Fumaças

Novamente na tabacaria. Pensá-la me lembra Pessoa*. Entro fingindo distração no verdadeiro tímido que sou. Logo envolto pelo barulho civilizado de animada discussão. Os charutos fumegam. Par de olhos me fixam desde a entrada, como se já por lá me esperassem. Cauteloso ocupo mesa em separado. Mas os tais olhos me convocam. “Olha gente, esse aí chegado agora tem dez anos de cadeia!” Todos param, me fitam, e sou obrigado a virar-me em atenção, o grupo inteiro me quer. Assuntamos cadeias, facções, bandidos famosos e carceragens. E ao meio destes objetos, interligando-os e os mantendo à superfície, um espírito não pronunciado em subjaz ao dizer, o arauto de verdade que toda conversa possui. E a ela, a esta verdade, é que vamos.

Os charutos e as fumaças puseram-me a acordar. Ao consciente de que se certa parte do mundo os odeia outra os venera. Aí ou aqui a nossa clara pergunta: por quê? Ou seja, o que os bandidos-líderes de facção têm que os fazem admirados e famosos? E isto também por quem não é nem está no crime. Um ser famoso que extrapola a linha marcada da delinquência. Continuando. O que existe neles que nos atrai? Até às vezes nos encantando um pouco? Num campo de um certo heroísmo? Agora sim chegamos aonde queríamos. Saboreio em manifestos do inconsciente coletivo, de que há uma grande ação periculosa e bandida que necessita ser feita. Arquitetada em conjunto nacional e posta ao fogo da história e da vida a preparar-se; o mudarmos para o tempo de um outro estado de coisas.

 

*Nota do autor: Fernando Pessoa, poeta português. Escreveu o poema Tabacaria.

Banquete do Povão

“Laranja no campo! Laranja no campo!” A última vogal da frase repetida em alta e longa chamação; sempre na voz Ieié em boca de poder no quintal. À ordem do grito almuadem* nossas pernas corriam. Antes, o alerta da espera nos comunhava. E uma ou duas vezes ao mês o caminhão despejava. Correndo em festa, cada fome buscava ser mais rápida que as outras, na maratona da vida. No apanho irmanados ninguém brigava. Pés e mãos famintos remexiam, procuravam, catando as melhores; as que ainda davam pra chupar mesmo que só num pedaço. Em acidez alta, depois o intestino respondia. No monte amarelo meio lama macilento e podre, cada pé servia também de mão sentindo uma boa por baixo. Catávamos alegres, trocando assuntos e admirações por estarmos ali. As bolsas voltariam cheias, que enfim chuparíamos em casa. As laranjas do campo.

Mensagem no celular:

Ganhamos um caminhão de tudo. Jogaram ele na praça. Foi ontem. Peguei um pouco do que me faltava: linguiça, carne-seca e latas de doce. Estas faz anos que só via, e nunca comia. A multidão avançou, sem brigas, e se distribuiu. Era de supermercado. Caixas e caixas; ficaram todas vazias, fora as que levamos. O armário e geladeira, pelados de quase tudo, agora me dão moral de garantida, sem tanto de fome por não ter o que comer. Meu quartinho ficou até mais alegre, feliz. Também, de que adianta televisão se me falta comida. Todos têm celular, mas poucos o que comer direito. O bauzinho lotado chegou em santa hora de Deus. Presente dos homens da facção. Chamados de bicho. Que nem são bicho assim, cuidando dos nossos estômagos, do nosso fartar, da vida. Se é roubo, nada me importa dessa legalidade aí, pra lá de demônio, com muito de morte e de traição.

Hoje no fogão feijoada gostosa. Naquinhos de toucinho e de carne; um céu. Te espero. Vem.

 

 


Almuadem: pregoeiro que do alto da mesquita chama os fiéis à oração.

Um Soco no Mundo

Na moda atual de tudo o que acontece brilhar pelas telas dos celulares, mostraram-me umas imagens ontem na tabacaria. Ei-las. Numa estação de ônibus dois homens se preparam visíveis para atacar e roubar certa mulher. No preparo, um se colocou na dianteira da vítima enquanto os três andavam, e outro atrás. Então o de trás se moveu para atacar. Num segundo, forte negão sentado que filmava tudo com o olhar, levantou-se e sem a mínima chance com violento soco botou o ladrão de trás no chão. Fim do pequeno filme.

As interpretações e manifestos ficaram mais truncados que audíveis. Somente o espírito de que temos que reagir pairou pelo ar, inundando as fumaças dos nossos charutos e colocando pequenos braseiros nos silêncios desconfortáveis.

Agora o que ruminei pela grudência daquelas imagens em mim. Todos nós deveríamos ser iguais àquele negão do soco bem dado. Porém, entre todos ali, ele, o negão defensor da mulher, é o mais indesejável e perigoso para a ordem estabelecida;  muito mais que os dois ladrões. Lembremos. Quando acontece de alguém reagir a um assalto e sofrer agressão, ferimentos e até piores, ressurgem as ordens e orientações dos centros de poder para nunca reagirmos. A passividade é o melhor remédio. E que cabe só à segurança pública a proteção de todos. Isto tem um fim.

Ao menos virtualizar defesas e reações a quaisquer ataques e injustiças, desde pequenas perdas no comércio, passando por ilegalidades e corrupções dos órgãos públicos, até darmos um soco ou surra em quem nos rouba ou assalta, não é interessante. Existe todo um aparato mascarado de não permitir que certas reações individuais ou coletivas aconteçam.

Um homem reativo pode, de maneira justa, nocautear o policial que cria artimanhas para lhe arrancar algum dinheiro. Este mesmo homem, numa certa manhã pode acordar com vontade de matar o político que tanto lhe rouba e engana. Na passeata política, a multidão avançar e pôr a correr a polícia que a reprime. Dizer o não a injustos mínimos, principalmente os ditos banais. Se negar a viajar em um trem impraticável. Criar barreiras às multidões de injustiças que põem e empurram em nossas almas. Este é o negão da estação, com alma de reação. Por isso muito mais perigoso e indesejável à ordem do que os dois ladrões. Que estes, já estão marginalizados e seguros pela marca da delinquência. Já o negão do soco, ao nocautear um fardado qualquer da lei, coloca todo um mundo abaixo, no chão.

 

 


 

 

Somos um povo que morremos de ódio por um roubo de celular. E nem nos importamos por roubos da vida inteira, os dos políticos.

 

Na Estrada de Gericinó

Meus leitores, penitenciários ou não, são iguais a mim quem os escreve; pessoas.

 

 

Volteando após uma estada longa. Com papel que não me dá alforria. Dez anos contados aos dedos, aos segundos, como todos uns de nós. Mundo agora opaco, desconhecido, a prosseguir. Meus passos, em torno de uns dez ou vinte, não contei. O presente, sem importar tanto as contas de mais ou de menos, é este recaminhar. Os pés me carregam receios. Não sinto nada da grande euforia, dos gritos de liberdades, do não voltarei jamais, das alegrias no retorno. Todos em volta rindo e se abraçando, numa chegada de céu. Folha-soltura me leva, aonde ainda não sei. Por dentro chão duro, realismo puro. O mundo nunca foi de doce. Já estou talvez nos trinta. Levanto um pé, o direito, a mais um pisar. O barulho do próximo dá sinais de engolir-me. O da avenida não, que ainda está longe. Meu corpo irradia-me a tudo; interno que sai. Me apago dos que ficaram. De todos enfim que me ajudaram vencer, a transpor. Dez anos vinte oito dias mais sete ou oito horas. Marquei no relógio mental. Na parada da cancela não sei como me tratarão. Se num ar de forte suspeita, impedimentos e maus tratos; ou só manjamente mais um ou menos um. Insegura-me bilhete no bolso, que podem querer, desconfiar. Mas afirmo-me, é só por um número. Inferno é saber da minha verdade, quase nunca batendo com as deles, dos guardas. Devo estar ao pé dos quarenta, um pouco mais. Corpo de pé devagar. Viro-me; e a distância do grande portão. Visto de dentro a grande saída. Que talvez nem seja. Ou então manifesta entrada; numa etapa desconhecida iluminada de esperança. Quem sobreviver venceu. Não estou contando passos. Ninguém me olha, ou fingem. Solto-me como que saindo de uma grande fábrica, ou de escola, mas de vez. Sem planejo de nada além de sair. Só no chão do caminhar da estrada. Uma curva. Música aponta cantar-me. Mas engolida de gesto sem clareza, emudece no corpo que nunca sabemos fundura. As superfícies mesmo, quem são elas. Jogo uma bala na boca, em primeira de rua. Quis uma farra de volta, só bebendo e rindo. Quem sabe ainda aconteça. Muitas cadeias na estrada, termino que aumentaram. A cancela lá embaixo. Um vazio. Pontos negros se mexem, os panos pretos dos guardas. Quem sai quer logo mesmo sumir. Vou uma paradinha no cigarro e café, recuperar. Já bem depois da curva, entrando na reta. Fui.

 

 


 

 

250.000 brasileiros já presos e sem julgamento; 40% da população penitenciária. Segregação. Na verdade já condenados por antecipação e INJUSTIÇA, em uma sentença que nem se sabe ainda.

Cópias – ou modo de saber em cópia e decoração –

Os Karamázov* foi quem mais me envolveu. Ivo viu a uva, Ivo viu a uva; no início primário. Escrever repetir, escrever repetir; até copiar. Se o saber não existe, tudo é permitido. A repetição e a cópia. A repetição e a cópia.

Escrever bem certinha a frase. Sem ponto a mais ou a menos, a fixo da higiene e do medo. A multidão não sabia. Escrever mas nunca contar. Pensamentos em certo fossem outros. No meio da cabeça e da mão nunca acertação. Nem tico de vogal escrevia. Início meio e fim; início meio e fim. A mestra sapiente na frente. Escrita perfeita. Repetia.

Precisou que chegasse de fora. Que num escapismo contasse, fazendo um pouquinho sair. Barulhenta, muito, aquela prisão não dizia, à mudez de um saber.

Tem que chegou dizendo podia; pelo menos tentar. Quem sabe outros saíssem. Qual o caminho da letra; descobrir. Acertar os dedos na mente; contar. Mas todos já estavam em cópias. Nem quem nos ensina sabe. Jamais também aprendeu. A letra que não escreve. E se o saber não existe, tudo é permitido impor.

 

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Nota do autor: Karamázov*, Os Irmãos Karamázov, romance clássico russo de Fiódor Dostoiévski. Uma história de parricídio.

Rio da Guarda

Minha alma são muitas pessoas.

 

 

Não havia água em casas por aquele distante; só a bica longe. Riscos de caminhos entre as gramas conduziam pés descalços ou de tamancos, feito formigas trabalhadeiras. As ruas da ordem já estavam prontas; que não as usávamos. O tempo parecia antigo. Virtualidades meninos e meninas já se balizavam ou até apareciam por algumas peles. Mas o futuro adulto não chegara por nossas cabeças; estava só pelos nossos pais. Pés e mãos miúdos caçavam trabalhos carregadeiros ou catadores de algo, na busca de alguns tostões. Uns mais e outros menos.E outros em outras direções afins. Os olhos se guiavam sem um cerebral tão formado. Não tocávamos a dureza crua do real. Aquele que nos mataria uns, enlouqueceria outros; e aqueles outros que ninguém esperava ou via. Que só o Destino sabe. Porém nossa criancice cobria tudo. E brincávamos a vida pela bola de meia e caçadas. Assombrações assustavam pelos cantos escuros; criadas por um grito qualquer, mas de valentia irmã, comunhão.

Tem que chegou grande monstro de fora, pelos jornais e as rádios. E criou-se um medo em partilhado, morando pelas almas da gente. Nossos pais não diziam nada; por muros de proteção aos abalos e até desfeitos. As línguas e as bocas dividiam fatos, aumentando ou diminuindo aos pratos dos temores comidos. Que sabíamos sem muito ver, o de aquilo poder também nos atingir, sem um prévio de não. A baixa igualdade nos igualava. O distante está aqui, rondando-me mas já em alma; de meninos e meninas recuantes, recuadas ao obedecer de quem limitava o mundo. Só aquele aonde respirar e andar.

Milícias de extermínio nas baixadas pobres. E à noite, bem mais noite, jogavam e afogavam mendigos. O rio era por ali, meio que também pela gente. A segurança das casas podendo ser toda desfeita, invadidas por uma força maior que ali chegasse. Pois mesmo que dissessem só mendigos, ao claro que podia ser qualquer um, incluindo nós. Formávamos um visível; o de um para qualquer um. A pulsão da vida alertava. Nesse denso de tempo crescíamos pela natureza, achatados por muralha repressão do medo; vinda de cima conforme Deus. Por assim posto, algo de nós jamais poderia sair ao mundo, o sossego da liberdade.

Veio que outros tempos conforme o mando. Tiros sobem e entram aonde querem entrar. Antes caçavam mendigos, delinquentes e outros indesejáveis quaisquer. E nesse põe e repõe estraçalhavam certeiros todos também do ao redor. O isto por aquilo, de sempre.

As balas atuais, bem mais longas, atingem todas as cabeças da mesma altura ou distância; de um neném bem fofinho até resinosa velhice. No medo da morte que todo estampido impõe.

As Prisões da Liberdade ( em uso corrente dentro das cadeias )

Nos sentimos livres quando estamos mais presos. Aos inícios, qualquer um de nós que lecionávamos, vínhamos antes cheios de medos ao horror e separações. Trazíamos sem saber nossos próprios grilhões, que as ordens das portarias e secretarias só reforçavam. Até porque antes, nenhum, mas nenhum mesmo,  podíamos entrar livre. À ordem nossos horrores e repulsas serviam mais, se encaixavam aos princípios benevolentes.

Cada pessoa docente trazia o bem, assentado nas ordens vistosas. Quem vem, vem para ensinar. A dizer o descobrir um mundo melhor e ainda resgatável. Mas não, à prisão levávamos mais prisão; melhor, muito mais prisão. Na cadeia, qualquer cadeia, só pode e entra mais cadeia. Até porque este é o grande dilema prisional. Algumas professoras chegavam tremendo ou intensamente recuadas por dentro. A alma liberta. Portanto, parecendo estar tão perto, manter-se o mais distante possível, no seguro, na higiene do grande medo.

Então, tudo que entra, entra com mais correntes, barras de contenção e algemas. E nisto, o permitido de fora serve. Aprisiona-se infinito pelo grande engodo. O grande engodo das instituições resignadoras; da escola, religiões,  padres, professores, com a grande noção do bem chegante. De mim, professor, com pequenas falhas, tirei minha máscara de sapiente mestre da liberdade e do bem nos momentos precisos. Nunca que eu poderia enganá-los. A alma assim me pedia. Pois que eles já se encontravam presos mesmo antes de estarem ali. Que liberdade só conduz à liberdade, prisão só nos encaminha à prisão. O discurso nosso pensado e refeito.

Cúmplices, eu e os bandidos começamos a libertar, em nossos bons-dias serenos.

Razão e Delinquência

Aos penitenciários, amigos meus.

 

 

 

Quando entrei eu sabia dos cuidados. Antes porém com o desconhecido que poderia e estava fora e não dentro. Pois que todos de lá, sem erro de marcação já se encontravam individualizados, rotulados, carimbados por uma marca de vida. A imposição das grades diante dos olhos e entre mim e eles, a identificação.

Mas os ferros e aços de contenção podiam ser transpostos, figurados na alma e corpo de cada um nos corredores e celas. Eu também que vinha de fora precisava e queria fugir. E assim fomos entrando em outros mundos. Deixando-nos envolver pelas manifestações e marcas das nossas histórias. O que é ser amigo sempre em jogo. E aonde estávamos, um poço intenso de manifestações delinquentes. Aos tratos e relações íamos tirando as nossas máscaras; a minha de professor senhor da ordem e do saber, a deles de internos delinquentes. E então fomos nos entrechegando.

A delinquência dos guardas, misturada a uma certa moral e pureza sempre postas à frente, num certo tempo desorientou-me um pouco. Mas precisávamos prosseguir. No cipoal carcerário íamos traçando a nossa busca. Não o imposto por entidades e tradições, mas o que pudéssemos e nos viesse ali, na clareza e mistérios das nossas almas. E avançávamos quando deixávamos de ser professor e eles bandidos, em alguma só pessoa que nascia. E a nossa igualdade vinha com ela, descoberta e ensinante, nos respiradouros da vida. As marcas das diferenças sociais, grades da alma, nos ditando distanciamentos, nojos e erros, os destruíamos nos achegares.

Aonde estamos realmente nós. Esta a pergunta a ser esmiuçada, perseguida sem cansaço. Estamos sem o outro que somos nós mesmos. Nunca fiz favor nenhum sendo amigo dos meus amigos presos, esclareceu-me certa voz de inteligência. Eles também são alma, trazem uma dentro de si. E nisto iguais a nós.

Havia ali, naquelas grades dentro das grades, uma luz que nos guiava. Nos deixava correr, avançar. Estávamos num brilho de certa soltura, como de alguém que finalmente vê.

Prendeduras

A prisão é muito mais que a prisão.

 

Teremos menos cadeias, quando os muros das nossas casas estiverem mais baixos.

 

 

 

Da página Montaigne* mergulho a outra coisa. Às peias da não-entrega por ato tão prazeroso de ler. Além mais, eu mundo sempre como ter a realizar à frente, num futuro a ocupar-me em ansiedades de não-solturas. Por muito que almeje liberto a algo, pensamento somente eu, não consigo completar-me. Ao redor invade-me em barulhos, horários, culpas, afazeres e coisas tão pequenas como já me lembrou Pamuk.** Parece-me que não sou nem de mim. E de umas gentes de cidade acorrentadas, como de nunca a terminar.

 

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*Montaigne: Michel de Montaigne, escritor do Renascimento francês. Autor dos “Ensaios”.

 

**Pamuk: Orhan Pamuk, escritor turco, vivo. Nobel. Escreveu “Meu Nome É Vermelho”, entre outros romances.

 

A Cor da Nossa Voz

A R.L. em memória.

A Michel Foucault, ainda que póstuma.

 

 

Viajo ao metrô por longa agonia. Uma face como em algo desejante, na outra em uma contra-ordem talvez. A descoberta da verdade para além da verdade. No transporte todo um mundo de cadeia, de coletivos relembrantes, ações e visões de grades, se retornou. Ali, naquela soltura toda de trilhos e vagões, talvez que ainda eu estivesse preso. Que boca de rua, em tino de luz furadeira, soltou-me uma voz em ouvidos a ouvir.

Lá antes, dentro da razão interior e por parte dela, preparando-me para trabalho em Gericinó e por meus primeiros dias, a moral nossa de liberdade alertava-me em formas de mais brilhante luz por algumas frases. E numa delas, a ideia de que lá só encontraria o mal e que eu sempre poderia ser roubado. Pois que, cercado, mergulhado em mercê de intensa delinquência, as escapatórias seriam quase nulas. Que então assim, toda a muralha pessoal contra roubos e traições se fortalecesse mais. Mais do que todos os mais, aos infinitos mais. A desordem bandida mora lá dentro, ao contrário do correto e santo mundo de fora. Aqui ponto capital: sabermos o objeto real desta dita verdade, eis clarividente ação.

“Minha comunidade é vermelha, a porta pode até ficar aberta.” Em claro dizer de que onde ele mora existe uma ordem, disse-me a voz na rua. No antes de respeito ao outro por aquilo que é do outro por pertencer-lhe. Meu vizinho de beco, de viela, de rua, de favela ou de bairro também sou eu; em igualdades por condições, moradias e lutas. Lá, como uma contra-verdade, a nossa verdade, comunitária, se nasce, se respira, se põe. Na coragem da decisão. Por outras verdades de vidas.