto mais juízes mais réus. E que no atual progressivo nosso, quanto mais polícias e armas mais mortes. E nessa lógica edifícios jurídicos sobem aos céus, com seus ouros, acumulações e seus muitos dinheiros.

Ver-nos

Estamos em negação por todas as nossas crônicas. Procuramos por todos os meios narrar o que vivemos pelas grades e vidas. Contamos algo de história do preso; do sistema carcerário ou prisional brasileiro. Levantar aos poucos ou aos pedaços miúdas passagens e epopeias; olhares sobre uma multidão que, mais do que rejeitada marcada para sempre pelo maldito. Só que um maldito que existe em alma como nós, e que ao tempo todo nos grita. Nisto, nunca nos cansaremos de nos repetir, lembremos.

Ao escrever deles, sobre eles, baseio-me constantemente na memória. Elemento fiel de registro com todas as suas pertinências de sentido e de não-sentido. Agora ponho-me também em pergunta, aonde estão os registros do magistério. O que nos contamos por eles, neles. Até agora nada. Somos assim uma Educação sem memória. Pois juntos com os presos, por todos aqueles lugares horríveis, estão muitos outros pares de mãos. Primeiro e ao estarem lá com eles encontram-se também encarcerados, por muitas vezes em dose dupla, grades de dentro e grades de fora. Mas junto de tudo, mãos também que sustentam, são o outro da liberdade do preso. Quem por vezes pega numa sofrida mão e puxa ou anima. Ensina que viver é continuar. Jogando novos olhares até mesmo para quem vai continuar no crime. Um assalto pode ser até amoroso. Quem sabe então, que ao entrar nas prisões o professor  descobre e aprende para muito além dos seus diplomas e bancos de formatura. Mas o que necessitamos dizer que há uma história surda, negada porque não escrita ( talvez qual a do preso? ), de um imenso magistério, que larga o claro do sol por todos os dias, e se entrega ao diário às penumbras eternas das carceragens, das mais de muitas que já nos habitam.

No Escuro

Algumas tardes cresceram ficando maiores que nós penitenciários. Começaram as professoras a trazer-nos filmes; saboreados no quase acaso das sessões inesperadas, em sala de aula por cinema e lotada, às pré-estreias espetaculares. Alunos e não-alunos se chegavam, nas vontades e fuga de um gargalo estreito, a cela de cada um. Sem que me desse tanto por mim, o coração e a alma viravam-se alegres e até alguém feliz. A pequena multidão, maior número que o costumeiro das aulas, deliciava-me todo a recebê-los. Éramos ainda pessoas.

Como numa casa e hospitaleiro, nossas mãos se ocupavam num delicioso café. Delicioso porque repartido, passando de mão em mão num copo só. Nossas almas via bocas e lábios se irmanavam. Todos ali. As pernas de um professor feliz iam e vinham. No ritual do filme nos encontrávamos, sem boas-tardes e olhares hipócritas. A comunhão das almas sem muito se mostrar se nos bastavam. Bandidos para os de fora ou para quem quer que fosse, para nós ali corações e desejos. Que o grande filme não era o da tela, mas das almas se repassando nos mundos.

Houve “Dançando no Escuro”. E o apoio de cinema teve que por bem arrumar mais cadeiras, todos queriam vê-lo. Afoito ao café nossas mãos iam e traziam mais. Pelos goles prazerosos nossas vidas se encontrando ao ritual do mesmo cálice, qual numa ceia. Queríamos sempre o melhor. Pois o café da cela era outra coisa, chamada de ruim ou venenoso; e pago a bom preço talvez. Mas tudo tudo mesmo, que mais do que importava, éramos todos ali, dançando por aqueles escuros. Nos dizendo ao silêncio do filme por nossas querências e texturas. Plenos à liberdade por um fim.

E Prendem Mais e Mais…

Já colocamos alhures, bem alhures talvez, a expansão penitenciária nossa. Mais presídios. Ela feita, no jogo perpétuo de aumentar vagas, alardeando aos quatro ventos preocupações sinceras para com melhores condições de vida ao preso. Na base desse jogo, estão os interesses e as políticas nacionais de mais aprisionamento da população. Os números de lotação, a multidão encarcerada, indubitavelmente só crescem. Feitos mesmo só para isto, para crescerem. Tudo no movimento do bem-estar, tanto da massa dos encarcerados quanto a de fora das grades, os chamados livres.

Pergunto-me sempre me repetindo, por que alguém flagrado com um punhado de maconha no bolso, ou preso por um roubo barato, tem obrigatoriamente que parar no sistema carcerário. Ou seja, dentro de uma cela. Com enorme despesa pública e, pior, condenado por uma ficha jurídica a nunca mais poder sair, tornando-se um delinquente crônico. Por isso e também por mais na grande máquina das condenações, o cada vez maior inchaço de corpos nas carceragens brasileiras.

Dentro do jogo dos encarceramentos, realizando dominações como nos diz Foucault, estão também os interesses políticos-econômicos: a mina com novos veios, no aumento das unidades prisionais brasileiras. Então, na vontade de mais dinheiro os caminhos e objetivos já estão traçados. Criando-se assim um aumento de carga tributária à população. Ela já numa condenação histórica, pois o de fora paga em impostos pelo de dentro, e ainda agora em expansão; no lance sempre à frente, de luta dos poderes pelo bem-estar nacional. Talvez tudo não pudesse ser melhor; só para eles, como já nos lembrou alguém.

E para que todo esse mundo exista, num interminável, há que se aumentar a massa em oferta às grades. Lá na frente, no intuito de que essa oferta esteja sempre em sobejo muito intenso como agora, há que se expandir o universo da delinquência criminalizando mais. Então no quintal dos costumes ir criando brechas, em nome da moral e da higiene, e implantando cada vez mais leis. Algumas delas a nosso ver esdrúxulas e muito cômicas. Numa expansão portentosa do nosso edifício jurídico. A justiça com isso cada vez mais presente. Quero dizer perversamente presente.

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Nota final do autor: nessa ordem, nossos descendentes, filhos e netos, serão os encarcerados de amanhã.