Medos e Movimentos

O coletivo mudou, disse-me o guarda, agora não é mais Vermelho*. Bateu o cadeado às minhas costas deixando-me sozinho preso e se foi. A grande ala estava morta, nem um pio sequer. Só penumbra no ar, como alma assustadora em espera. Os passos quiseram e fui. Deslocado, eu entrava como em outra casa sendo a mesma. Agora havia um desconhecido à frente. Deparei com galerias vazias. Todos os presos recolhidos às celas, num certo mutismo assustador. Lembrei-me num cemitério. Aonde está a vida, o coração palpitava, e perguntava. Sem ninguém visível, afugentei o mal-estar pelo meu grito: “coletivo! Escola!” Em altos brados à galeria. Ninguém. Insistente fui passando às outras. Nem um rato corria assustado. No fundo da ala, já na escola, tentei fazer algo, arrumar papéis, ao menos fumar; nada consegui. Um mundo se perdeu e eu tentava resgatá-lo. Bem antes, ainda no choque da entrada, endireitara-me ao corpo e me recompusera. Mesmo sem os amigos vermelhos de sempre a vida seguia.

Repeti-me no dia seguinte. Galeria por galeria fui chamando e nada. Pistas vazias. Na quase última pequeno grupo ao fundo. Chamei chamei e não quiseram chegar. Por mais que eu gritasse professor e escola, só olhavam, sem responder. Descobri um próximo e estendi-lhe a mão. Eu era só um professor, ele podia chegar, disse. Meio arredio ainda, e distante, o preso cumprimentou-me. Porém logo repreendido pelos demais ao fundo.Que ele cumprimentava o inimigo, disseram. E assim não passamos desse único momento. Dias depois foram todos transferidos. E a vida jogou-me em outras prisões à espera.

Na Sá Carvalho* tempos depois, aluno corpulento, bem malhado, contava-nos em aula desejos e histórias de guerrilhas, selvas e fronteiras. Sua próxima empreitada logo após sair em liberdade, seria perder-se nas matas e pantanais de Mato Grosso e lutar; pulsava por heroísmos. Na contra-dança da fala narrei-lhe o acontecido no III*. Quando estando lá o Terceiro Comando, por mais que eu chamasse nas galerias ninguém respondia. Eu estava lá professor, clareou-me ele, não saíamos das celas nem atendíamos ninguém, com medo do inimigo Vermelho. Também não dormíamos à noite, continuou, pois poderiam vir a qualquer hora possuindo as chaves dos cadeados, e degolar-nos todos. Que mesmo já ao dia, minha voz de professor podia também ser isca.

Mas aquilo de proximidades de facções diferentes e inimigas numa mesma unidade prisional, podia ser um jogo perverso e era. Que eu, e pensávamos em todos nós, jamais nos deixássemos cair. Ao escolher o preso como grupo social de aproximação e vida, sabíamos que o Grande Mal está fora de todas as cadeias. Entrar na Dr. Serrano Neves e encontrar aquele vazio, e não as mãos e rostos amigos de todos os dias e esperas, deixou-me momentâneo sem chão porém nunca sem vontade. Pareceu-me armadilha. E a ala B vermelha era um front aguerrido e forte. Soldado às vezes solitário, nossas pernas continuaram caminhando e de olhos atentos, até encontrarmos uma nova e favorável posição de tiro e de luta. O Complexo de Gericinó, campo de eternas batalhas, nos esperava sempre.

 

 

Notas do autor:

Vermelho, Comando Vermelho. III, Bangu III. Sá Carvalho, unidade prisional Plácido Sá Carvalho.

O Documentário

As imagens me faziam mal. O título sim, me atraíra antes: “Cartas Para Um Ladrão de Livros”; com dois feitiços, livro e ladrão. No catálogo do festival, assim eu não podia perdê-lo.

“Sou gay tá professor”, disse-me na ordem da facção logo no início, naquela manhã quase sem aulas na Muniz Sodré. Não houve avisos nem apresentar, chegou e se pôs. O coletivo amigo já lhe dissera eu. A conversinha fluindo. No seio, ele que só falava, qual depoimento criminal; e era. No fundo, profunda revolta de réu no tribunal; em que a justiça passa, mas só com lacunas. Assim então eu o ouvia. Começou com pequenas revistas antigas mas de grande valor. Olhou na biblioteca pública e elas estavam lá, esquecidas, como se a esperá-lo. Pegou-as e saiu, a segurança não se importou, nem viu. Transformadas logo em dinheiro seguiu em frente e continuou. Cresceu. Já tinha então comércio pronto à espera no negócio dos livros. Assim, só trabalhar e passar adiante, com dinheiro vivo na volta. O mundo das artes dando-lhe muitos lucros. O veio do descaso público lhe facilitava agir, não havia muito ligar. Seu tino periculoso foi descobrir esse veio, e chegar por ele ao grande filão. E o negócio então se avolumou, ele já garimpador de quem tudo receptava. Sócios. Na ordem prisões e processos. Histórias. Porém o que não concordava, me contava o interno ali, era de quem negociava com ele, ninguém fora preso arrolado em penais; mesmo que ditos e identificados porque enumerados. Só ele puxando nas grades e pronto.

Falou-me da luta pelo bem-estar da mãe, por um teto que lhe desse abrigo.

Na poltrona do Odeon meu desarranjo de alma por dentro. Aos poucos os sentidos de que já vira tal filme, crescendo. Mas a falta de encaixe do onde ou em quê, desconsertava. Obrigado agora a assistir, fui vendo a história, deixando o olho receber. Despertei na paisagem visual. A vida na tela se apresentou sem aviso, no contínuo do desenrolar. Fez da Cinelândia Gericinó, na grade da Muniz Sodré. O documentado preso já conversara comigo. Clareou-me no cinema coisas que não me dissera em cadeia. Porém o básico da sua revolta, de incluir também seus ricos compradores nos processos mas em vão, veio inteiro nas duas versões, na tela e no real. Nisto eu já era do filme, alguém que reencontrava um parceiro de cadeia na liberdade, só que em pura imagem.

Perto do fim, o depoimento hipócrita do delegado federal, fingindo revolta pelo impedido social de prender os sócios de Laéssio, deu-me nojos de alma na poltrona.

Logo após a sessão houve debate com os diretores. Nos pomos assim a conhecer-nos. Eu professor já ouvidor da história, e eles, os realizadores. Que disseram para nós a tentativa impedida, de mostrar nos finais da fita os nomes dos compradores do ladrão de livros, a parte patrão do negócio. Receberam pela tentativa, disseram-nos os dois diretores, ameaças de processos e mais. Ou seja, a porta que não se pode abrir; só falsamente como agora, nos dias que escrevemos.

 

 

Notas do autor:

O documentário “Cartas Para Um Ladrão De Livros”, foi exibido no Festival de Cinema do Rio de Janeiro de 2017. Tendo como protagonista Laéssio de Oliveira, o “ladrão de livros”.

Recentemente, em 04/12/18, o jornal O Globo publicou em destaque no segundo caderno, um pouco da história de Laéssio.

No Segredo

Num canto de muralha interna entre cadeias, em nosso caminho obrigatório de entrada e saída já próximo da portaria, passávamos em frente do castigo, lugar pior do que o costumeiro das celas. Era, e certamente ainda é, pequena construção de laje grudada à muralha e num lugar de sol inclemente. Que talvez para economizar gastos, usavam o calor da natureza para castigar ainda mais. Pequena grade de visualização dava para o espaço externo. Geralmente os presos castigados se grudavam nela, num jeito de ver um pouco do mundo. Isto, principalmente quando passávamos nós professores e as professoras. Que ao ver-nos, as esperanças de liberdade lhes cresciam.

Por uma tarde ensolarada na passagem de saída, alguém do castigo gritou meu nome. Como apesar das muralhas as cadeias se interligam, olhei na direção do chamado surpreso, quem seria. Sem preâmbulos o preso desconhecido transmitiu-me respeitoso, desculpas de outro preso em cadeia distante. “Pedro* da Frei Caneca mandou lhe dizer que tá tudo resolvido tá?” Respondi sem nada pensar num “tranquilo” repetido, e em rápido ok de mão pelo polegar afirmativo. Dois dias depois a mesma fala do castigo em confirmação, num alto respeito ou medo. Mais efusivo e consciente reafirmei meu aceite e compreensão. Mas eu não conhecia Pedro, e isso me pôs num segredo.

À história agora, temos um anterior. No passe e repasse do livro nosso “Outras Cadeias a Cadeia”, colocávamos ao costume e carinho nosso autógrafo, este acompanhado do agradecimento do autor. Um volume autografado foi para uma psicóloga amiga e querida nossa. Certo por um comentário de outro alguém ou referência dela mesma, a história do “Outras Cadeias” chegou aos ouvidos do seu namorado, este um preso do então Complexo Penitenciário da Frei Caneca. Pedido por ele o livro emprestado, nossa amiga psicóloga arrancou a página da dedicatória autografada. Escrevo muito fundo, quase às vezes perfurando a folha com a ponta da caneta. Este fundo já sendo um dado psíquico. Retornemos. Emprestado o livro, a periculosidade amorosa se indagou sozinha da folha arrancada, o porquê daquilo. Assim, num sistema inteligente que desconheço, ele fez nossa letra bem legível aparecer nos sulcos da página seguinte, a que estivera sob o peso da escrita dedicatória. Tudo se lhe mostrou aos olhos. Aquela mensagem o ciúme lhe insuflou. Podia ser e era uma mensagem de amor. Creio que se bateu em ódio por paredes e grades. Noites insones de puro desassossego infernal de macho. Ele ali, e ela toda prazerosa com outro lá fora. Havia então que desenrolar com esse autor. Bolou incontido convite raivoso de me conhecer e o enviou, vindo pela própria boca da namorada assustada. Ouvido o clamor bandido dissemos que sim, que iríamos lá na tal cadeia desenrolar. O raciocínio alertou-me que avisasse os meus amigos do crime. Aonde iríamos e o que faríamos. Precaução bandida e sincera por mim. Houve uns dias de total silêncio, até aquelas tardes da mensagem de paz do amante arrependido. Logo depois a leitora e namorada se houve comigo em perdão. E tudo assim se foi. Só que ficando eterna na alma de quem os escreve, uma ação estrangeira secreta mas entendida, de que alguém poderoso e amigo interferiu. Pondo-me a salvo e protegido de qualquer suspeita odiosa de um amante aprisionado. E livre talvez de um crime passional.

 

 

Nota do autor: Pedro, nome fictício na crônica.

Dia de Morte

Descomunal seguro de vida eram meus grandes amigos do crime. Esta a lição que mais eu soube aprender e usufruir para sair ileso. Nas cadeias há um meio caos desestabilizador. Os sinais da verdade em contrários e até ofuscantes. Vamos ao caso. Na portaria, o guarda mesmo que de longe já vinha despejando ódios. Todos sentimos um encolher de corpo; as duas professoras, eu, e até o outro guarda das chaves. O homem chegava mortal. Olhos de puro terror. Exigiu raivoso carteirinha nossa de professores de cadeia, como se nunca nos conhecesse, mesmo com toda identificação visual de trabalho anterior já longa. Era só uma deixa. E pôs-se a assustar as professoras. Num bote de onça virou-se agressivo, e disse que tão logo eu estaria morto com a boca em formigas. Esbocei pequena reação de espanto. As professoras, mais assustadas ainda, arrastaram-me amáveis para fora da cadeia. E o guarda junto, ameaçador. Saímos de carro porque eu na carona também fui. A cobra raivosa por lá mesmo ficou.

Logo depois, sozinho ainda na rua a voltar para casa, levemente atônito eu buscava uma linha. Aquilo de alma que temos do campo da intuição. O atônito não abrandava. Sinais leves de socorro apareciam por dentro, sem que eu lhes buscasse de imediato o auxílio. Eram por enquanto só um leve conforto. Caso precisasse eles seriam. Já nos hábitos comuns de casa silencioso em conversa interna, eu ia andando. A estrada do dia não parecia tão perigosa, mas que me alertasse feito em confronto mortal, dizia-me meu aparato de prevenção. Talvez que uma certa tranquilidade crescesse, por uma resolução já tomada. Medo do dia seguinte não me veio. E o mundo girava. A sentença da morte por dentro, caminhando. As relações com meus amigos do crime em alto apreço, de vida ou de morte. Incontinente o telefone tocou e eu atendi. O guarda ameaçador por voz suave se retratava. Sem choque de alívio pois já estava resolvido anterior em mim, entrei com palavras também de paz.

Desligado o telefone, refleti por dentro a assentar-me as águas da alma. O que acontecera. O discurso da fama viera ao meu socorro. A este fim foi o que a reflexão me pôs. Amigos perigosos do professor, do crime, saberiam, pondo a vida do guarda da morte na linha certeira de tiro. A lógica do discurso na fofoca do medo nos salvara, de um desdobre trágico iminente.

Missa Perigosa

Convidaram-me à reza na carceragem. Gesto santo veio da boca que a encomendara. Com padre e tudo, disse-me. E que eu não faltasse, ainda pediu resoluto o parceiro. Data e horas marcadas, ouviu-se sinais e climas de honrarias e espíritos em transporte. Deus invadira a prisão.

Em alinho de roupas libertei-me dos hábitos escolares e fui. No grande pátio interno junto à ala, cadeiras arrumadas acomodavam fiéis já contritos, em submissos de oração e louvor. Ao me verem chegar nas barras da grade, comoveram-se os presos em saudosa vista de comunhão e apreço, suas graças de alma queriam-me também com eles, em corpos e vidas irmanados. Puseram-se logo alguns, preocupados e solícitos, aos clamores do funcionário* para que mais um entrasse na improvisada igreja. Aberto os ferros e batido o cadeado atrás de mim em fechamento, saudei-me religioso com meus irmãos de cela e de vida. Educados e prazerosos arranjaram-me cadeira num ponto privilegiado e central.

Na liberdade pelo amém final, nos desmanchamos logo em palavreados soltos do informal. Como em qualquer igreja, nos livrando do amarrado do culto. Íamos assim para lá e para cá às amenidades. No movimento e intenção de cumprimentar o padre e bulir algo com o parceiro que encomendara as bênçãos, notei sentidos de intenso alerta. As auxiliares do homem de Deus, duas mulheres, estavam às guardas e medos à minha pessoa. Suas auras de segurança diziam, não queriam-me junto delas e da batina sagrada, no participe do burburinho de adulação que religiosamente se formara. Na sutileza de teste, dei passos na direção de uma das mulheres; ela, também sutil, ensaiou repulsas e fugas sinalizando. Grato por tudo, despedi-me e fui embora.

Já em outra grade, na minha, comecei a refletir em risos sobre as caras femininas na missa. Chegando eu lá limpo e arrumado, tênis vermelho, vindo não se sabe de qual cela dali; mais e tudo, ansiosamente esperado e bem recebido, não havia dúvidas: eu era um dos líderes do crime. Portanto, todo cuidado na certa fosse pouco. Ali, num segundo de mundo tudo pode virar. Pois estávamos numa afamada cadeia, Bangu III, em ermos de guerra. Onde sair com vida podia ser custoso, ou ainda muito incerto.

 

 

Nota do autor: seu funcionário, nome como é chamado qualquer guarda de cadeia pelos internos.

Dos Menores Sob a Lei – Na Busca de Uma Fuga à Vida

Numa condução qualquer eu passava diante daqueles altos muros, antes de efetivamente entrar pela cancela em Gericinó. Sempre sem alguém saindo ou entrando, num ar desértico ou de grande abandono, a entrada deixava-me sempre intrigado, como um escondido segredo a descobrir. Sabia ser ali, pelos dizeres da grande placa no alto, cadeia de menores infratores. Ditos por todos muito perigosos e imprevisíveis, assim as vozes das professoras me cantavam. O nome de santo na placa identificando a casa, mais o socioeducativo especificador, me intrigavam por dentro, como um sempre a mascarar, arranhando a pele da alma. E meus olhos precisavam ver.

A oportunidade chegou e fui trabalhar no Santo Expedito*, em regime de extras. Foi como entrar numa nova casa, desconhecida e desejada. Estranheza inicial se deu à primeira aula, ao chegar na escola por dentro dos muros e não encontrar alunos nem sinal deles. A espera tornou-se angustiante e perguntei por quê. Qual a causa das demoras. Hoje são os do Terceiro Comando*, informou a professora, e o ritual da revista da guarda é demorado; revistam apalpando um por um no sair das celas, arrematou. Apareceu uma fila de rapazes por dentro das altas telas e junto dos pavilhões. Como seriam, eu me perguntava. Chegaram à escola limpos, de mãos abanando sem cadernos, que nem pareciam alunos. Havia um medo no ar, como se um deles pudesse nos degolar sem aviso. Acostumado às liberdades com os adultos presos, aquela enorme barreira de cuidados causava-me desconfortos, sem saber inicial como agir. Assim, arrumados em espaços improvisados ditos salas de aula, cada um recebeu lápis, borracha, e uma única folha sem pauta para escrever. A aridez me desconcertava, sem ver aparatos educativos às mãos, visíveis, que nos guiassem.

Houve os retraimentos iniciais de quem ainda não se conhece, não se sabe. Alguns chegaram contando histórias fantasiosas de várias degolas e estupendos poderes. E os primeiros dias logo se foram, sem mortes ou fugas, como tanto apregoavam.

Na primeira aula com os do Vermelho*, por medos e precaução disse-lhes das minhas fortes amizades no coletivo do III*, também Vermelho. Aquilo podia me ajudar, pondo-me em alguma segurança, o que efetivamente aconteceu. Acabada a aula, solicitei a devolução dos materiais escolares, pois que os alunos não podiam voltar com eles para suas celas, ordens escolares e da segurança. Mas então, diante do meu pedido de devolução ninguém se mexeu, talvez a testar-me coragens. Cortês, solicitei uma segunda vez esperando. Ao que mão educada de delinquente sinalizou, pediu-me licença logo concedida, e recolheu da turma um a um o material escolar reclamado, sem que nem um objetasse, num princípio de total assentimento. A ordem coletiva então se fez.

Certa manhã ao chegar nos menores descobri a América. Professor atrasado, grupo de jovens da aula daquele dia me esperava, alguns ansiosos, por trás das grossas telas. Olhos desejantes fitavam o portão de entrada em ansiosa espera. O Abel chegou, disse um aos demais em alívio. O tom do jovem em arauto sinalizou-me, não esperavam professor, mas um humano igual a eles que os guiasse, os compreendesse. Pois que empurrados pelo nascimento da vida de todos os dias, não tinham aonde crescer, aonde ir; e só agora já ali, naqueles muros horrendos.

A vida de trabalho logo me tirou de lá. Deixei os menores. Porém, a ironia dos dois nomes se fortificou: o socioeducativo em algo tão aprisionante, junto com nome de santo, num hipócrita religioso de céu.

 

 

Notas do autor:

Facção Terceiro Comando e Facção Comando Vermelho.

Santo Expedito, unidade de menores infratores em Bangu, Rio de Janeiro.

III, Bangu III, Penitenciária Dr. Serrano Neves, também em Bangu, Rio de Janeiro.

 

A Mão da Tirania – Na Lição de Licurgo, Governante de Esparta

O mundo não é só este significado mundo.

 

 

A VK* sob a mira de fuzis inimigos. Homens armados aos morros todos os dias; e tentando descer, tomá-la. O grupo virou estrela nas mídias por aqueles dias. As polícias olhavam meio que de longe, fingindo algum controle. Lugar de passagem obrigatória diária às cadeias de Gericinó, percebíamos o jogo do poder: deixar se matarem entre si as forças inimigas do Estado, nesse caso os fora-da-lei. Dentro das grades eu mexia com os meus amigos do Vermelho: “vão deixar tomar a Vila?” Ou, em comentário com certa leveza provocante: “sabe que não podemos perder, a entrada do Complexo Penitenciário tem que ser sempre nossa, pela importância estratégica.” Ao que parceiro de grade respondia meio que pressionado: “eles sabem o que os espera, por isso nunca descem, só ameaçam.”

A cabeça torcia para que aquilo tudo de guerra entre as facções logo acabasse. Os ataques do Terceiro Comando ao Vermelho, conduzidos pelo Matemático,* causavam medos e preocupações aos moradores nas linhas dos tiros. O inferno da guerra durou sofríveis dias, com a morte acontecendo neles. Por trás e no jogo perverso de mundo e de poder, as mãos do Estado talvez que batessem palmas. E esta a seguir era a nossa conclusão de horizonte: o poder a fazer e a deixar sempre se bater, se matar, quem ele quer eternos vencidos, subjugados. Injetando em todos, bandidos e trabalhadores, a dose eficaz do mesmo eterno veneno: a servidão que divide e condiciona.

 

 

Notas do autor: VK, Vila Kennedy, conjunto habitacional em Bangu, Rio de Janeiro.

Matemático, eminente bandido do Terceiro Comando. Tendo sido antes também do Comando Vermelho; hoje pessoa já falecida. No imaginário do povo, até de gente fora do crime, Matemático deixou imagem.

Alegrias Internas em Liberdade

Inscritos no vestibular fariam provas no domingo. A direção da cadeia, a então antiga Dr. Serrano Neves ainda não partida em duas unidades, solicitou nossa colaboração docente. Arrumar um pouco a sala dos exames, receber os alunos; no geral mais um apoio moral auxiliar do que didático e físico. Guardas- professores ministrariam as provas. Nós, numa preocupação humana e escolar, arrumamos pequena merenda para os vestibulandos, em manhã  de raciocínios e respostas. Que todos só ao café das celas, ficariam horas trancados às questões e às grades da sala. O que lhes daria fome e sede, alterando o desempenho dos saberes e cérebros. Quase ao chegar dos vestibulandos, a tirania do chefe dos guardas-professores, num ímpeto ríspido e gratuito, censurou-nos proibindo a projetada distribuição do miúdo farnel. Não, disse-nos ele fingindo brutalidade, e esconda tudo para eu não ser forçado a uma negação por internos. O que objetamos, escondendo a merenda, que conosco e os presos tínhamos a total liberdade do sim e do não. Fora, bem fora, de uma relação de litígio, medos ou de guerra. Eu e os presos só éramos amigos e pessoas. E a mão de um atencioso professor colaborador acatou a ordem imposta, não sem algum desgosto interno e silencioso.

Antes do início dos testes marcado em hora oficialmente cronometrada, começaram os mecanismos e rituais de soltura das celas. Coletivo em R.D.D. ( regime disciplinar diferenciado ), os guardas só liberavam os vestibulandos das galerias um a um; em total aparato de revista, movimentos e cuidados. Como numa operação de alto perigo, provocando-nos ânsias de esperas e um sentido de que nada daquilo de amparos eram necessários e não levavam a nada. O que acontecera já passara, uma rebelião. E os tempos corriam entre as grades, de um silêncio inquietante e clima de pesado mal-estar. Num jorrão inesperado cabeça de fila de homens pôs-se à nossa frente, no dobre de uma esquina de concreto. O primeiro da fila ao nos ver abriu-se em sorrisos e manifestações de alegrias. Assim, desmanchando todo o aparato de corpo imposto pela ordem, suas mãos vieram à frente num caloroso abraço e cumprimentos. Seguido no respeito um a um nos seguintes, no ritual sincero das congratulações. Eles reencontravam seu querido professor. Depois de muitos dias de um vazio escolar massacrante.

Terminados nossos afagos, felicitações e desejos de boas provas, puseram-se eles os vestibulandos à sala, quase chegando ao fim a nossa tarefa de apoio. Porém notei no ar abrupta mudança nos guardas-professores em relação a quem vos escreve. Começaram olhares de falsa harmonia e comunhão de vida e civilidade, pois descobriu-se eu professor amigo deles, do crime. Produzindo no que foi antes tão ríspido e duro, manifestações de abrandamento, de medo inconfessável. Pois quem gosta cuida e protege. E a segurança das provas sentiu ali aos olhos, que os internos sabiam gostar, produzindo receios de entregas nosso e possíveis retaliações dos internos. O que nunca fizemos nem nunca passamos por estas vontades. O máximo ali, o ápice, foi aquela comunhão de vida e civilidade verdadeira, na amizade sincera dos nossos amigos de cadeia.

Sentenças Perpétuas

Eu estava num lugar junto a pessoas de jaleco branco, que me parecia secretaria ou sala de professores de uma escola. Minha fala era de justificativa. Eu dizia ser um sobrevivente. Pois trabalhando tantos anos nas cadeias, como trabalhara, e convivendo com muitos doentes dos pulmões continuava vivo e são. Até lembrava, pondo a boca em redondo e assoprando, os bafos que recebera de pessoas tossindo. Logo a seguir, passei a ver vários homens manipulando concreto fresco em preparo. Havia muitas masseiras. A luz meio escura. Nessa parte acordei assustado com o sonho.

Ao despertar, na busca de tranquilidade, constatei logo não ter sido pesado e tenebroso como alguns outros sonhos, que me causam profundo mal-estar na alma e no espírito. Sonhos estes que sim, muito mais horríveis que pesadelo, sempre se referem a tempos e ações de trabalho. Que, eu mesmo já aposentado, carrego eterno, em grandes traumas quando aparecem. O dormir, deve deixar ou pôr as guardas e barreiras internas do Eu relaxadas ou sem ação, permitindo que o tão profundamente interiorizado se desgarre e saia. Fico na impressão como um inferno e tortura a esconder, numa infrutífera ação de evitar a Dor.

Sabemos que guardas e presos sonham com as grades, em imagens do dia anterior descarregadas no material onírico. E que as vidas deles, mesmo em objetivos e realidades tão diferentes, repousam num fundo comum: ambas estão em prisões.

Ao lecionar em escolas penitenciárias devo ter ficado em duas cadeias: a do contrato de trabalho e a da realidade do local. Que também podem ser só o desdobrar de uma única. Posso assim, acordar livre mas na sensação ainda onírica de estar numa comarca na cela; ou em sufocos de forte dor de barriga num boi,* a defecar. Também, descubro hoje duas tragédias de vida. Uma, de que as décadas de trabalho assalariado cingiram-se ao meu espírito, fazem parte mortuárias dele. Então, mesmo aposentado continuo afixado à máquina de produção. Como um preso que mesmo liberto, continua na cadeia. A outra, de que vejo trabalhadores logo morrerem ao se aposentar; não conseguem mais respirar livres, fora das grades do eterno trabalho.

 

 

Nota do autor: boi, latrina de cadeia no jargão prisional.

Eu e a Professorinha

Entramos numa época de muito abandono. Em 2003, já sem direção, a escola* só tinha a figura de um professor, este que vos escreve. Ainda muito medrosos e arredios aos penitenciários, quase ninguém do magistério se ousava chegar. Assim, nas idas e vindas diárias pela estrada interna de acesso, quando muito, eu só cruzava com uma única professora; os dois solitários da educação. Tocados pelos encontros e aproximações, começamos a ter um clima de namoros. O eu e só ela certamente nos provocava, empurrava um ao outro. Nesta época surgiu a primeira modalidade de transporte público em Gericinó. O um quilômetro e meio de estrada ainda muito cheia de lama e buracos, opunha-se como um dos últimos obstáculos às visitas, e um sofrimento a mais em nós funcionários, vindos de casa com banho tomado e roupas limpas. Para driblar de espirros sujos pelos carros, poeira e às vezes muita lama, eu aguçava ao máximo os olhos em prevenção. Olhando aqui eu devia enxergar metros à frente. Ou então prever encontros a evitar. Os transportes chegaram em forma de tratores, dois, com enormes rodas traseiras. Que puxavam, cada um, carroceria tosca, com tábuas brutas servindo de bancos. Em alguma roça carregavam cana ou estrume. Aquilo nos matava por dentro, dando-nos uma identidade de gado. Nunca vi guardas e outros funcionários alinhados viajando por eles. O que me ficou na lembrança foi só eu e a professorinha. Esse diminutivo com intuito de carinhoso, porque ela era gorda. Um gorda suplantado pela graça e simpatia. Talvez que ela só me quisesse. Nos dias chuvosos, portanto com muita lama, viajar por aqueles transportes não de gente, tendo que ficar atento a espirros de lama, mais um horrível clima de animais que sempre traziam, durante minutos colocava minha alma, como as dos outros também, num fundo de dejeto, entrada e saída de um inferno. Creio que as visitas, mesmo assim, enfrentavam aquilo com um certo resigno. Pois vinham já cansadas de longe, com enormes bolsas de cheirosas comidas e roupas. E caminhar naquele final de estrada, chegava aos limites da exaustão.

 

 

Nota do autor: Escola Professor Carlos Costa, na antiga Penitenciária Dr. Serrano Neves, Bangu III.