Aconteceu – Aquilo que Arrebenta e Sai

Amigos, puseram-se na comarca* a brincar. Num instante se viam por entraves e lutas. Um perdia um ganhava, no jogo de vai e de vem. Mãos e braços aos apertos. Riam-se dos agarros. E fluindo fluindo, já não paravam de se ter, crianças de um perder ou vencer. Rostos e bocas nos olhos de mais intenso. Carnes e carnes pelas fainas de um corpo ao outro; se engolfando. Por um trisco de jeitos duas bocas se encontraram, línguas e demais sabores, perfume chamoso de sexo. Quem menino ou menina nem pensavam mais. Tudo ali no mundo, que buscavam, e se faziam. Mordidas e lábios no descontrole de baiuca* a dois, aos deleites de casal. Entre laços de braços os presos já não se largavam mais. Venci, disse o de cima rindo. Passivo o de baixo se entregante, amoleceu. Recebendo por suas carnes quentes, nervuras de amor que o outro lhe penetrava. Colados em um dormiram aos panos depois.

No acorde depois da festa, tomaram-se ao repúdio pelo ato feito, o machismo da cela não os queria mais. Assim, coisas e trouxas, pularam a cerca ao lado dos separados, expulsos da incompreensão.

 

 

Nota do autor: comarca,* lugar onde o preso dorme, no jargão penitenciário. Baiuca,* o mesmo do anterior com cortinado. Os dois termos às vezes se cruzam no mesmo objeto.

Crônica de Um Amor Criminoso

Cupido flechou entre tantas grades; e acertou. Professora se enamorou de bandido, apoio escolar nosso. Na secura da cadeia ele logo correspondeu; ao segredo mais profundo e mais partilhado de todos. Os encontros das carnes se afiançaram; se comiam, se bebiam. Nos instantes secretos inflamavam em resfolegos de fogueira. O muro estava quebrado e transposto a dois. As vigilâncias repressivas logo se aguçaram a postos. Puseram-se uns a temer, outros a fofocar. O olho geral da guarda deixando acontecer. Por provas, filmes e documentos, câmeras vigias foram instaladas. E a artimanha polícia de só deixar fluir, para um exemplo final.

Houve quase refrega interna, pois aquilo de namoros assim a facção proibia. Mas aos dias tudo enfim cresceu. Dois amantes a mais se puseram ao mundo. Pela ordem então tornaram-se iguais, ela de professora mulher de bandido. E teve sumária que sair, expulsa da educação prisional. Mas que não foi só isto, adiante em relato.

Do magistério antes amigo porque parte real dele, ela ganhou de todos um proscrito profundo. As bocas professorais passaram a negar seu nome, a nunca mais dizê-lo. Até a religião lhe exilou ingrata, pelo sim do pecado feito. Mestra do saber tornou-se visita de preso, num precipício social de infernos. Quem entrava na cadeia pomposa a lecionar e de carro, o mundo pôs na sua vida a famosa carteirinha de visita, filas, menosprezos de guardas, mais o olhar evitante dos professores que a viam, objeto sujo da hipocrisia presente. Acabado o romance as sobras em taras de castigo continuam. A eterna para sempre ex-amante, de um perigoso bandido.

Mudanças na “Pátria-Amada” – Vistas da Cidade do Rio de Janeiro

Nosso tio falava que andar pelas ruas sem farda era proibido. Dava cadeia ao soldado faltoso. Às manhãs, roupas da soldadesca se metiam na multidão operária aos trabalhos sem peias nem medos. Aos depois foram sumindo. Quem ia ou vinha aos quartéis vestia-se aos disfarces civis. Isto levou tempos a se completar a que ninguém se assustasse, se apercebesse. Estratégias de uma guerra futura já em anuncios. As cores da pátria mudavam de cor.

Carro-anfíbio se pôs ao assalto de guerra no Largo da cidade na Carioca. Mulher de rua viu naquilo uma estranheza. Explodir a quem ali, os prédios? Ela se perguntou. Dei com tropas às ruas, vigiantes. A multidão ordeira por elas só passava. Sentinelas aquarteladas se põem às esquinas, numa certa invasão estrangeira. O inimigo está na miséria. Pontos da cidade são geografias a tomar, a invadir a matar. Vielas e becos escondem inimigos, instrui general-comandante. Todos os ataques de infantaria. Somos o principal. Que as polícias são meros auxílios. A morte e a guerra por aqui são nossas; e normais.

Não sei o que pensam mães dos filhos aos quartéis. Se podem ou não matar parentes e amigos. Se as cores e as ordens valem mais que todas as vidas. Se a pátria dentro delas também já virou inimiga. Se enfim de qual pátria falamos, nas duas que aqui estamos; e somos.

“Auto de Resistência” – Impressões Sobre o Documentário

1- Sessão lotada, o que foi muito significativo para nós.

2- Durante a exibição grande concentração da plateia às imagens e falas. Com algumas manifestações de indignação e ironia aos discursos dos polícias.

3- Que o edifício jurídico brasileiro é uma grande muralha, entre os donos do poder e o povo deserdado.

4- As ações aéreas da polícia nas favelas, como hoje também as do exército brasileiro, nos lembraram os americanos exterminando vietnamitas, como moscas infectas.

5- À saída ao término da sessão, o silêncio fúnebre do público ao nosso auto-genocídio monstruoso.

6- E como nossa grande impressão geral, a de que o silêncio histórico e perene dos governantes é o horroroso SIM, de que tem que matar e matar, sobretudo e também os que continuamos vivos; estes na morte a crédito, os outros no imediato do tiro.

7- No concluso, de que enquanto estivermos nesse vitimismo choroso sentimental, nosso mundo continuará o mesmo.

Visitar

Passageiras diferentes entraram no ônibus à noite, em horas de tarde recolhimentos noturnos, nos corpos cansados que voltavam. Subiram antes com perguntas ao motorista, queriam saber de ondes. Bolsas cheias enormes dificultavam as pernas, causando transtornos e atrasos. As roupas nos diziam algo, melhor, talvez tudo. Aos desarranjos e pesos buscaram lugares e quase sossegou. Pois enquanto todas as outras roupas só voltavam elas ainda iam, em tempos de contratempos. Exageros de botas, brincos e cores, como quase a visar casamentos ou festas, enchiam nossos olhos restantes de um pouco estranhar e algum espanto. Pareciam todas, eram três, aos trâmites de uma longa viagem, mais penosa que longa.

Suas marcas vinham claras bem visíveis, sem amostragens necessárias de papéis. Os rostos diziam afoitezas com com anseios de chegar. Aos poucos fomos por dentro, às aproximações respeitosas de algum dizer, indagar. Para Água Santa*? Perguntei. Houve um segundo de entrave, de segurança ou receio. Não somos polícia, abrandamos. Quem lhes diz foi um simples professor de cadeia. Andamos e vivemos por carceragens a muito, reforçamos aos seguros. Uma das bocas confirmou, visitas de preso. Tão logo trocamos boas-noites pelo ponto que chegava.

Desci do ônibus em jogos de espírito e a sorrir por dentro. Intenso de comunhão aos volteios, pelo visto daquelas senhoras.

 

Nota do autor: Presídio Ary Franco* em Água Santa, Rio de Janeiro. Popularmente conhecido pelo nome do próprio bairro onde se localiza.

Pequeno Verbete Belicoso: Traição

Nenhuma fidelidade pode sair de baixo para cima; viu doutor? É muito perigoso.

 

 

A foto me aguçou depois. Bem armado do céu, helicóptero joga papéis em solícito à favela. Pedem denúncias anônimas, na fé patriótica à população. O grande jornal estampava. Da foto nos lembrou a pergunta: quem são os bandidos pedidos. Há um farsante legal de igualdade vindo do alto, supostamente do Bem. Assim, sobre quem é quem busquei direções. Todos na favela são iguais. O sentido da vida me ensinou que bandido é quem trai seus pares, seus iguais. Portanto, no óbvio e muito simples, num aviso às polícias sobre suspeitoso ou certeza, a voz da favela trai todo mundo de lá inclusive seu corpo, a vida própria de quem a diz.

Dias de Cão em Bangu III

Pós-rebelião aos quase finais de 2003, num coletivo total ao R.D.D.* sem visita, cantina, escola, banho de sol, televisão, puras grades; nós, eu e eles, estávamos bem próximos dos nossos limites. Isso descrito antes, mais trocas abruptas de galerias e alas, a não permitir mínima acomodação e possível sossego dos corpos, em assim constante penitência, pela contraordem nossa de só querermos a liberdade. Nos intervalos das rotinas, a cadeia nos parecia de fora por cansaços de exaustão, feito corpo estendido meio morto. Com parte da guarda fora dos muros em altas distâncias da carceragem, ao medo ou coisa própria dos ares gerais naquele cosmo anômalo, havia um grande abandono pelas muralhas do III. Assim, único de fora a entrar no que guardas chamavam de miolo, a carceragem, buscávamos sem direção fixa um alento, uma saída dos graus intensos de mais repressão pelos quais vivíamos. Que um grande receio de sangue nos pairava por dentro. Ao ímpeto de que o coletivo partisse para o tudo ou para o nada, o matar ou o a morrer, num outro Carandiru.

Naquele dia sem data encontrei os guardas em conciliábulo caroço. Não se sabia como e também não se queria resolver a situação. Que a poeira dos três a quatro dias de refrega da rebelião ainda não havia baixado. E estávamos em época de inscrição aos vestibulares. Havíamos então que pesquisar pelas bocas das galerias e prepará-los, para a seguir inscrevê-los, os presos interessados no exame. Porém os guardas responsáveis pela execução burocrática, recusavam-se a entrar nas alas de acesso sem a companhia e assessoria da segurança da própria cadeia. E eles, os guardas da segurança, opunham-se com um grande não a entrar, a auxiliar nas mencionadas inscrições. Pois que também antes num trabalho prévio, havia que alguém dar a primeira notícia para que ela se infiltrasse pelas pessoas, alertando-as e preparando terreno. Lembrar-nos aqui, que estávamos numa cadeia com presos em R.D.D., e que portanto não sabiam de nada. E esse prévio que era o próprio caroço, como num reconhecimento de guerra. Quem iria à frente, ninguém se adiantava. Num passo dissemos que sim; que mãos professorais executariam o trabalho de alto receio, de negação, puro medo.

Ao bater do cadeado já comigo dentro daquele rejeitado poço escuro, algo me envolveu sem que o corpo percebesse. Intensamente retraído cheguei à primeira boca de galeria. Pouco dizia, tão somente o necessário, mais balbuciava. Mesmo com toda comunhão ao coletivo eu já estava em polvorosa. Lembro agora só de uma cena final, em que meus amigos, justamente os mais queridos, desesperados pediam coisas como cigarros e contatos da rua, seus parentes e auxílios. Logo a seguir dessa cena, meus passos de saída foram de muita pressa, com sentimento mortal de afogamento e mais terror. Os pulmões gritavam pelo que lá não tinham, ar. Aos passos fui perdendo relação com o mundo e a visão sumindo. O caos das galerias colocou-me em ares de ter visto o Inferno. Afoguei numa alta surdez. Correu isto pela alma: por que entrara e não respondia. Guardo um momento já bem distante na praça da Vila Kennedy, olhando só para o chão junto aos pés para orientar-me, dizendo sinceramente para só morrer.

Já em casa, num quarto andar sem elevador, pouco vi e lembro de mim pelos três dias seguintes trancado solitário. Sei vago do alto cuidado de não chegar à janela, num medo e vontade em lutas de me atirar por ela. Recordo leve de um único banho, não sei se falso ou verdadeiro. O que tenho é que não comi. Não vi marcas de coisas usadas. A alma voltou no quarto dia, porque nos três de antes só quis partir do mundo, para nunca mais voltar.

 

Nota do autor: R.D.D.*, regime disciplinar diferenciado.

Delinquências em Disfarce

Na Roupa da Lei    ( Limpando Carteira )

 

Livre o chiado corria no asfalto liso, em rodas de táxi ao chão. Conversavam e depois pararam, em silêncio de presumir. À noite numa odisseia. Esperavam chegar. O que há perguntou. Não sei respondeu motorista. Longe as luzes paravam a estagnar. O vazio de fora enchia por desamparos. Em gritos ninguém viria. Pisca vermelha adiante. Blitz-polícia, soou do volante. Em carga família o de trás só pensava. No avanço do ir eles chegando, aos libera e aos para. Vigias, os rostos-barreira armados a tudo. O táxi nosso chegou. A encostar, disseram. Luzinha no teto a ver tudo dos dois. Documentos e vistas quem estavam ali. Bandidos se mostram de gente. Mãos da lei vasculharam. Certo, disseram as fardas, podem partir. Distante os corpos voltaram, saintes dos medos e perdas. Gargantas e papos se iniciou. Na prova do visto olhou a carteira, que ia passageiro a pagar. Polícias sumiram as notas no reviste feito. Dinheiro destino de pensão-filial.

 


 

Na Religião   ( A Bolsa Tomada )

 

Curta. Muito curta saída ao barbeiro. Mulher indo às compras desviou à igreja, a agradecer. O alimento voltava. A bolsa escondia secreto dinheiro curto suado, na linha certa do ter. Entrou e orou, regozijou. Não conto o que não vi, que sei foram muitos. Voz do pastor convencendo convencendo, até convencer. Na graça ela ofertou o que tinha. O supermercado acabou. Houve depois muita briga. O macho marido se pôs à igreja, abençoada junto. Vai devolver, enfiou aos ouvidos dela. Bate-boca alto no altar. As notas já eram de Cristo, o ungido acenava. Revoltado o homem gritou à polícia. As fardas chegaram. Contaram-se duas histórias de um fato só. Vai não vai, vai não vai, até ceder. A igreja devolveu o dinheiro, e por ele toda uma compra de mês.

 

 

Cortar no Broto

A Marielle Franco, em memória.

 

 

Os olhos da mulher explodiram ao ouvir-nos. Sua boca começou a balbuciar, a dizer-nos coisas de admiração e agradecimento em suaves doçuras. O impacto se deu por contrameio. Que num instante nosso ela ouvia a voz da favela em corpo de asfalto a pronunciar.

Agora outro mover. Observamos sempre e muito, cabeças cultas ou com um certo letramento, nunca entenderem ou se falarem em incompreensões, o do por que os de fora do crime nos morros não colaboram com as forças e o poder do Estado. Caso isso acontecesse, como nos diz Judith Butler, seria colaborar com e de quem ao contrário temos que nos proteger.

Observamos também que não só nas favelas, mas nosso foco aqui é nelas, há um forte pensamento de vida sempre nascente em jeito de existir, de querer se concretizar, e assim produzir outros mundos, noutros olhares e relações. Quando então uma bala-polícia atinge um corpo no morro, nos longes, nas periferias; mais que matar esse corpo, o alvo maior é fazer recuar e morrer qualquer pensamento livre, brotado e sustentado por cabeças do povo. Matar então é colocar a morte nos corpos vivos, dilacerando a fundo toda e qualquer comunhão verdadeira que possa existir. Principalmente entre quem quase ou nada possui.

Pulando Fogueira

Passamos dias terror que nos acertaram sublime. Professoras cúmplices com a Secretaria de Educação, às fofocas tentavam confundir os bandidos. Pondo-nos momentâneo aos olhos deles como grande inimigo traidor. Num arranjo, chegaram a nos acusar frente a numeroso grupo, de total erro nosso pelo não envio das planilhas escolares de comparecimento às aulas, para a seção competente. Ou seja, se eles alunos perdessem dias de remição a culpa seria só do professor, no caso nós. Nisso estávamos com a consciência tranquila, pois era um jogo de descaso alheio mais o emperro da burocracia. Como tudo foi bem armado às surpresas, ficamos com enorme desconforto. Não sabíamos no que daria; e que até poderíamos ser condenado por todo um coletivo de cadeia que tanto amávamos. Porém, nem eu nem as acusadoras percebíamos, de que estávamos frente a frente com saberes. Por tal, certamente enganados por nossos diplomas e sapiências acadêmicas, mais ignorâncias de vida e de classe social. Foi nesse dia de verdadeiro tribunal montado sem que percebêssemos, que ao ver-nos em apuros e cheio de dificuldade para defender-se, nossos grandes e queridos amigos do crime socorreram-nos. A perspicácia deles, mais suas racionalidades, destruíram a farsa montada em manifestações de revolta e visões de acerto, certamente ao que poderia ser mas não foi, nossa expulsão definitiva de Bangu III* e assim de todo o complexo penitenciário. O que afinal, elas professoras acusadoras tanto queriam.

Não satisfeitas ainda, houve uma segunda tentativa das farsantes contra nós. Só que nesta, amigos mais balizados, perguntaram para nós professor qual era nosso objetivo ali. A resposta nunca poderia ser outra: somar; estar junto com eles de mãos dadas. Ao que os responsáveis para desfazer as intrigas disseram-nos em bom tom, que deixássemos, pois eles resolveriam tudo. Num instante logo após, chamadas as professoras intrigantes e acusadoras, as vozes da cadeia pronunciaram-se de que não permitiriam mais nada do que estava ocorrendo de ataques injustos, invejas e ódios naquele meio. Numa ação de justa visão.

Agora a finalizar ou começar, não sei bem. Ainda analfabeto de cadeia e do crime, mente algemada ao mundo de fora chamado de livre, tínhamos a visão de que por lá, naquelas grades e celas que acabei entrando um dia, só encontraria bichos, feras imundas, traidoras e irracionais. Só que já no primeiro contato do primeiro dia encontrei pessoas como nós. Assim, no avanço da vida gradeada construímos amizades calorosas e fieis, rivalizantes com as sublimes daqui de fora. Na lição certamente aristotélica de que amizade nasce de almas e nunca de classes ou lugares. Ainda, mas demorando-nos a perceber, aos vagares e lidares fomos reconhecendo ali, naquela bandidagem toda de crimes, sofrimentos e atribulações profundas, uma outra realidade desconhecida. Colocando nossa vida em consciência, de que lembradas todas as mestrias acadêmicas, só nas cadeias de Gericinó conhecemos carne a carne, alma a alma, a inteligência.

 

Nota do autor: Bangu III* refere-se à antiga Penitenciária Dr. Serrano Neves, antes de ser dividida pelos esquemas repressivos do poder estabelecido em duas unidades prisionais.